“Algumas falas da Cracolândia.”


A loucura se reveste de varias e infinitas formas; é possível que os estudiosos tenham podido reduzi-las em uma classificação, mas ao leigo ela se apresenta como as árvores, arbustos e lianas de uma floresta; é uma porção de coisas diferentes. 

Lima Barreto – trecho de Cemitério dos Vivos

O taxista Gilberto, 12 anos trabalhando na região da Cracolândia, fala sem pensar muito:

– Tem “nóia”, tem menino aventureiro, ladrão, traficante, gente desiludida … e muita tristeza…

Gilberto fica parado na Avenida Rio Branco, perto do quadrilátero que já foi chamado do prazer, perto da zona, perto do fim da cidade.

A semana da eugenia, da gentrificação, do higienismo, do “vamos vencer pela dor” marca um divisor de águas. Varrer a droga é difícil, então é melhor varrer as pessoas. Não, não, nunca houve uma interrupção na lógica de expulsar. Do centro pra longe. O centro é a síntese da exclusão que a cidade opera no geral. O centro não pode ser dos “nóias”. Avante, espírito bandeirante.

E pergunto ao menino seu nome, ele diz que não tem nome há bastante tempo. Não insisto, seu nome foi embora e ficou o olho retesado, o resquício de ironia que ele arranca da boca e me faz sorrir, meio torto:

– Minha família tá perdida na quebra, na ZL, eu tô aqui… não tô perdido…tio, depois desse lance da Copa do Mundo a coisa melhora, mas os coxinha … as noites são de horror.

Eu fico com meu pensamento confortável a imaginar as noites de horror, de sono interrompido, de sono inexistente. A vida porrada não é videogame. O menino vai embora e dá de ombros dizendo que o “um real” que eu dei pra ele é falso. Sorri maneiro, ele não tem nome, mas ainda tem graça. Some na rua qualquer.

Manhã de sábado, o sol estalando, o comércio correndo solto. Nas bordas da Rua Santa Ifigênia se vende de tudo. Tem gente circulando, não como sempre, pois, mês de férias. Mas o movimento dos nóias é diferente. Um sem rumo, não pode aglomerar, nem bodar na calçada. Tem que circular, os olhos vidrados parecem faróis no meio do clarão do sol, a cidade grande fica pequena. Cobertor encardido, roupa no corpo há dias, mão tremendo, sorriso indefinido, o olhar em lugar nenhum. Não tem glamour nesta droga.

E de novo Gilberto, o taxista:

– Aos poucos os moradores de rua foram se misturando ao exército da droga e aí ninguém sabia mais quem era quem. Conheço morador de rua que virou nóia, que virou puta, as pessoas mudam toda hora de lugar nesta vida…

É evidente que em meio aos viciados em crack nas ruas, tem famílias inteiras, solitários, os perdedores de sempre. A droga é parte da coisa. A quantidade de pessoas pelo centro de SP andando a esmo com os olhos estalados pela química, pelo medo, pela desorientação é impressionante. Os catadores de papel solidários entre si, em geral com suas garrafinhas de plástico com pinga e seus cachorros inseparáveis.

Pedro do Boné, catador de papel, 15 anos na rua, golando uma branquinha:

– Os nóias se esticam por ai como a gente. Não incomodam. Não mexendo no meu carrinho, vivo a vida.

Não cabe romantismo e são vários tipos. O rapaz que veste roupas de marca e que parece apenas ter dormido uma noite por ali. Não esta no trapejo, na batida das ruas. Será “nóia”, será “trafica”, meio cismado, misturado ao exército de tipos de rua, cochicha no ouvido de um rapaz e saí vazado pela Rua Vitória. Ao olho nú de quem passa rápido é mais um. Volta depois e faz o movimento. Na função, normalmente.

O moço cismado, com a camisa do Atlético – MG sentado no sujinho:

– Continua tudo rolando, nada mudou. Quem ganha dinheiro continua a ganhar, quem perde a vida… nóia? Só espalharam por aí…

No sujinho perdura a falação, o sentimento geral é de que não vai ter jeito, os nóias vão voltar. Os anos passaram e a convivência com o crack, com os pedreiros e com o movimento ao redor faz parte da vida daquela gente. Tem a violência, a sujeira, as relações se misturam: medo, desprezo, compaixão, repulsa, uma solidadariedade ali e aqui. A cerveja é quente demais. Peço uma Brahma que saí da geladeira formal. Quente.

O espaço é confinado. No meio da Duque de Caxias, um brutamonte com um taco de baseball na mão e capacete de motoqueiro cravado na cabeça corre atrás de uma dúzia de nóias. Blade Runner. A fala é seca, o brutamonte: vocês já conhecem a gente, é simples, só vazar… os rapazes, velhos, crianças, moças, aos trancos e barrancos correm e vazam e nem sabem para onde. Uns xingam, quixotes.

