“Citadino”


SBC, à beira da Faria Lima, aos sons dos primeiros troleibus, cinco e cinco da manhã.

A geometria perfeita, as formas retas saindo em caminhos, descaminhos, deitadas em tons cinza. A cidade inventa as suas entradas e saídas.

Ainda que culpemos esse ou aquele acidente político, as formas desejadas ou não, são da nossa lavra. A cidade não se pinta sozinha.

Viadutos, pontes, pequenas e grandes ruas, alcunhadas avenidas, desafogos, respiros, intenções, tragédias. A cidade se despe oferecida, mas esconde o que convém.

Pendente e danosa o suficiente pra nos deixar em constante suspense e excitação de estréia, urbe dissimulada. A cidade didática perde sua lógica na própria explicação.

Ingênuos, servos, nos iludimos com nossas câmeras, celulares, olhares obsessivos sobre uma paisagem camaleônica e cínica. A cidade pousa sua luxuria sobre a nossa desbotada cumplicidade.

Não há rio, rua, registro algum sob qualquer esquecimento, todas as suas formas cospem de algum jeito a existência. A cidade não esquece suas células mortas jamais, eles revivem muitas vezes em anomalias e em formas inesperadas.

O silêncio, os momentos sem som, são o desejo recondito do ser citadino, nem a madrugada confere esse privilégio. A cidade não dá folga aos ouvidos, não dá espaço para que se pense algo que fuja de como ela quer soar.

Não há o fim das procura nas ruas, terra, cascalho, paralelepido, asfalto, trilhos, corredores, subterrâneos, tudo motivo pra disfarçar labirintos. A cidade muda suas quimicas de composição para jamais ser taxada de vulgar.

O desleixo, o degredo, desejo de mudar de lugar, de se desvincilhar, a ilusão do deslocamento, a vida em outras ruas. A cidade trava seus fluxos, nos torna imóveis e distancia as passagens.

No início de tudo ela é grande e sedutora, intriga e move, mas logo envelhece e nos faz saber que seus segredos não passam de segredos de penteadeiras de putas velhas. A cidade é assim, sem glamour, despudorada e reta.

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2 comentários
  1. Ricardo,

    Acordei muito triste, comovido com as imagens do povo venezuelano com a perda de seu líder, aí deparei-me com este texto tão íntimo e pessoal, me deu um pouco de ânimo, parabéns

    Arnobio

  2. Vera Pereira disse:

    Nem sei o que comentar agora. Escrevi um comentário na hora, mas não passou. Reli. A sua São Bernardo, o meu Cosme Velho; acho que a gente recria toda vez que as vê.

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