“Garoa”


Conheci minha cidade nublada. Contam que na madrugada que nasci garoava fino. Minha mãe diz que em São Bernardo geava como açucar, cidade perto da Serra. Aprendi que era assim mesmo. Não reclamava a falta de sol. A cidade antes de eu nascer era mais fria. Pensava assim. Mas ainda nos anos 70, infância, ficava dias sem ver o sol. Tal qual a “Londres de neblinas finas” de outrem. Mário.

Lembro bem do ano de 1976, manhãs gélidas, sempre acordei cedo, ia para escola perto de casa. O caderno, o lápis, os dedos, primeiras palavras, o frio, o frio…os cabelos chegavam levemente molhados na escola. Era o alerta da manhã. Roupas úmidas e improvisadas e fuga dos guarda-chuvas. Estudar no frio, o sacrifício.

Sobra de roupa de algum parente, usava uma incomoda malha vermelha grossa que colocava por baixo do guarda pó branco. Sim, usávamos guarda-pó. Nele era colocado (pela mãe) um bolso com o simbolo e o nome da escola: EEPG Estrada do Mar. E a professora explicava que a “Estrada do Mar” era o caminho que o Imperador (D.Pedro I) fazia de Santos a São Paulo. Devia garoar demais para cima da caravana do imperador. São Bernardo, no meio do caminho, recebia em conta gotas (de garoa) o Imperador.

Várias dessas histórias se misturam ao horror das filas onde cantávamos todo o dia o Hino Nacional antes de subir para a sala de aula. Cabeçudo e grandão, eu ficava sempre entre os últimos. Quase fora da cobertura, no frio, na garoa. Quando em vez variavam os hinos, da Bandeira, do Soldado e algumas canções ufanistas. Era a ordem instaurada. Sorte é que menino pode ser rebelde sem razão, muitos de nós não cantavam o hino. E ficava aquele gosto de ser indisciplinado. Achava até bonito os hinos. Muitas vezes hinos frios e molhados.

Eram frias as manhãs. Mas o frio se misturava ao prazer nos intervalos, do recreio. Garoava na quadra e improvisávamos uma bola de papel e durex. Chute para cá e para lá. Tombos na garoa. Eu, o gordo, caía sempre, levantava vermelho e já partindo para a revanche. Não podia vacilar. Estes jogos não tinham vencedor. Eram os jogos da garoa. Não consigo lembrar dos gols ou passagens geniais, apenas da quadra molhada e do desafio.

A minha infância da garoa, das tardes mais sós a imaginar jogos e passatempos. Nem sempre a rua, quando garoava, mas a rua era até mais graciosa na garoa. Inventar os mesmos brinquedos, solitários e em grupo, na garoa. Voltar encharcado para casa, não por chuva caudolosa, mas por insistir em ficar na garoa. Molhado a longo prazo. No final era como ter nadado na tempestade. Tarde inteira na garoa.

Aos nove anos, míope, os óculos inimigos da garoa. Vivia secando com a borda da camisa os óculos molhados. Dormia de óculos, jogava bola de óculos, pouco enxergava sem ele. Descobri que melhor eram as lentes molhadas do que a miopia molhada. Entendo agora que os vidros ajudaram marcar a presença da garoa. Como as lentes, as janelas, o vitraux da sala, os parabrisas dos ônibus, que me protegiam e ao mesmo tempo me lembravam que eu vivia sempre com ela.

Hoje quando vejo a minha cidade nublada e garoenta não reclamo. A fiel companheira que me viu nascer, marcou vários momentos, às vezes volta. Já não garoa tanto em SBC, foi-se o tempo dos dias e dias sem sol. Hoje os intervalos são curtos, o seco prevalece. Mas a garoa vem sempre lembrar e lamber sua presença. Bem provável que não mais nos merecemos. Eu, a garoa, os tempos úmidos que se foram.

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4 comentários
  1. lulu40 disse:

    Ricardo,

    A garoa foi uma das coisas q me atraiu para morar em SP. Quando vim aqui a primeira vez, fiquei hospedado em São Bernardo do Campo, casa de companheiro metalúrgico da Wolks, no Jardim Selecta. Lembro que fazia um frio dos diabos e aquela garoa fina de fim do dia em SBC.
    Longe de me desanimar, aquilo me deu mais curiosidade. A Garoa fez parte deste primeiro e definitivo contato.

    Abraços,

    Arnobio

  2. donasonia disse:

    A garoa acompanhou a nossa vida.
    Você nasceu num dia de garoa, e do hospital fomos até a casa da vó, andando e sentindo a garoa.
    Os cabelos do Davi ficava prateados rsrsrs.
    Eram tempos úmidos, levar o bebezinho todo agasalhado para casa, tempos diferentes.
    Muito bom lembrar, também sinto falta dos dias… semanas de garoa.
    Lindo post
    Beijos

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