“Josa”


E o Josa esta na rua há uns quatro anos. Morava em Caieiras, tinha um trampo na zona sul. Rodava a cidade todo dia. Um dia veio a demissão. As horas de cachaça no boteco aumentaram e a pouca grana foi embora. Largou família. E foi rápida a desintegração da casa. Ia muito pro centro, foi ficando. Era fogueira todo dia. Dormiu um dia, dois na rua. Conheceu gente, tudo rápido e difícil de entender. E foi se sentindo das ruas.

A vida mudou, ele foi junto. A família ficando longe. Voltou para a casa depois de um longo período, sujo e contando umas mentiras. A mulher nem gritava mais, entretida com as coisas do dia a dia, falava com aquele “quase que no automático” silenciando. Quando ela falou em grana, Josa saiu silencioso e dali pra frente não voltou mais. As ruas eram a casa.

O ônibus demorou para fazer o trajeto, tinha dinheiro para a passagem, desceu perto da Praça das Bandeiras, atravessou a passarela e a garoa lambia o chão sujo da “sua casa”. Tinha o objetivo bem claro, cachaça, a lambida do beiço. Trocados no bolso, o dinheiro que desaparecia nos goles brancos, quentes e ardidos. A garoa ajudava a temperar o calor de dentro, a cachaça só não dispersava o pavor das madrugadas. Ficar esperto sempre.

Uma tarde conheceu “seo” Borges, um senhor de uns sessenta e pouco anos, muito tempo nas ruas, calado, sempre com sua mochila pesada com aquela cor inexistente, trocando de lugar nas bordas da rua para ficar sossegado. Muitas histórias sobre ele, nenhuma confirmada. Estivera preso por um tempo, o artigo não se sabe. Ele simpatizou com Josa. Deu uns toques, coisas de sobrevivência na rua. Falava pouco e olhava para Josa quando percebia algo estranho. Padrinho, batismo.

Josa arrumou um bico num lava rápido. Talvez pelas roupas que ainda não eram o trapo foi aceito. Lavava e enxugava, ficou duas semanas, dormiu atrás de um Golf preto em plena duas horas da tarde. Acordou com a água lavando o rosto. Rua. Mas como ele não saía das ruas mesmo, mudou pouco. Era um novo desemprego. Não era tão diferente. As mágoas na rua.

Tudo volta na cabeça: uma menininha passa com a mãe e ri olhando para ele, ele sente o inchaço do rosto, fica envergonhado. A menina lembrava a mais velha dele, Soraia, hoje com vinte e dois, trabalha em telemarketing. Muito tempo que Josa não vê a moça. Foi morar com uma tia em Mauá, no ABC. Josa mistura os tempos, lembra dela nova. Dorme em seguida, o rubor do rosto sobe pro resto da cabeça. A menina passou.

As lembranças da vida no subúrbio são a mescla. Agora, tão longe. Ele entra naquele ECON do Arouche olha ao redor de tudo, procura as garrafinhas de plástico cheia do “veneno”. Acha e adere àquela que tem cor turva. A tarde fica nublada e é o alivio, talvez chova e molhe a casa. Ainda é terça. Josa não reclama. Os dias não fazem tanto sentido. Semana a semana na casa da rua.

Quinta, sexta, sábado e chega o domingo,esse, um tanto diferente. Josa acorda cedo, na verdade interrompe o sono cedo. Acorda com fome. O vácuo do estômago dá espaço para esta fome errática. Agora veio. Segue devagarinho perto da padaria. Sempre sobra um trocado ou mesmo um em espécie, lanche, café com leite. Logo vem e é a senhorinha que passa sempre cantando e se oferece pra comprar o café da manhã. Ela canta, Josa come. Domingo.

Aquele domingo diferente. Muita gente passando com bandeiras. Números, conversas com jeito de discussão. Josa quase pergunta para o seo Borges o que tá rolando. As camisas coloridas, o movimento na porta dos colégios. Talvez fosse fácil saber. Ele já havia vivido isso, tinha certeza. Mas prefere não saber.

A fome matou. O dia passa. Quase cinco da tarde. Josa esquecera a primeira refeição e já bebia umas tantas. O desassosego do fim de tarde, vista turva e sempre planejar a noite que chega. Pra continuar a viver, sempre ficar esperto.

Cinco e pouco e a movimentação cessa, a cidade dos outros acalma de novo. A rádio fala em números, pessoas comentam. O barulho distante das rádios. Josa calcula que já esta há mais de quatro anos na rua. O tempo passou. E não sabe porque pensa nos anos. Os amigos mudaram, alguns presos, outros sumiram mesmo, mortos ou de volta para alguma coisa distante. Os meninos do crack ele nem conta, porque eles não contam nem com Josa, nem com pingão algum.

O dia escurece e avisa que é noite, noite já alta, pois horário de verão. Josa pergunta o que rolou o dia todo, não para o seo Borges, mas para um rapaz nordestino que ele não sabe o nome, companheiro de talagadas, o rapaz não responde e fica um sorriso irônico nos lábios, meio que falando que Josa tá tirando ele. Toma outro rumo. Josa, enfim, não quer saber.

Josa lembra da casa, da mulher, da vida que deixou, não se perturba, já esta bêbado, deve ser oito da noite, nove, não sabe. Ele olha a luz da rua, os pensamentos saudosos apagam. Josa ta na rua mesmo e rua não tem marca própria, não dá pra ter saudade do ontem. Josa sorri das idéias confusas e da ignorância de não saber sobre o agito do dia. E a interrogação prossegue por preguiça, por desinteresse.

Josa dorme bêbado, nem triste, nem alegre, sorri. Nem tem esperança. No meio dos papéis empapados,choveu de novo, dois rostos e duas promessas, era o dia, era o rumo, destino jogado de Josa que não sabe de nada, que vê tudo de lado, que fica esperando o seo Borges apontar, que não sabe quando saiu de casa, porque voltar sabe que não volta. Assumiu a grande casa, as ruas, e nem se sente no abandono.

Os papeis empapados, os santinhos neste momento já obsoletos. Eles dormem ao lado da embriaguez de Josa. Serra 45, Haddad 13. Quase entram na pele dele. Quem ganhou, quem perdeu? Josa dorme na cidade que é a sua casa sem proteção e acorda amanhã com a mesma desesperança de ontem. Os papeis nem voam no vento, pois grudados. Josa não lê as manchetes.

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1 comentário
  1. marinildac disse:

    Que lindo… Que triste.

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