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Arquivo mensal: março 2013

Fui procurar fotos de Genival Cassiano dos Santos para fazer um montagem e postar no Instagram. Tenho essa mania quase adolescente, monto um pequeno mosaico com quatro fotos, tenho preferencia por fotos preto e branco, uso um aplicativo e logo após mando pra rede. Tive dificuldade de achar foto dele no google, com muito custo fiz o mosaico.

Mas quem é Genival Cassiano dos Santos?

Genival nasceu em Campina Grande, Paraíba,  em 1943, muito jovem veio com a família para o Rio de Janeiro, e a historia o levou para o caminho de todo nordestino que descia ao sul, trabalhar no braçal, construção civil, as cidades que se erguiam no Brasil. Mas ele tinha outros planos, soul, samba canção, harmonias vocais e as batidas no violão tomaram lugar e vez.

Genival montou com seu irmão (Camarão) um grupo vocal chamado “Os Diagonais”, era 1964, e eles seguiam na rabeira da bossa nova, circuito de shows Rio adentro. Lançaram compactos, e em 1971, um álbum sem o Genival, mas não virou.

Genival se transforma, enfim, em Cassiano no início da década de 70, vai tocar guitarra na gravação do primeiro disco de Sebastião Rodrigues Maia e de quebra, emplaca duas composições na bolacha: “Eu amo você” e ” Primavera”. O “soul brasileiro’ teve vários nascimentos, mas podemos dizer que naquele momento ele se lapidava.

Um pulo de Cassiano na cena musical: de “sideman” do Tim Maia para o primeiro disco “Imagem e Som” foi rápido. Vocais sofisticados, boas harmônias e a levada de quem ouviu muita música na rádio, sonhou e foi pras cabeças com o violão e idéias. Objeto direto, o soul brasileiro nasceu sem glamour, como tudo que é de verdade.

Foram mais dois álbuns na década de 70: em 1973 gravou “Apresentamos Nosso Cassiano” em 1976 “Cuban Soul”. Músicas como “Coleção”, “A Lua e Eu”, “Ana”, Cedo Ou Tarde”, bem conhecidas ou menos. Sucesso popular não faltou a Cassiano, a carreira foi errática naqueles anos de conturbação.

No final dos anos 70 com problemas de saúde, perdeu um pulmão, Cassiano sumiu da cena musical. Por onde andou na ausência? Segundo ele mesmo, não deixou de compor, de ficar ligado em música, mas na vida mundana e comercial não aparecia.

Em 1991 era moda lançar tributos sacados por produtores. Liber Gadelha, músico e produtor chamou uns estrelados (Marisa Monte, Ed Motta, Luiz Melodia, Marisa Monte, Djavan) que junto com Cassiano registraram “Cedo ou Tarde”, no recheio as músicas conhecidas e relativamente conhecidas do paraibano.

Cassiano continua sendo lembrado, regravado, remixado, enaltecido, gravou com os Racionais MCs, vez ou outra alguém o cita em entrevista, em 2001 iria voltar ao disco com a produção de William Magalhães da Banda Black Rio, fez até participações em apresentações deles, não virou.

Cassiano é assim, some e aparece, nem sempre por opção, quando falamos no seu nome as pessoas costumam estranhar a referência e ai então você canta:

“Mais um ano se passou
 E nem sequer ouvi falar seu nome, a lua e eu
 Caminhando pela estrada
 Eu olho em volta e só vejo pegadas”

…e Genival passa a ser Cassiano no olhar de quem não conhece, compositor, artífice do soul brasileiro, direto, popular e quase sem fotos.

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São Bernardo do Campo, em algum mês do ano de 1998: o músico, cantor e compositor carioca Jards Macalé vem fazer uma apresentação no Teatro Lauro Gomes, fazia tempos que ele não baixava por aqui, ninguém foi avisado, poucos ficaram sabendo. Seis pessoas na platéia, naquele momento ele tava lançando o disco “O que eu faço é Música”:

– Poxa, Macalé, peço desculpas por São Bernardo, recebemos mal você – engato uma conversa com a soberba de representante da cidade.

– Nada, não esquento, depois de um tempo desencanei, tanto faz tocar pra seis ou pra um milhão, melhor seria um milhão, né? – Macalé respondeu irônico e sacou um autografo no disco recém lançado.