Volto ao Gilberto, o taxista:

– Quem são esses caras com taco de baseball?

— Seguranças das lojas… bom, você não vai me complicar?

Tranqüilizo o capixaba que mora no centro desde 1993 e trabalha como taxista desde 2000:

– Não tenho como, não vou e não quero te prejudicar, no máximo ponho isso no blog e você se chamará Gilberto, ok?

– Esses caras são de empresas de segurança e ficam ali, eles não batem em ninguém, apenas dispersam o povo. Nóia tem lei, morador de rua tem lei, segurança tem lei… agora eles entenderem a lei dos PMS…vixe…

O debate do boteco come solto. A conversa passa sobre o prédio que não caiu (acham que roubaram a dinamite), assuntos locais, futebol, as correrias de cada um… e claro, os nóias. A cerveja quente no dia quente já não faz diferença.

O amigo do atleticano, com sotaque forte do interior de São Paulo arremata:

– É como barata, não tem jeito, tem que matar, senão volta em dobro. Outro dia dei uns trocados pra um deles, voltou com uma faca para me roubar na mesma hora. Trabalho aqui e tenho que me defender, dei umas pauladas… é como barata...

Passei por várias praças, todos com carros da PM estacionados. Nem sempre é assim tão rigoroso. Largo Santa Ifigênia, Sala São Paulo, Estação da Luz, Museu da Língua, Praça Princesa Isabel, Praça General Osório … tudo bem guardado.

Um rapaz, idade indefinida (não dá pra chutar) abraça uma garota que dá pra definir a idade, tem menos que 15 anos. Os dois deliram no sol, parece sonho conjunto, mas ali no máximo é bad trip de asfalto, pesadelo de verdade, sem música de fundo. Não tem amor que resista. Dois minutos, ele sai praguejando e batendo os braços:

– Vai ser muié de coxinha, porra… saí da minha reta…

Três horas e meia bandeando por ali, vou ficando sem função, como dizem os descolados: dando guela. Vou embora. Peço pro Gilberto, agora quase brother, pra me levar para o outro lado da cidade (eu tinha pra onde ir). A gente foi papeando, pergunto se ele já não cansou daquela tensão da região. Gilberto olha pra baixo e responde sincero:

– Engraçado, acostumei, fui ficando, agora não saio mais… no final das contas todo mundo ali é gente, boa e ruim…

A Cracolândia tem gente, uns trabalham, uns moram, outros morrem. Gente não se dispersa assim, não dá pra varrer.

Projeto Urbano: Plano das Avenidas, São Paulo (1920) – Arq. Francisco Prestes Maia, Fonte: Hugo Segawa (1998:26)

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21 comentários
  1. agoraquando disse:

    Bonito demais, Ricardo!

  2. Amigo Ricardo, só um coração enorme como o seu e uma sensibilidade extremada para conseguir escrever com tanta suavidade sobre um tema tão duro.
    Estou em estado de choque com que estão fazendo com esses seres humanos.
    Poderia ser eu, você ou qq. um de nós ou dos nossos. Não dá prá esquecer disso
    abraços amigo.

  3. Como diria o bordão daquele antigo seriado: A verdade está lá fora! Triste de quem não quer ver!
    O Sakamoto também publicou um texto muito inteligente sobre esse assunto – dá uma passada lá!
    Políticas públicas dessa natureza já foram tentadas em outros lugares e em outras épocas. O resultado sempre foi desastroso. Sua sensibilidade, ao tratar um tema tão árido, é comovente! Grande abraço!

  4. Amanda disse:

    Lindo texto, a história é que daquelas – e pensar que as coisas já eram assim em Sampa quando eu mudei pra Brasília em 2004. Incrível como nada mudou, é uma cidade que parece ter parado no tempo. Quer dizer, agora vai ser o retrocesso né? Tentar limpar os drogados do centro é no mínimo jogar um band-aid numa fratura exposta. Abraços

  5. Ricardo,

    Frequento a região desde que vim para SP, fim dos anos 80, antes para ir aos cinemões ( Marabá, Olido), eram grandiosos ou ir passear por livrarias e sebos, tudo isto acabou. A única coisa que me leva sempre ali ainda é a Sta Ifigênia. A decadência acentuada, a exclusão social, o abandono, perfeito você pegou com maestria. Há sempre aqueles que vão indicar os textos do “blogueiros estrelados”, do meu lado vou sempre preferir nossa crueza e visão poética do “Centro”.

