arquivo

Arquivo mensal: janeiro 2013

“Under the Boardwalk, out of the sun

Under the Boardwalk, we’ll be having some fun

Under the Boardwalk, people walking above

Under the Boardwalk, we’ll be making love”

A música pop se subverte em momentos geniais. Uma simples canção que conta a história de namorados se protegendo dos raios solares numa praia qualquer e falando do entorno, dos passantes, das veleidades do mundo. Isso basta para estar sempre entre nós. Trilha sonora de nossos momentos crus e corriqueiros.

A beleza dos vocais e dos arranjos feitos para uma longa duração. A duração do pop  depende dessas lembranças, desses arroubos de manhãs vazias a preencher,  dessa melodia que persegue os nossos dias, colada a refrões, frases memoráveis. Gravam, regravam, melhoram, abordam de outra maneira, preservam, estragam, clássicos pop permanecem porque não são sagrados, são pegáveis.

E claro, há sempre algo bacana para se fazer escondido e depois revelar ao mundo numa bela canção. Em quatro tempos.

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Os argumentos pró e contra sobre a possível desapropriação do prédio do Cine Belas Artes para que seja feito ali um centro cultural carregam uma estranha similaridade. Nos dois raciocínios há uma visão generalista de política cultural que assusta pela precariedade.

Para aqueles que são a favor da transformação do prédio em centro cultural, a iniciativa supriria uma carência de espaços vivos e ativos na cidade, ainda que os existentes estejam vazios e esvaziados, muitos deles bem próximos do referido. Para os que são contra, a periferia necessita de centros culturais muito mais do que a privilegiada área da Paulista, onde se encontra o referido, o que não justificaria a escolha desse espaço.

Qual a coincidência dos raciocínios?

Ambos se referem à espaços culturais sobre a ótica reducionista da geografia e do lugar que “necessita” pela carência e daquele que “não necessita” pelo excesso . Que política cultural será praticada no espaço tombado, desapropriado e transformado? A mesma pergunta faço: qual política cultural será levada para a periferia em um novo espaço construído? Descentralizar o que é fraco, enfraquece o todo.

Reformar ou erguer um prédio aqui ou ali  e não construir em paralelo uma política cultural consistente que o preencha de sentido, apenas desloca ou mantém prédios e suas ações isoladas, predomina a dispersão e a descontinuidade, no centro ou na periferia.

Prédios sem ações estruturantes acabam sendo episódicos, podem ter seu auge, mas envelhecem, se deterioram, ficam abandonados e a  tal polêmica se reduz aos lugares que existem e estão vazios e os que não existem. O lugar do centro cultural importa menos do que o espaço que os vários lugares e pessoas que neles habitam ocupam e do peso que as mesmas possuem para influenciar na política cultural.

Que tal construirmos novos prédios ou reformamos antigos com uma política cultural para colocar dentro?

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A felicidade anda a pé

Na Praça Antônio Prado São 10 horas azuis

O café vai alto como a manhã de arranha-céus

E há 123, um século e vinte e três anos, hoje nascia Oswald de Andrade. O pai furacão do modernismo brasil/são paulo, o dito dionísio par de um Mário (de Andrade) apolíneo. A divisão que se faz de Mario e Oswald é travesseiro de preguiçosos. Então, não percamos tempo com esta cisão que tanto doeu aos dois, foram um par.

Hoje completamos Oswald de Andrade, 123 anos. E é caríssimo o poeta klaxon nascer em 11 do 1, data bonita, de resto por colar números, como ele colou seus romances fragmentos e seus poemas síntese.

Nasceu Oswald, liquidificador de vários signos para uso posterior. Falar de síntese é falar de Oswald, que nos legou tantos, Chacrinha, Torquato, Celso, Duprat, Duarte, Oiticica, Novos Baianos, Glauber, canções, imagens cantores, palcos, cenários de vários motes, tantos, que nem sabem.

