“Bowie… por mais um dia.”


David Bowie se afastou da exposição pública por dez anos. Da música não há como saber. Quem garante o que ele andou burilando nesta década? O certo é que Bowie desapareceu das canções, ao menos das expostas. Sua última aparição em palco ocorreu no ano de 2006, num evento beneficente “Keep a Child Alive” em NY ao lado de Alicia Keys. Uma era de silêncios como ele cantava em 1977.

Neste período, Bowie silenciou e mesclou a pouca visibilidade pública em meio a fotos fortuitas, especulação sobre doenças, e recados indiretos de que ia deixar definitivamente o mundo das ribaltas. O silêncio de Bowie criou versões, teorias, bobagens pop. Este momento de velocidades e notícias curtas, talvez tenha desconcentrado a repercussão do sumiço, falou-se e ponto.

Em 1977 (recorro ao mesmo ano) à beira do lançamento de “Heroes”, Bowie dizia numa entrevista que sempre esteve vulneravelmente aberto a experiências estéticas, que absorvia tudo, ao passo que sua vida privada se fechava em um cotidiano reto, linear e ordenado.

As máscaras se apresentavam em contradição? Bowie público ou privado? Não há como se mensurar as verdades e seus intervalos quando tudo isso é manipulado por um mestre, tal como o sugestivo título de uma antiga coletânea de sucessos: Changes Bowie.

David Jones volta ao cenário (e qual cena?) em janeiro 2013 no dia em que completa sessenta e seis anos. Nesse dia seu filho, Duncan Bowie, posta na madrugada do twitter que o pai lançará um álbum em março e pede para que seja espalhada a notícia. O título da primeira canção apresentada,”Where are we now”, pode ser usado em pobres metáforas a fomentar o jogo de esconde esconde do sempre camaleão.

O vídeo de “Where are we now” circula pela rede desde a madrugada desse oito de janeiro, um tom melancólico, triste, deixa a entender que o retiro de dez anos não se completou por inteiro, ou é apenas um exercício estético bem longe da ordenada vida privada. Não importa saber. Uma bela canção de retorno.

A letra da canção faz alusão a Berlin, o lugar onde Bowie se isolou para compor sua trilogia desintoxicante (Low, Heroes, Lodger). O longevo parceiro Tony Visconti que produziu a trilogia o auxilia na canção. E se naquela época (1977) Bowie consagrava heróis anônimos à beira do Muro hoje extinto, o que ele procura hoje?

Logo mais saberemos o álbum todo, o título foi revelado, “The Next Day”, e traz onze canções, provavelmente virá a turnê, entrevistas e quilos de noticias, declarações e desmentidos sobre o silêncio e o retorno. Já se anuncia uma exposição temática no museu Victoria & Albert, organizado e aberto como sempre. Várias exposições pós exílio.

É a diversão permeada por alguma poesia e canções inesquecíveis, personagens e mudanças de tempo. Mudar para continuar o mesmo, como o clichê (e não há do que se envergonhar) que nos fadou Lampedusa. Somos os mesmos e Bowie não mudou, ele apenas voltou.

bowie

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