Ederaldo Gentil, compositor da música brasileira


Ederaldo Gentil faleceu na última sexta (30/03) à noite. Ederaldo Gentil, tenho que explicar, era um sambista, profícuo sambista. Sambista baiano, compunha sambas tristes na Bahia. É difícil para muitos admitir que o samba é triste, ainda mais quando baiano. Ederaldo caprichou tanto que fez até um samba com um título para despistar “Esquece a Tristeza”:

Deixa esta tristeza

E vem brincar ao lado meu

Lembra é carnaval

E ficar triste

Hoje faz mal

Ederaldo nasceu na Bahia, e ali no centro de Salvador, achou seu rumo no samba, no carnaval, nas brincadeiras de menino, cantou junto com o povo. Inspirado, compôs logo depois e mais ainda, cantou suas composições. Se virava como podia e a música não lhe deu sustento. Entre bicos e descaminhos aportou no carnaval. Carnaval não paga salário, nem garante título. Mas foi (é) assim com muitos e Ederaldo não desistiu:

Lá na Bahia

Todo branco tem um nego na famia

Gegê, Bantu ou nagô

Seu doutor, vim de Luanda

Pra namorar a sua fia

Nego amor, nego amor

E o compositor brasileiro, Ederaldo Gentil, foi fazer música pra mais gente ouvir. Despontou, muita gente o “descobriu”, fez sambas (alguns tristes) gravados por Jair Rodrigues, Conjunto Nosso Samba, Eliana Pitman, Roberto Ribeiro, Alcione, e continuou Ederaldo do centro de Salvador:

Vem que a feira é do rolo 

vem quem tem pra rolar 

quem tiver faz o troco 

quem tem para trocar

E o samba que pouca importa se nasceu no centro do Rio, na Bahia, no Vale do Paraíba ou  se já o era na África,  este  samba acolheu o rapaz Ederaldo, o homem Ederaldo Gentil veio ao Brasil cantar seu Ouro e Madeira. Um samba que vive na memória de muitos:

O ouro afunda no mar

Madeira fica por cima

Ostra nasce do lodo

Gerando pérolas finas

E como um desses muitos casos neste pais do ECAD, Ederaldo pinçou canções de muito sucesso, mas que não “mudaram” sua vida. A grana não veio (é sempre mais fácil e comodo taxar o artista de “péssimo administrador de sua carreira) e o tempo passou.  A inspiração e a beleza perenes em sua obra, não contaminaram sua vida prática. Entre o desejo de um país que acolhe seus artificies, das letras, das melodias, e aquele que as esquece como capa de disco envelhecida, o segundo vence quase sempre:

É o INPS, FGTS

IRSS, o seguro e o PIS

Com trinta de trabalho

Estou aposentado

E com mais de 70

Eu penso ser feliz

Ederaldo gravou meia duzia de discos, registros parcos de um talento visível. Podemos intuir que muita coisa ficou represada entre a idéia e a impossibilidade de realização. Música popular é assim, nem sempre vem a tona, chega tarde ou nem chega aonde deve:

Quando eu cheguei era manhã

Fazia frio e um vazio dentro em mim

Nas mãos a mesma esperança

No peito a minha ilusão

Sem saber prá onde ir

Não adianta lamentar a perda de Ederaldo, a velha máxima das “flores em vida” do Nelson Cavaquinho deve prevalecer. Bacana seria olhar ao lado, para trás, para onde quer que seja e ouvir, falar, enxergar, lembrar dos compositores que descansam esquecidos e querem sua obra cantada e viva. Ederaldo fez sua parte, honremos a vida que levou:

Tal qual uma real posição

Cada mão com sua impressão digital

Bem maior o brilho do sol no verão

Cada qual no seu lugar natural

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