Oswald falou, atacou e tomou posição para recuar, fez rugas, inimigos, deu festas, sorriu bufão, elaborou muito e disse tudo que pôde. Rico, brilhante, inseguro, comunista, pobre enfim. Migrou amores para findar no descanso do amor falando o poema mais lindo sobre o assunto:

No fundo do poço No cimo do monte

No poço sem fundo

Toma conta de mim

Maria Antonieta d’Alkmin

Frasear brilhante, brilhoso, e em vão, sobre Oswald, para quê? Melhor dizer o que ele me disse e disse muito, imprimiu imagens, explicou que o segredo da palavra é dizê-la, nem que soe chato boy muitas vezes. O que ele disse passou e passa entre nevoeiros históricos e elevadores cupido, Oswald disse, me disse muito, nada em vão. Traga-o pra mim, ele permitiu.

E hoje para não esquecer que Oswald nasceu, afirmo klaxonsbc, brincadeira da minha terra e do magazine, da vida, brincadeira oswaldeana. Agradeço Oswald. Sigamos.

A verdura no azul klaxon Cortada

Sobre a poeira vermelha

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David Bowie se afastou da exposição pública por dez anos. Da música não há como saber. Quem garante o que ele andou burilando nesta década? O certo é que Bowie desapareceu das canções, ao menos das expostas. Sua última aparição em palco ocorreu no ano de 2006, num evento beneficente “Keep a Child Alive” em NY ao lado de Alicia Keys. Uma era de silêncios como ele cantava em 1977.

Neste período, Bowie silenciou e mesclou a pouca visibilidade pública em meio a fotos fortuitas, especulação sobre doenças, e recados indiretos de que ia deixar definitivamente o mundo das ribaltas. O silêncio de Bowie criou versões, teorias, bobagens pop. Este momento de velocidades e notícias curtas, talvez tenha desconcentrado a repercussão do sumiço, falou-se e ponto.

Em 1977 (recorro ao mesmo ano) à beira do lançamento de “Heroes”, Bowie dizia numa entrevista que sempre esteve vulneravelmente aberto a experiências estéticas, que absorvia tudo, ao passo que sua vida privada se fechava em um cotidiano reto, linear e ordenado.

As máscaras se apresentavam em contradição? Bowie público ou privado? Não há como se mensurar as verdades e seus intervalos quando tudo isso é manipulado por um mestre, tal como o sugestivo título de uma antiga coletânea de sucessos: Changes Bowie.

David Jones volta ao cenário (e qual cena?) em janeiro 2013 no dia em que completa sessenta e seis anos. Nesse dia seu filho, Duncan Bowie, posta na madrugada do twitter que o pai lançará um álbum em março e pede para que seja espalhada a notícia. O título da primeira canção apresentada,”Where are we now”, pode ser usado em pobres metáforas a fomentar o jogo de esconde esconde do sempre camaleão.

O vídeo de “Where are we now” circula pela rede desde a madrugada desse oito de janeiro, um tom melancólico, triste, deixa a entender que o retiro de dez anos não se completou por inteiro, ou é apenas um exercício estético bem longe da ordenada vida privada. Não importa saber. Uma bela canção de retorno.

A letra da canção faz alusão a Berlin, o lugar onde Bowie se isolou para compor sua trilogia desintoxicante (Low, Heroes, Lodger). O longevo parceiro Tony Visconti que produziu a trilogia o auxilia na canção. E se naquela época (1977) Bowie consagrava heróis anônimos à beira do Muro hoje extinto, o que ele procura hoje?

Logo mais saberemos o álbum todo, o título foi revelado, “The Next Day”, e traz onze canções, provavelmente virá a turnê, entrevistas e quilos de noticias, declarações e desmentidos sobre o silêncio e o retorno. Já se anuncia uma exposição temática no museu Victoria & Albert, organizado e aberto como sempre. Várias exposições pós exílio.

É a diversão permeada por alguma poesia e canções inesquecíveis, personagens e mudanças de tempo. Mudar para continuar o mesmo, como o clichê (e não há do que se envergonhar) que nos fadou Lampedusa. Somos os mesmos e Bowie não mudou, ele apenas voltou.

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