Dener dos atalhos


Às vezes eu acho um drible bonito mais bonito do que um gol”

Dener Augusto de Sousa

As glorias parcas, o êxtase inconcluso, vida interrompida bruscamente, a obra inacabada. São diversos os lugares comuns para expressar a vida de um talento que morre cedo. São diversos os exemplos que correm a história. A arte, a habilidade, a expressão que se cala pela morte prematura.

Dener Augusto de Sousa começou jogando futebol de salão ainda criança, logo após foi jogar no infantil da Portuguesa aos onze anos em 1982, interrompeu e voltou aos campos de grama algumas vezes. Jogava futebol de salão por cachê, hábil e rápido. Quem viu Dener jogar com a bola pesada já vislumbrou o craque que encantaria o Canindé, o Maracanã, o Olímpico. Em 1988 estava no elenco dos juniores da Lusa.

Dener levou a Lusa ao título da Taça São Paulo em 1991, eu tava lá no Pacaembu, Portuguesa x Grêmio, Dener fez o primeiro da goleada, 4 x 0, Lusa campeã. Ele foi várias alegrias em dribles e golaços. Dener foi o jogador que me encantou no estádio, que fazia o jogo não ser um dilema de perde e ganha. Espalhava a chama nos dribles, nas soluções rápidas, incendiava o vazio da lógica competitiva.

O campo de futebol tem grama, riscos de cal retos e semi-círculos, bandeiras que o limitam e o objetivo trave que finaliza. Mas existem os atalhos, os atalhos não são vistos por todos. A maioria não vê atalho algum. E são nesses caminhos herméticos que os craques acham as soluções que a trigonometria não resolve. Os atalhos.

Dener inaugurou vários atalhos no Canindé, mostrava e os escondia depois, como moleque mágico que reina nas brincadeiras para depois esquecê-las no amadurecimento. Esqueçam, é de mentira. Dener não amadureceu, foi Rimbaud da bola, mas não abandonou a poesia, abandonou antes a vida.

Lusa x Inter de Limeira, 1991, jogo embaçado, truncado, Lusa avizinhando a área da Inter, a bola ficava pingando nos pés da intermediária, o perigo não era perigo. Num instante Nilson, centroavante domina a bola no meio circulo e dá um tapinha para Dener, ele corre que não vemos o pé, Nilson se posiciona para receber de novo, no meio do caminho desiste, Dener seguia a cavalgada do gol, sozinho. Deixa zagueiros para trás, aplica uma meia lua, contorna o segundo, vem o goleiro e ele finaliza. Gol de placa, gol de placa não se descreve.

O frio do Canindé se abriu e eu estava lá, privilégio, no pensamento firmava a certeza de que o meu time tinha um craque. Era Dener, nome que mãe usou para homenagear o famoso costureiro dos anos 70, Dener era craque.

Tarde de sábado, 1992, não vou precisar se foi o primeiro ou segundo gol, vou me destemperar na inexatidão da memória, Lusa x Santos. Dener, inquieto, errara alguns passes, foi então que ele dominou uma bola passada por Bentinho, deu uma caneta no lateral Indio, progrediu para área, tirou mais um zagueiro, fintou o goleiro e completou pro gol. O sábado parou para ver o gol e voltou logo depois ainda sábado. Gol de placa, gol de placa não se descreve, como também não se descrevem os atalhos, atalhos não se enxergam sem a lupa da genialidade.

Dener achava rápidos os seus atalhos. Rápido demais.

Foi embora da Lusa, primeiro emprestado para o Grêmio, voltou uma temporada, após foi emprestado para o Vasco de Eurico Miranda. O bairrismo cantava, raiva, levaram o Dener. E foi num dos momentos dessa migração que Dener pegou um atalho errado – me desculpem a forçosa metáfora – , o craque genial não driblou o acidente, tava dormindo no carro, faleceu numa avenida do Rio de Janeiro, Dener.

A marca que sua carreira rápida deixou foram os dribles, as corridas com a bola carinhosa colada nos pés, as soluções construídas nos milímetros dos campos. Os gols que ele, Dener, nem valorizava tanto quanto os dribles. Esses gols talvez fossem adorno final, mero relevo das pinturas do drible, do caminho, do fazer, da arquitetura aprendida com a bola pesada, nos imitados espaços do futebol de salão. O drible era o gol sem traves.

Posso dizer que Dener foi o homem da camisa dez que eu vi, o Pelé, talvez Rivelino, inconcluso das tardes e noites do Canindé, Dener do drible, Dener do olho vivo de menino, Dener que foi cedo, Dener dos atalhos.

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1 comentário
  1. arnobiorocha disse:

    Ricardo,

    Dener foi espetacular, via os jogos da Lusa sonhando que ele fosse um pouco mais para frente na Marginal, jogar no Timão, não foi. Encantava-nos com seus dribles e gols poéticos, o sorriso malandro, pela “perversidade” do corte que desmoralizava zagueirões grossos, que tentavam para aquela centelha.

    Emocionante seu relato, lembrei muito daqueles poucos anos em que ele brilhou intensamente, não foi uma estrela, sim um cometa, rápido e intenso,

    Arnobio

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