“As vozes da cultura”


Um dos abandonos mais lamentáveis da atual gestão do MINC, em relação aos avanços da gestão Lula, foi o das conferências de cultura. É negado que elas foram interrompidas, o problema e que elas não acontecem, são secretas? Eu poderia me alongar nos retrocessos da atual gestão, escolho as conferências porque é delas que podemos extrair o combustível principal das mudanças em relação ao fazer cultural e à construção de políticas públicas: a democratização e o espaço para quem nunca tem voz.

As conferências de cultura nacionais e regionais se espalharam pelo Brasil na era Lula trazendo uma sensação de protagonismo inédita no debate cultural. Foi um período de real possibilidade de inversão de prioridades nas políticas e no fazer cultural.

No que consistem as conferências? São mecanismos de participação da sociedade que permitem a formulação , o acompanhamento e avaliação das políticas públicas. Literalmente o “lugar” da participação, da linha direta entre s população e as políticas públicas.

Já passou da hora do setor cultural articular a volta imediata das conferências. Até porque isolado e corporativista, ele tende a se enfraquecer e dar espaço e poder a quem sempre leva as vantagens.

Em ano eleitoral corremos o risco de engolirmos aqueles planos de governo completamente descompassados com as reais necessidades das cidades. Invariavelmente expressam interesses imediatos de visibilidade, atendem a grupos que atuam de forma corporativista através dos balcões de interesse ou produzem o limbo que reforça o discurso de que a cultura não é prioridade.

A prevalência da política do prédio (construção, reforma, sacralização do espaço a inaugurar) e dos eventos episódicos e ou megalomaníacos em detrimento de ações estruturantes e afirmação (após debate) de conceitos, não é incomum, seja qual for a coloração ideológica da gestão. Não é um fenômeno isolado e esta longe de acontecer por acaso.

Inverter este processo depende de uma ação efetiva do Ministério da Cultura.

Aliás, não há momento mais oportuno para ampliar e democratizar o debate. A cultura não esta isolada, e deve ser visto como algo estratégico para entrelaçado com pesados interesses econômicos. Cultura, arte e criatividade são condimentos que ultrapassam interesses beletristas, de toucador, cultura não é algo a ser contemplado e admirado, ela esta na vida, no dia a dia. O pior de tudo é que esta vulgarização serve para disfarçar perversidades maiores do que o narcisismo e a pose. Este congelamento do debate e da ação, portanto, não prejudica uma meia dúzia, prejudica o país.

No mundo inteiro esta cada vez mais evidente que o “negócio da criatividade” estaem alta. Ora, não é instrumentalizar a cultura e seu par extensivo, a arte. Instrumentalizar, porém, faz parte do jogo, independente do querer do artista, do gestor cultural, do publico, enfim, das pessoas envolvidas na “coisa da cultura”, tudo que a envolve será transformado em algo e numa sociedade onde o lucro determina a maioria dos caminhos, esse algo geralmente é bancado por dinheiro público, e por mais que esperneiem ao contrário e o negue, ele gera lucro para uma minoria.

Parece interessante ampliar esta conversa, não?

Voltando às conferencias, elas são ainda que de maneira incipiente e a estruturar, uma forma de tirar a discussão e as tomadas de decisão sobre as questões culturais da mão de “meia dúzia”. Esta marca de tomadas de decisões operadas por poucas pessoas é um dos ranços que permanecem ao longo do tempo devido a duas tradições que a cultura, no que tange à sua gestão carrega o elitismo e a prevalência das leis de mercado.

O elitismo no que se refere ao Brasil vem desde que D João trouxe o aparato do Império para cá, a cultura como algo a ser bulinado por poucos e como uma missão cínica de produzir ideais e produtos distantes da realidade e do acesso da maioria. Não é o caso de jogar no lixo toda a produção artistico cultural (se é que este termo dá conta) dos últimos quatrocentos anos, mas de refletir como esta relação vertical se deu no tempo, como ela se abrandou e como podemos aprofundar a democratização.

O mercado não é um demônio a ser morto com a espada da liberdade, isso é um desejo reprimido e irresponsável de quem pensa a cultura e arte como seres autônomos que vão operar uma revolução do qual elas não conta sozinhas. Por outro lado o mercado tem a força de torná-las estéreis e unicamente a seu serviço, o ponto nefasto da instrumentalização citada acima.

Estes efeitos foram duramente sentidos nos últimos 25 anos onde prevaleceram as leis de incentivo se travestindo de política cultural. O mito (na maioria das vezes inapelável) do artista-gestor muitas vezes atrás de um discurso que o faça aceitável e “útil” aos “interesses” da sociedade.

O Governo Lula apresentou algumas mudanças e apontou caminhos no sentido de descentralizar recursos, democratizar o acesso a financiamentos e estender o âmbito do poder decisório a mais pessoas. Foi um ensaio que precisa de sequencias e novos enredos.

Confesso que passei ao largo de detalhes determinantes para compreender as diferenças de política e gestão cultural ao longo dos anos, não se mitiga esta discussão dessa forma, mas o objetivo aqui é propor ação imediata.

A única forma de iniciar uma virada (e infelizmente parece que estamos sempre (re)iniciando) é através dos mecanismos que temos à mão dentro de uma sociedade democrática. Ululante. Determinado por uma política confusa, por um retrocesso evidente dos incipientes avanços da era Lula, o momento é de pressionar as instituições e no caso, a mais importante delas é o Ministério da Cultura, para que sejam retomadas as discussões, consultas e demais ações que garantam a participação de cada vez mais pessoas na vida cultural do país.

As conferencias podem ser o mote, a retomada, pois se acumularam, principalmente nos primeiros seis anos do governo anterior, quilos de documentos, muitas propostas e encaminhamentos frustrados. Há aqueles que insistem em dizer que nunca houve uma mudança substancial (mesmo no Governo Lula), ok, que seja início, reinício, mas que seja. Às favas com as susceptibilidades e discussões inócuas.

Pela volta imediata das conferencias e das diversas vias de participação direta, pois nelas a oportunidade de surgirem idéias menos impregnadas de velhos vícios é muito maior.

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3 comentários
  1. Ricardo,

    Quais as forças e/ou vetores que podem atuar para que mude o rumo do MINC? Não me parece algo pensando por uma Ministra,mas um conjunto de definições de governo,

    Arnobio

    • Você esta analisando a questão pelo macro, é óbvio que existe um aperto orçamentário, mas não to falando propriamente de recursos, mas de articulação política que passa ao largo dos “desejos do governo”. Não depende de orçamento você dinamizar e descentralizar decisões, cultura não é produto vendável apenas, e para não ser vista dessa forma depende de oxigenação do campo decisório e das instituiçoes envolvidas.

  2. “E infelizmente parece que estamos sempre (re)iniciando)”. Tenho esta exata impressão de tudo, em tudo. De qualquer modo, a abertura é inexorável, sooner or later. Que voltem os debates!

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