    Abraços

    Arnobio Rocha

  6. veramp2 disse:

    Belíssimo texto, Ricardo, observação aguda e extrema sensibilidade. Vale por muitas teses acadêmicas.

  7. Que triste tudo isso… O último vagão (o dos presos e dos loucos) desse trenzão chamado Brasil descarrilou mesmo, como botar de volta nos trilhos? E desculpe a ignorância, o que é nóia e coxinha?

  8. Carlos Henrique Machado Freitas disse:

    Exelente Ricardo.
    Lembro que vi uma unica vez as pessoas na cracolandia e lembro tambem como aquilo não saiu de minha cabeça, martelando sem parar….Falencia do estado falei, falencia da instituição, perda de rumo, de humanidade, de tudo.
    Até hoje ( e vi este quadro ja tem 6 anos) lembro e lembro de cada detalhe de nossa falencia, de nossa incapacidade de retomar um sentido de humanidade.

  9. Olá Ricardo, obrigada pelo post. É entristecedor pensar, perceber como por tantos anos nos acostumamos em ver maus tratos e achar que não há solução. A questão envolve tantas coisas: tráfico, dependentes, comerciantes, cidadãos, polícia, governo, só um projeto transversal que alcance todas estas áreas pode começar alguma mudança nestas paisagens. Desejo que alcancemos isso. Abraço!

  10. Olá Ricardo,
    Verdadeiramente triste o texto, mesmo com toda suavidade da escrita.
    Nos dias que fiquei pintando o painelzão da prestes maia, vi a transformação daquela região do periodo manhã/noite.
    De dia pessoas circulando, trabalho, comercio,e tal…de noite é outro tipo de movimentação, sinistro. O que estão fazendo ali é algo paliativo…limpando a área para a expeculão do local. Provavelmente ocm a repressão a cracolandia mude de bairro, mas vai continuar existindo.
    Em São Bernardo, minha ruá é um trecho da cracolandia do bairro… melhorou um pouco nos ultimos tempos com a reforma da Chacara Silvestre, mas migraram pra outro locais mais perto. Não vejo por aki um investimento para tentar amenizar ou reduzir danos causados pelo crack, mais cedo ou mais tarde, vão acabar tranzendo pro ABC essa solução higienista para dar impressão de “solução” para o problema.
    Isso ai.
    Grande abraço.
    Melim

  11. Belo texto, Ricardo. Só mesmo quem escreve/tem com-paixão pode dar conta da triste e decadente geografia física e humana da pulsação de uma parte tão importante da cidade.

  12. Glaucia disse:

    Ricardo, fico feliz por sua “implicância” implicada com o sofrimento dessa população…esse olhar “de ver gente”…coisa rara pra esse povo…. meu deu alento para esses dias difíceis de tentar resistir a força pela força…
    saudações antimanicomiais

  13. Infelizmente, “a droga é parte da coisa”. Que DROGA!!
    Não podemos esquecer que são seres humanos e que necessitam de tratamento.
    Cabe aos governantes uma solução mais que imediata para esse fato pois o “crack” não está somente na “Cracolandia” mas em toda parte, em todo lugar, inclusive na minha rua, na sua, na do seu primo, do seu irmão…
    A tristeza, a desilução, o abandono, a decepção, a frustração, a carencia…, levam esses seres humanos a buscar na DROGA, o “prazer” para continuarem a VIVER.
    Sem tratamento não haverá solução.
    Saudações

  14. E a gente vai vendo o quanto é difícil para os seres humanos reconhecerem-se como tais. A gente mesmo e os outros, os nóias, os largados e todo mundo feito barata, esperando o inseticida. A realidade tem doído todo dia, mas é melhor assim, a gente finge menos que tá tudo bem. Valeu Ricardo.

  15. Thierry disse:

    gostei muito do texto, sou um dependente quimico limpo a 2 anos e é muito importante retratar que se trata de uma doença incuravel e fatal, quando vemos um “noia” na rua temos que pensar que por traz dessa vontade de usar drogas a uma vontadde grande de parar, o sistema ainda não conseguiu driblar o crack atraves do tratamento publico dos dependentes, criminalizalos é mais barato…

    (Thierry Vieira de Abreu)

    • Thierry,

      seu depoimento vale o texto, olhar de dentro é difícil pq doloroso e intransferível, força na sua recuperação.

  16. Muito bom o seu texto e difícil encontrar artigos sobre a cracolândia vendo aquelas pessoas como indivíduios. Claro que é um comunidade a parte da sociedade. Uma comunidade de excluídos. Estou escrevendo um pré projeto para o Mestrado tratando da cracolandia, mas com foco na resiliencia. Poderíamos conversar mais? Abraços
    Gabriela

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