“Lusa x Moleque, o derby dos imigrantes”


O futebol é na essência a história particular que cada um tem com ele. Claro, as catarses de massa movem as energias mais aparentes do esporte. Grandes multidões, títulos, jogos épicos, monstros de dor e prazer, tudo isso é o que torna o jogo da bola tão popular. Mas tem a artesania, a história tecida em finas camadas imperceptíveis aos olhos de quem vê de longe.

Muitas vezes parece folclórico, engraçado, e por que não patético, gotas de prazer, alguma esquisitice, teima, mania, costumes. Este é o jogo íntimo que levamos pela vida. Domingo próximo terei um dos meus jogos íntimos, o clássico dos pequenos, segundo os antigos, o derby dos imigrantes.

Associação Portuguesa de Desportos x Clube Atlético Juventus ou Lusa x Moleque Travesso.

Pela vida assisti alguns confrontos entre Lusa x Juventus, na Javari, casa dos rivais, no Canindé, nossa casa. Quartas à noite ou à tarde, quintas à tarde ou domingo de manhã. Sempre um jogo renhido, difícil, de placar seco, ‘1×0, 1×1, 2×1, 3×2 e por aí.

Minha memória parca não capricha em detalhes, mas fica sempre aquela sensação de estar sendo xingado de perto, aquelas ofensas quase familiares e leais de quem ocupa o mesmo barco. Os times que nunca são campeões, mas que guardam em cada ponto ganho ou perdido sua cruzada (literal) de acessos e descensos.

Das afinidades ainda constam a beleza das duas camisas, as torcidas marrentas e uma disposição inconteste de rir do próprio escárnio. As ditas artesanias da vida só percebidas de muito perto em tardes/noites vividas ao lado de pequenos batalhões.

Lembrar de uma tarde qualquer descendo do trem pra depois atravessar alguma das ruas da Moóca. Passar no meio das camisas grenás, dos rostos marrudos, mas respeitosos e entrar na Javari para o confronto. Do mesmo modo receber ali na Marginal, rua da Piscina, o grupo grená como visitas honrosas, mas longe de serem tratadas a pão de ló na terra rubro-verde.

Domingo próximo (17/02/2013) no Canindé o clássico terá um gosto especial. Como disse acima raras foram as vezes que Lusa x Juventus jogaram num domingo à tarde, horário clássico do futebol de verdade, que povoou meu imaginário de moleque como “a hora do jogo”, domingo à tarde.

Os confrontos fossem no Canindé ou na Javari sempre ocuparam os tais horários subalternos, quarta ou quinta a tarde (se o jogo fosse na Javari por conta da falta de iluminação), domingo de manhã, etc.

Quero colher esta nova história e sentir o gosto único de atravessar a ponte que liga a estação Tietê do Metro à marginal, seguir para a rua da Piscina e viver os noventa minutos que me aguardam. Ganhar, perder? Assim como os passos nos levam ao Osvaldo Teixeira Duarte ou ao Conde Rodolfo Crespi, derrotas ou vitórias ficam apenas para as nossas lembrança e se perdem nas frias estatísticas.

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1 comentário
  1. Ricardo,

    A genialidade do texto é extrair grandes histórias, daquilo que se diz pequeno. Lusa e Juventus são clubes grandiosos, não importando tamanho da torcida, mas o que representam aos seus povos, a identidade portuguesa e o jeito italiano da moóca. Vá ao jogo e conte mais desta história que jamais morrerá.

    Arnobio

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