“Domingo Sagrado”


Não existe coisa mais perigosa que o relativismo. Frases comuns: “Todos são iguais” , “Nada vai mudar” ,”Sempre foi assim”. E o mundo segue mudando e nada será como antes. Até para apontar lugares comuns usamos lugares comuns. Um punhado de clichês assinalados para um mundo que vive repetindo clichês nas falas e nos fatos. Uma via expressa para a barbárie.

Como se livrar desse impasse? Virar as costas e comprar um sorriso cínico para confortar dores e angustias passadas? Tripudiar sobre as ideologias como se num passe de mágica nossas vidas fossem vacinadas contra qualquer contradição?

São várias as opções confortáveis.

Vivemos no último final de semana a indignação,o sentimento de impotência frente a desocupação arbitrária dos moradores de Pinheirinhos – São José dos Campos (terreno há cinco anos ocupado), feita na manhã de um domingo nublado, à revelia de uma liminar da Justiça Federal, pela PM paulista sobre o mando do Governador Alckimin com o respaldo da Justiça Paulista. Parece que falo de países diferentes. Não, não é a mesma federação. E o país é governado sobre um pacto federativo. Supostamente.

Helicópteros, dois mil policiais, tropa de choque, rota, guarda municipal, uma liminar ignorada na calada de uma tarde de sexta e uma cobertura bem especial dos veículos de comunicação, distorção pela força e pelo convencimento palavrório. No amanhecer de domingo, simbolicamente sagrado para os descanso dos “bons homens”. E a ocupação passa ser de forma abrupta a memória dos sem teto.

Não se trata aqui de ficar batucando sobre interpretações juridicosas ou retóricas político partidárias. Os argumentos fortes para reduzir os danos e a gravidade dos fatos, ora são jurídicos, ora partidários. O ponto central é que foram colocadas em jogo vidas humanas. Que na verdade tem sua sorte rifada no contrapelo de um país (e ai não há relativização partidária que segure) onde a reforma agrária, a reforma urbana e a questão da propriedade são colocadas num invólucro sagrado e congelada pela esquerda e pela direita. O sagrado.

Criminalizar os movimentos sociais e neutraliza-los tem o mesmo efeito. Jogar no bolso oculto da história o que caminha à revelia de pactos partidários costurados na preservação de poder é impossível. De algum jeito as contradições vêm a tona, com gritos e protestos, conflitos e, infelizmente, muitas vezes com sangue. Não cabe publicizar o sangue para ganhar uma eleição, como não cabe esconder o sangue para ganhar a mesma eleição. O maior escárnio é que isso tem cabido sempre. E não é pelo pacto federativo, tampouco pelas pessoas.

Pinheirinho não se resolverá na eleição para prefeito. A força e a truculência que juntam Pinheirinho à Cracolândia não são produto de mera relação causal. É um método claro e uma via política escolhida. Resta-nos apoiar ou combater. Não adianta pedir para ignorar por mero casuísmo. Pouco se faz apenas com o voto neste ou naquele, voto este que funciona na maioria das vezes como desencargo de consciência. Não basta escolher, há que se construir o caminho. E assim ratificar que nem todos são iguais.

Soa ingênua, neste tempos de cinismos, uma constatação óbvia.

O mundo parece se engessar em velhos impasses. Que se renovam, que mudam de face, que se apresentam de formas diversas.

A música comunica rápido. Imagens e palavras. E a história se repete…

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5 comentários
  1. Perfeitas e nítidas, as suas palavras, falou o que eu queria mas não conseguiria falar. Obrigado

  2. marinildac disse:

    Não sei se entendi bem. Provavelmente não. Mas, na minha humilde opinião, esse horror todo criou um marco divisório entre PT e PSDB. Claro que não se trata de “usar sangue para ganhar eleição”, mas, como disse a Maria Inês Nassif na Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5424), caiu a última máscara dos tucanos. E esse marco, para mim, é para se usar em eleição sim. Com todas as falhas do PT, estou mais certa do que nunca das escolhas que fiz. Beijos!

  3. Espero que seja, Mari. Acredito que esta “demarcação tenha ficado clara nas eleições do ano passado. E este fato Pinheirinho veio carregar as tintas.

  4. marinildac disse:

    Só que é Sumpaulo, né? Aí a gente nunca sabe.

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