“Ivan Ribeiro, o poeta”


Trabalhar em bibliotecas tem suas vantagens e desvantagens, como em todo trabalho. Estar no meio de livros, perto das várias possibilidades de informações, pode ser visto como grande privilégio. Mas tendo a cachaça, também há que se ter os tombos. Falta de recursos, de uma política definida, abandono, problemas estruturais, constante busca de uma identidade, estas são algumas das dificuldades enfrentadas numa biblioteca pública.

Mas ainda existem as pessoas…

Hoje fui a trabalho num espaço que funciona há 11 anos, criado e gerido pela Divisão de Biblioteca de SBC. O Troca Livro, que fica no centro da cidade. Trata-se de uma espécie de sebo público, explico melhor: neste espaço você pode trocar seu livro, cd, LP, revista usados por algum do acervo que lhe agradar. Como não há fim lucrativo, esta troca funciona no um por um e obedece a certos critérios de relevância e estado físico do material trocado. É um serviço que tem excelente resposta do público. Produto de uma política pública.

O Troca Livro foi só mote.

No meio da tarde ouvi uma fala animada, um tanto ansiosa, de um rapaz que é frequentador do espaço. Aos poucos fui sabendo quem era. Ivan Ribeiro, 30 anos, que veio da Bahia muito pequeninho (segundo ele) para São Bernardo do Campo. Ivan contava de uma forma engraçada de como tinha sido atropelado recentemente.

Ouvi aquilo, saí da sala contígua e fui conversar com ele. Ivan se confessou um poeta distraído que anda pela cidade. O atropelamento foi numa dessas distrações e entrou na cota de sua poesia. Embalamos um papo no começo meio torto, naquela desconfiança mútua.

O rapaz conta que entrou e saiu de várias instituições psiquiátricas durante a vida. Conta pela metade, não importa, não quero detalhes, tampouco ele quer dizer. Não importa. Sua mãe tem problemas de saúde e os dois moram juntos, de algum jeito um cuida do outro. Vida dura.

Ele diz certeiro que não quer cozinhar as palavras no passado. Olhar pra frente. Ivan tem muito que fazer na vida e tem talento, bastante.

Falei desse blog, de nome Klaxonsbc, brilho diferente no olhar do poeta Ivan de pronto detectou Oswald de Andrade. E disse ter um poema que dialoga com inspirador do nome do meu blog. Ivan tem o seu próprio blog onde se expressa, onde conserva seus poemas: Na Toca do Noturno. Seguiu o dialogo…

Em digressão voltamos, ele fala da luta social, o movimento antimanicomial no qual milita, da resistência. Começo a enxergar a integridade do poeta. Não pelo engajamento em si, mas pelo projeto todo, vida. Integro, ainda não o transformaram em mercadoria, tomara que não.

Nada desse papo da arte que salvou, da cultura que salvou. A força da experiência e as agruras que deram à poesia, o seu relato, a sua força. A poesia se apropriou da historia de vida do Ivan. Por isso ela esta escrita.

E a nossa fala entrecortada, dois ansiosos, voltou ao Oswald, ao blog, comento um texto que escrevi sobre a Cracolândia. De novo a afinidade, Ivan diz que dialogou com Oswald, especificamente com o poema “Pronominais”, trocando o tema original do cigarro pelo tema contemporâneo, o crack.

O erro de português formal com seu novo relevo.

E o papo virou de velhos camaradas, e reforça o que eu disse no começo do texto: mais do que estar entre livros e informações, o que importa em trabalhar numa biblioteca pública é encontrar as pessoas e com elas trocar as idéias que afinam ou desafinam as nossas convicções, pessoas que fazem valer a pena lutar pela manutenção dos espaços públicos de convivência.

Poetas, calados, sonoros, discretos, prolixos, incômodos, incógnitos, gente que vem e que vai. Muitos dos quais frequentam anos a fio as bibliotecas e mal sabemos o nome, outros que encontramos nestas tardes perdidas e ficamos sabendo tanto deles. Estas surpresas que só podem nascer das pessoas.

Pronominais

Oswald de Andrade

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro ”

e a versão do camarada Ivan:

Prô! No Minais?

Dê-me um careta

Diz à grama… Tica,
De professora foi
Há tempos, hoje é
Aluna da vida…
Um careta! Só um
Careta dar-lhe-ia à
Dona Tica, uma
Grama… Ah, Tica!
Pois a boa preta a
Boa branca; damas
Da Nação mal parida,
Choram do dia à noite
Sem preocuparem-se
Como é ser dama, pois
Preocupam-se é com
A grama,…Tica, diz aos
Seus alunos;…
Pô, meu! Pára com isso
Me dá um careta, aí!?
_Fêssora,… Cê tá é
Brisando!… Cê tem
Bic aí pro careta?
Deixa disso aluno,
Me manda logo o Bic;
É que eu quebrei a
Pedra! Tem outra, aí?
Se, tem! Sua nota é dez!
Ivan Ribeiro
“Com licença poética, ó meu caro
Oswald de Andrade!”

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3 comentários
  1. Ricardo,

    Puta história linda, emocionante mesmo. Apenas uma pena sensível poderia transcrever,

    Arnobio

  2. Mayara Souza disse:

    Ontem estava na praça Laura Gomes em São Bernardo do Campo com alguns amigos… Quando um rapaz um tanto quanto excêntrico me pediu um cigarro. Nunca fui de dar cigarros a bêbados em praças, mas esse de alguma forma me chamou atenção… Isso pelo fato de ele estar levando em baixo do braço um livro de Carlos Drummond de Andrade. Dei-lhe o cigarro e ele começou com uma prosa engraçada, meio sem pé ou cabeça. Mas foi quando eu resolvi dar-lhe atenção de fato que eu notei que estava diante de um poeta bêbado, mas ainda assim um poeta. Ele me disse que se chamava Ivan Ribeiro e que tinha um blog. Hoje então eu resolvi dar uma olhada no blog dele e encontrei o Klaxonsbc… Tenho certeza que o Ivan da sua história é o mesmo com quem eu conversei ontem. Gostaria muito de encontrá-lo, pois trabalho em uma agencia de publicidade e propaganda. Nós temos contatos bons dentro de várias editoras… Acho que o Ivan tem potencial e eu gostaria de ajudá-lo. Caso você saiba como faço para encontra-lo me avise por favor.
    Obrigada.

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