Provavelmente não foram estas as palavras, mas é o que lembro.

Passei a vida vendo Macalinas tocar pra poucos, e mesmo o povo da MPB (?!?!) seguia olhando o tal Macalé de longe e ignorando sua linhagem nobre, sua sanha amarrada à Guerra Peixe, Radamés Gnatalli, Severino Araújo, aos sambistas de melhor estirpe. Colocam o carioca na rinha dos “malditos”, dos esquisitos, dos “doidinhos” rótulos generalizantes e emburrecidos pela preguiça de quem não quer esmiuçar.

No último dia três, Jards Anet da Silva completou 70 anos de idade, a grande maioria deles dedicado à música, não à música de conforto, mas uma música inquieta que se revelou numa carreira constante e integra, sem holofotes, sem glórias fáceis, barroca trajetória. Macalé faz música brasileira de invenção.

Macalé anjo torto dos contrastes para ver as meninas.

E nesta noite de domingo (10/03/2013), São Paulo comemorou os 70 anos do Macalé no palco do Auditório do Ibirapuera, foi dessas apresentações que surpreendem, que nos retira do ceticismo em relação à produção cultural, teve banda “Lets Play That”, um documentário na abertura (“Jards” do Eryk Rocha)…

…teve bastante gente, gente jovem, gente que na maioria dos casos pouco tinha visto Macalé, acredito, gente que não teve o desprazer de vê-lo tocar pra meia duzia, gente que tava feliz por ver um grande show, gente que ignora que muita gente passou a vida ignorando a música que os fazia vibrar.

E no palco foi se desdobrando o universo Macalé:

Macalé faz rock, samba, jazz, castiga o violão, e pede eco na voz, joga no meio de tudo o hoje reggae resolvido “Negra Melodia” de 1977, “forget your troubles and dance”, senha pra rapaziada entrar na noite…a banda soa muito bem…

… Wally Salomão, “, as calças vermelhas e o casaco de general que malandramente ele vestiu na noite nobre, o Farrapo Humano que o Luis Melodia gravou no seu “Perola Negra, os quatro minutos e trinta e três segundos da peça de John Cage, silêncio por favor enquanto esqueço um pouco a dor…

…o Noel Rosa de “Ultimo Desejo” que casa com a “Senhora do Castelo” de Macalé e Wally, o dito rapaz esforçado que carrega o seu “Mal Secreto” pra lá e pra cá, o cansaço que ele alude ao lembrar do regime militar e que gerou a contemplativa e triste “Movimento dos Barcos”, a brincadeira com Insensatez de Jobim e Vinicius, o segundo que foi seu parceiro numa canção única…ele atravessa o violão e elogia o sax, um luxo que só podem os grandes…

…no meio da refrega, ele chama Walter Franco ao palco, juntos eles entoam “Canalha” um anti-hit de festival do Franco, um encontro de vozes da invenção, dissonantes, um momento divertido musicado por uma canção que em outro tempo foi puro desabafo, história registrada sem a necessidade de imagens de arquivo…a dor que dilacera…

… Macalé sorria no palco e mandava o um, dois, três animado pra começar a música, foram duas horas e pouco de apresentação, um septuagenário renitente rodeado por músicos jovens, reverentes e talentosos, uma raridade vê-lo tocar com banda completa…a música soou diferente do trio com Lanny Gordin e Tuty Moreno, trio power rock do primeiro álbum de 1972, mas a vida toda tava ali presente aos setenta…

…é pouco o entusiasmo do texto frio, sem som, sem a presença maravilha da música, das pessoas, da vida ao vivo, o registro é apenas para não dar chance ao tempo de empalidecer a alegria, ingressos na faixa e surpresa geral no domingo quente…o fato é que Jards Macalé nunca desistiu e não soa nada saudoso, ele tá vivo, violão em punho, presente…e se deu ao luxo de pedir uma vaia no final de uma música, viva a vaia…

…lá no finzinho, Macalinas voltou pro bis, saca o Nelson Cavaquinho, era o fim do juízo final, e aos setenta se o juízo não veio, o cara pode brincar com o juízo dos outros e pedir o que quiser, e ele pede, pede á platéia que entoe sozinha a letra do homem que surrava lírico as cordas do violão e o povo canta:

