Todo mundo tem sua hora.


Onze e cinqüenta e dois. Minha roupa de garçom já esta velha, rota. Cada garfada é uma a menos na conta da hora de ir embora. Tomara que não peçam o expresso, a máquina mal esquenta a água e já faz tempo. Claro que sempre reclamam. Que reclamem, apenas peço que reclamem olhando pra minha cara, reclamar com indiferença não rola.

Meia noite em ponto. O tempo não passou hoje, o auxiliar de cozinha faltou, o menino que fica lá como auxiliar do auxiliar tomou o lugar do iniciado. Uma emoção para ele. O contraste com os rostos entediados pela rotina é nítido. Rostos e mãos fazendo a mesma coisa há muito tempo. Os movimentos do rapaz eram estudados e pareciam até divertidos. Felicidade do iniciante.

Meia-noite e nove. Único casal no salão. A moça entusiasmada conversa sobre assuntos confusos e o rapaz tentava a todo o momento desviar a conversa. Ele desconversava com seus olhares e trejeitos.Tenho certeza que queria partir para um lado que desembestasse logo para a sacanagem. Na vera, não tenho certeza de porra nenhuma, só sei do relógio. O relógio bate toda hora e não chega nunca no ponto.

Meia noite e dezoito. Dezenas de talheres no lava-louças, um barulho infernal de máquina velha, uma vontade pirada de fumar. O cigarro item maldito onde se come e onde se serve. Não se fuma em restaurante, claro, muito menos o garçom, dos bandidos seria o maior se o fizesse. Fumante é bandido. Penso no cigarro queimando pendurado na boca, penso quase a fumaça, nem preciso de cinzeiro, imagino. O meu cigarro não poderia ter cinzas neste ambiente.

Meia noite e vinte e sete. O rapaz gordinho põe na boca o ultimo tequinho de brownie, o sorvete branco já fora, a moça de óculos de aros fininhos continua falando coisas complicadas e acho que ele resolveu compensar nas calorias. Come rápido e dá pra sentir o olhar de quem quer mais comida. São varias etapas na noite, nesta etapa acaba a tolerância e tudo vira uma grande massa incompreensível, distorcida. Perco a simpatia pela causa inglória do rapaz.

Meia noite e quarenta.  Lá vem o guardador de carro contar mais uma mentira absurda, a capa laranja berrante dobrada embaixo do braço explica o fim do dia. Suas mentiras são relativizadas por um sorriso simpático, que certamente vira carranca quando ele ta no bico de domingo, cambista no Pacaembu, Morumbi, porta de shows. Faço uma digressão e penso neste cara me vendendo um ingresso com preço majorado naquelas ruas lotadas de dia de jogo. A raiva vai crescendo. Ele some da minha vista.

Meia noite e cinqüenta e dois. A moça tira os óculos fininhos e o rapaz volta do banheiro trombando tudo, fuça alguma coisa no celular e sorri…para o celular, ficam mudos por segundos. A conta esperando pra ser paga.

Meia noite e cinquenta e oito. Coloquei a máquina de débito e crédito perto e não se manifestavam. Fiquei parado do lado, quase congelado. A conversa dos dois foi tão descompassada a noite toda, que na chegada de um terceiro (eu, o garçom) eles calam, não querem compartilhar o descompasso.

Uma e um minuto da manhã. A cena muda um pouco:  trocam olhares, cochicham, riem, talvez, por falta de assunto. Mas nada se resolve, cada qual no seu lado. Instante curto. Intervalo interminável.

Uma e nove da manhã. O guardador de carros fala um tchau com jeito sacana some pela porta, na certa para o boteco mais próximo. Inveja. Vou chegar novamente duas e tanto em casa, a cada vacilada do gordinho perco a chance de pegar o ônibus da uma e vinte e cinco, não vai rolar. Não vou culpar ninguém, o rapaz não conseguiu nenhum beijo, nada, nada e o brownie, eu sei bem, tava velho. Dou um desconto para o vacilo, para a demora.

Uma e dezessete da manha. Tô ainda de roupa branca a essa hora e isso quer dizer dormir tarde. O auxiliar do auxiliar se escafedeu pela porta dos fundos. Vestido com uma roupa diferente deve dormir por ali mesmo ou ganhar a madrugada na esbórnia. Bom. Todo mundo no rumo, só o gerente confere o caixa pela última vez.

Uma e vinte e três da manhã. O rapaz gordinho e a menina dos óculos de aros finos, finalmente saem, chamam o taxi. No fundo de tudo o meu ônibus passando devagarzinho. O “uma e vinte e cinco” adiantou. Vejo minha cama lá longe. Culpa do sistema de transportes. Que saco!

Uma e trinta e quatro da manhã. Sou apenas o garçom sem o uniforme no ponto de onibus, sozinho.

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4 comentários
  1. marinildac disse:

    Que lindo e triste. Você incorpora o pobre coitado e… eu acabo deprimida, buááá.

  2. agoraquando disse:

    Lindo… até abriu uma pausa na minha querela com Hans Welzel, Klaus Roxyn e a impossibilidade de dolo eventual no delito de homicídio em sua forma tentada. Graças, obrigado Ricardo!

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