“Política Cultural Adiada”


A expressão “centralidade da cultura” indica aqui a forma como a cultura penetra em cada recanto da vida social contemporânea, fazendo proliferar ambientes secundários,  mediando tudo. 

Stuart Hall

Um dos temas que margeia o debate nas eleições é a cultura ou que poderíamos chamar de política cultural.  Ele aparece sempre de forma lateral, de lado mesmo, quase envergonhado, sendo olhado como algo importante, fundamental, existe o reconhecimento que é uma área constantemente preterida. Mas a pressa e o improviso marcam o debate.

O fato é que quando o assunto é detalhado sentimos o despreparo da maioria dos candidatos e equipes para tratar de temaque depende de um pensamento sistematizado, que seja tratado a partir dos fundamentos que vão compor uma política cultural, que seja pensado,  que gera desdobramentos aparentemente simples, mas esta pretensa simplicidade, ou a falsa ideia dela, acaba jogando na margem algo que seria central. O improviso não cabe na cultura, como não cabe nos outros temas.

A decantada centralidade da cultura, defendida pelo pensador jamaicano Stuart Hall, é incensada em falas pomposas, na maioria das vezes de forma desavisada. A cultura, tema que atravessa todos os outros, saúde, educação, segurança urbana, planejamento urbano, etc. fica sempre relegada ao seu papel terapêutico e lúdico. Ela que esta em todos os temas, vira espectadora de todos os outros.  Não que isso seja pouco, mas o ensaio é sempre mais amplo do que a concretização. O dialogo transversal não acontece. Esta potencial transversalidade emperra na simplificação do tema, a cultura segue na leitura ensimesmada.

Uma leitura mais ampla nos faz crer que a cultura não deve ser tratada como tema do “povo da cultura” ou do povo que “mexe com cultura. A cultura do espetáculo pode ser relegada a este papel secundário, mas a ampla leitura de cultura, a sociológica, a antropológica, a econômica deve ser tema de “povos diversos”, pois trata da vida de todas as pessoas. A cidade esconde as suas culturas. A política se aproveita dessa omissão e passa ao largo.

A língua, a música, a iconografia, as várias expressões que estão explicitas e implícitas na cidade, não podem ser tratadas de maneira apressada e fugidia. A cultura não esta restrita a orçamento, gestão, relação com as demandas e os grupos organizados, mesmo estes temas por conta da pouca discussão e elaboração de políticas culturais são restritos a leituras casuísticas, corporativistas e reducionistas.

A cidade pode ser lida pelo prisma cultural sem ignorar nenhum dos itens fundamentais de sua vida. É um prato cheio para que encaremos a política de uma cidade como ferramenta para transformá-la. A política cultural aprofunda a política da cidade, amalgama de tema central com o tema universal. A cultura abre este caminho.

E como tratar de maneira objetiva dessa lacuna, e fugir desse constantemente adiamento?

Em primeiro lugar não cometer o erro recorrente de atrelar a política cultural tão somente às demandas da área cultural, distorção que gera uma camisa de força e que coloca ao tema as restrições que o mercado e os interesses de grupos específicos impõem. A política mitigada, enfraquecida.

Pensar política cultural é abrir dialogo com as partes invisíveis da vida cultural, vida cultural esta que não deve estar restrita ao produto cultural, que fique bem claro. O invisível pratica sua cultura e muitas vezes não sabe ou não faz saber. O fazer cultural muitas vezes permanece subterrâneo ou mesmo ignorado.

Pensar e elaborar política cultural começa pelo questionamento do papel do Estado com as citadas demandas. É um vôo livre onde as contradições devem ser encaradas e com o poder de transformar o conforto dos arranjos conformistas. A política cultural sem componente utópico é a farsa arranjada. O Estado pode ser autoritário ou permissivo, nas duas hipóteses, ela sufoca a cultura.

Política cultural é estabelecida pelo conflito e pelo arranjo, é um jogo de perde e ganha, de concessões e invasões, claro, que este caminho nos faz deparar com dificuldades e resistências, mas onde e como avançar, adiar para quem fazer este debate? Afinal de contas as políticas são elaboradas para quem e para quê?

A cultura (como política) tem que deixar de ser refém da usura e da miopia que suas tradições criaram. Esta mazela tem muito a ver com as instituições culturais que foram criadas (!?!?) para operacionalizar e gerir e que acabam se apropriando da cultura para si. O “povo da cultura” se mimetiza com as suas instituições culturais e se conforma. Não há dialogo com o externo. A cultura para si. Política para si é a morte da política.

Voltando ao tema “centralidade da cultura”: quando se fala dessa centralidade, a primeira idéia que se apresenta é a cultura comandando todas as outras áreas e intervindo nas suas decisões. Presunção.  A cultura não carrega esta onipresença. Ela exerce este papel, sim, mas quando se despe da sua prepotência e da auto-referência, quando se doa ao outro tema, quando solta sua potencialidade, síntese de anseios do ser humano, esta é a universalidade da cultura.

São duas pontas que se engolem:  a vulgarização da cultura, relegá-la a condição de cereja do bolo e do outro lado, a prepotência da cultura, colocá-la acima dos outros assuntos, como se estes dela dependessem. É um vôo dotado de ilusões. A política cultural serve para desfiar o meio deste fio, desvelar seu caminho, unir as pontas, permitir, construir as amarras, dar forma ao sonho.

A formula não é fácil, como não é fácil qualquer construção de políticas. A busca da totalidade, da leitura ampla e os passos meticulosos pela cidade, que é diversificada e contraditória, que trai as leituras apressadas, fazem da elaboração das políticas culturais um importante momento de uma gestão. Não pode ser apressado. Reiterando, a cidade omite por defesa ou por abandono suas “diversas culturas”.

Domingo tem eleição, a hora de fazer a política cultural vai se encerrar na nomeação dos Secretários de Cultura e equipe? São estes “iluminados” que vão dar conta da complexidade acima descrita? A política cultural vai ser arranjo entre as intenções do candidato e o pragmatismo dos que assumem o mandato e a gritaria da minoria esperta? Como, onde e quando a política cultural?

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2 comentários
  1. Ricardo,

    Muito bem pontuado, nosso problema não é apenas “ganhar”, o medo é o dia seguinte ver entregue o tema aos que mais gritam, nem sempre com ideias, apenas para parecer mais convincentes,

    Arnobio

  2. Além de Cultura e Cultura Artística, outra noções que perdeu o juízo e a razão, saindo por aí a multiplicar-se em sandices, foi a Política

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