“O amor…será eterno novamente
É o Juízo Final, a história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer

…Macalé exagera, segura o canto com a platéia e pede sem dar folego que deixemos as cadeiras e sigamos embora cantando a canção, todo mundo levanta sem pressa, sorrindo, alguns tímidos, outros sem entender, de algum jeito todos cantando o Cavaquinho, diz ele que é o presente dos seus setenta, setenta anos do compositor de música brasileira, os convidados em reverência, obedecem…ele ganhou seu milhão.

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SBC, à beira da Faria Lima, aos sons dos primeiros troleibus, cinco e cinco da manhã.

A geometria perfeita, as formas retas saindo em caminhos, descaminhos, deitadas em tons cinza. A cidade inventa as suas entradas e saídas.

Ainda que culpemos esse ou aquele acidente político, as formas desejadas ou não, são da nossa lavra. A cidade não se pinta sozinha.

Viadutos, pontes, pequenas e grandes ruas, alcunhadas avenidas, desafogos, respiros, intenções, tragédias. A cidade se despe oferecida, mas esconde o que convém.

Pendente e danosa o suficiente pra nos deixar em constante suspense e excitação de estréia, urbe dissimulada. A cidade didática perde sua lógica na própria explicação.

Ingênuos, servos, nos iludimos com nossas câmeras, celulares, olhares obsessivos sobre uma paisagem camaleônica e cínica. A cidade pousa sua luxuria sobre a nossa desbotada cumplicidade.

Não há rio, rua, registro algum sob qualquer esquecimento, todas as suas formas cospem de algum jeito a existência. A cidade não esquece suas células mortas jamais, eles revivem muitas vezes em anomalias e em formas inesperadas.

O silêncio, os momentos sem som, são o desejo recondito do ser citadino, nem a madrugada confere esse privilégio. A cidade não dá folga aos ouvidos, não dá espaço para que se pense algo que fuja de como ela quer soar.

Não há o fim das procura nas ruas, terra, cascalho, paralelepido, asfalto, trilhos, corredores, subterrâneos, tudo motivo pra disfarçar labirintos. A cidade muda suas quimicas de composição para jamais ser taxada de vulgar.

O desleixo, o degredo, desejo de mudar de lugar, de se desvincilhar, a ilusão do deslocamento, a vida em outras ruas. A cidade trava seus fluxos, nos torna imóveis e distancia as passagens.

No início de tudo ela é grande e sedutora, intriga e move, mas logo envelhece e nos faz saber que seus segredos não passam de segredos de penteadeiras de putas velhas. A cidade é assim, sem glamour, despudorada e reta.

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Ver “Toda Poesia” de Paulo Leminski nas estantes das livrarias traz uma sensação de estar antigo no mundo. Pode parecer bobagem porque já vi outros poetas contemporâneos com antologias definitivas nas estantes. Com Leminski é diferente. Posso lembrar das lojas da Brasiliense ali pelo centro de SP (eram várias em meados da década de 80), os livrinhos da série “Cantadas Literárias”, os beats sendo lançados, as séries “Primeiros Passos” e “Tudo é História” com as quais podíamos dar um tapa na ignorância sobre alguns assuntos. Textos de sobre os quais apenas ouvíamos falar, enfim, eram lançados.

Paulo Leminski chegou nesse pacote de novidades, sua poética das “coisas que aconteciam ao lado”, observações das coisas próximas, facilitava a identificação; claro que com o tempo este Leminski se ampliou e ficou grande demais pra caber num livrinho, e descobri que ele era muito mais.

Como dizia no início, a poesia toda de Paulo Leminski na edição de “Toda Poesia” empresta uma sensação de estar antigo no mundo e de fim de ciclo, bem provável que ele riria com escárnio desse “fim de ciclo”. O poeta curitibano nos dava a sensação de que nunca ia acabar e ele realmente não acaba à medida que acende e reacende em cada novo leitor, e em cada nova descoberta/leitura de sua poesia faz valer sua máxima:

“em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós”

E vão acendendo novos e novos polacos…

PAULOL

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