“A cidade e as canções”


A cidade, novamente a cidade. Quando você se sente sozinho no tema, e invariavelmente este sentimento não passa de pretensão, ”descobre” que muita gente se debruçou sobre, em crônicas, contos, filmes, relatos soltos, registros variados. E nas canções, sempre elas…

Cada canto da sua cidade pode confortar um momento de tristeza, de aparente isolamento, de sentida distância. A sua cidade pode ser feia, pode não ter uma ponte de belas observações, tampouco parques de perder a vista. Porém, seus passos estão (estiveram) ali, no meio dos buracos, das ruas descontínuas, das mal arranjadas arquiteturas, sua cidade, suas marcas, suas escolhas.

A cidade é sempre a cidade.

O mundo se transforma á revelia das canções, dos filmes, da literatura. Olhar a cidade e congelar um momento pode servir de pista para entendermos anos depois uma intricada série de fatos e aspectos relevantes que marcaram uma época. A vida da cidade na fala do cronista e a satisfação de “ter” cidade para si de alguma maneira.

Ray Davies (parte dos Kinks) tomou para si o olhar/retrato distanciado e revelou a cidade que desenhava, que aspirava, o poder arquitetônico do cancioneiro.
“Waterloo Sunset” é um desses momentos. Ele usou o território de sua cidade imaginária, sua música para ilustrar suas observações. Davies possui um desses olhares sagazes. Sorte nossa que ele desistiu da pintura e foi escrever canções, pois os quadros ficam em museus.

“Every day I look at the world from my window

But chilly, chilly is the evening time

Waterloo sunset’s fine”

A cidade pode parecer obscura e fria, ela pode estar morrendo ou aparentemente liquidada. Jerry Dammers do The Specials em “Ghost Town” aponta ao olhar “outra”cidade (Glasgow) que não exatamente aquela em que ele vivia ou pela qual tinha especial afeição. A síntese e o sentimento de uma época, os anos 80. Cidades que se esvaziavam, tristes, que sofriam os efeitos da recessão e prenunciavam o legado da era Tatcher e do fundamentalismo liberal que se exacerbaria nos anos 90. As cidades perdiam os espaços comuns e públicos, os jovens não tinham onde trabalhar, desolação:

“This town, is coming like a ghost town

Why must the youth fight against themselves?

Government leaving the youth on the shelf

This place, is coming like a ghost town

No job to be found in this country

Can’t go on no more

The people getting angry”

A cidade pode vir num retrato amargo, pesaroso, como a descrita em “Dirty Old Town” pelo cantor, compositor e ativista inglês Ewan McCall, na década de 40. Esta canção ficaria popular na interpretação do The Pogues (banda irlandesa) nos anos 80. Ela fala sobre o amor num cenário sombrio de uma cidade industrial do norte da Inglaterra, e ao descrever o seu desolamento o compositor catalisou o sentimento de vários cidades e citadinos no mundo. Veja a minha São Bernardo claramente nesta canção:

“I met my love by the gas works wall

Dreamed a dream by the old canal

Kissed a girl by the factory wall

Dirty old town

Dirty old town”

Thomas Baker Knight ou simplesmente Baker Knight, músico e compositor de inúmeros sucessos nos anos 50 compôs e entregou para Rick Nelson em 1958, “Lonesome Town”. A cidade dos desencantos, dos corações partidos, ponto culminante dos lamentos, da comunhão dos desamores, aqueles momentos que a música e o compositor pop conseguem congelar perfeitamente. Nada é para sempre, assim como uma canção de rádio. A cidade, apesar da letra triste, é o palco do convite para se redimir:

“Goin’ down to lonesome town,

Where the broken hearts stay,

Goin’ down to lonesome town

To cry my troubles away.

In the town of broken dreams,

The streets are filled with regret,

Maybe down in lonesome town,

I can learn to forget.

[To forget]“

Uma canção que nasce para uma cidade e vai para outra é “Streets of London” composta por Ralph McTell em 1969. Inspirada nas perambulações desse compositor inglês por cidades européias, ele a escreveu observando os moradores de rua de Paris, sendo que de início ela chamaria “Street of Paris”. A escolha por “London” se daria pela sonoridade da palavra e veladamente pela força uniformizante e comum da penúria. A história da cidade contada nas andanças de rua, nas particularidades dos passos de cada um, por quem ocupa, vive nas ruas e suas várias motivações, a sensação de que você nunca vai estar sozinho nelas:

“So how can you tell me you’re lonely,

And say for you that the sun don’t shine?

Let me take you by the hand and lead you through the streets of London

I’ll show you something to make you change your mind”

E a cidade e seus pedaços, onde crescemos, onde acontecem os fatos que se pulverizam em outros tantos, mas que ficam marcados e preenchem várias interpretações das coisas que se passam na vida toda, longe do local de origem. Nossa cidade íntima, querida e particular. Lou Reed, conta sua formação, sua adolescência na canção do álbum homônimo “Coney Island” de 1975, ilha no sul do Brooklin, pedaço de New York. O pedaço de Lou Reed. A cidade é sempre única e de cada um:

“Ah, but remember that the city is a funny place

Something like a circus or a sewer

And just remember, different people have peculiar tastes

And the Glory of love, the glory of love

The glory of love, might see you through

Yeah, but now, now

Glory of love, the glory of love”

E pode ser uma cidade qualquer, que pertença a qualquer um, que empreste a sua rua permanentemente ou apenas de passagem para a história. A cidade que dialoga com várias histórias, que repisa, mas não acumula que esquece rápido o que se passou nela. Cada pessoa leva consigo como cópia os seus relatos. Retrato único e volátil. A cidade balcão de passagens.

Assim, ela pode ser uma cidade que dorme e registra ainda que de olhos fechados o que se passa, sem lembrar depois. Testemunha frívola. Cidade de madrugada como registrou Torquato Neto em “Três da Madrugada”:

“Quase nada
Na cidade abandonada
Nessa rua que não tem mais fim
três da madrugada
tudo é nada
a cidade abandonada
e essa rua não tem mais
nada de mim…
nada
noite alta madrugada
na cidade que me guarda
e esta cidade me mata
de saudade
é sempre assim…
triste madrugada
tudo é nada
minha alegria cansada
e a mão fria mão gelada
toca bem leve em mim
saiba:
meu pobre coração não vale nada
pelas três da madrugada
toda palavra calada
nesta rua da cidade
que não tem mais fim
que não tem mais fim”

Anúncios
1 comentário
  1. Ricardo,

    A volta em grande estilo, sua escrita poética, escondida em frases rudes, não enganam, que aí mora o mesmo romântico-punk,

    abraços

    Arnobio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: