“O amor será eterno novamente…”


São Bernardo do Campo, em algum mês do ano de 1998: o músico, cantor e compositor carioca Jards Macalé vem fazer uma apresentação no Teatro Lauro Gomes, fazia tempos que ele não baixava por aqui, ninguém foi avisado, poucos ficaram sabendo. Seis pessoas na platéia, naquele momento ele tava lançando o disco “O que eu faço é Música”:

– Poxa, Macalé, peço desculpas por São Bernardo, recebemos mal você – engato uma conversa com a soberba de representante da cidade.

– Nada, não esquento, depois de um tempo desencanei, tanto faz tocar pra seis ou pra um milhão, melhor seria um milhão, né? – Macalé respondeu irônico e sacou um autografo no disco recém lançado.

Provavelmente não foram estas as palavras, mas é o que lembro.

Passei a vida vendo Macalinas tocar pra poucos, e mesmo o povo da MPB (?!?!) seguia olhando o tal Macalé de longe e ignorando sua linhagem nobre, sua sanha amarrada à Guerra Peixe, Radamés Gnatalli, Severino Araújo, aos sambistas de melhor estirpe. Colocam o carioca na rinha dos “malditos”, dos esquisitos, dos “doidinhos” rótulos generalizantes e emburrecidos pela preguiça de quem não quer esmiuçar.

No último dia três, Jards Anet da Silva completou 70 anos de idade, a grande maioria deles dedicado à música, não à música de conforto, mas uma música inquieta que se revelou numa carreira constante e integra, sem holofotes, sem glórias fáceis, barroca trajetória. Macalé faz música brasileira de invenção.

Macalé anjo torto dos contrastes para ver as meninas.

E nesta noite de domingo (10/03/2013), São Paulo comemorou os 70 anos do Macalé no palco do Auditório do Ibirapuera, foi dessas apresentações que surpreendem, que nos retira do ceticismo em relação à produção cultural, teve banda “Lets Play That”, um documentário na abertura (“Jards” do Eryk Rocha)…

…teve bastante gente, gente jovem, gente que na maioria dos casos pouco tinha visto Macalé, acredito, gente que não teve o desprazer de vê-lo tocar pra meia duzia, gente que tava feliz por ver um grande show, gente que ignora que muita gente passou a vida ignorando a música que os fazia vibrar.

E no palco foi se desdobrando o universo Macalé:

Macalé faz rock, samba, jazz, castiga o violão, e pede eco na voz, joga no meio de tudo o hoje reggae resolvido “Negra Melodia” de 1977, “forget your troubles and dance”, senha pra rapaziada entrar na noite…a banda soa muito bem…

… Wally Salomão, “, as calças vermelhas e o casaco de general que malandramente ele vestiu na noite nobre, o Farrapo Humano que o Luis Melodia gravou no seu “Perola Negra, os quatro minutos e trinta e três segundos da peça de John Cage, silêncio por favor enquanto esqueço um pouco a dor…

…o Noel Rosa de “Ultimo Desejo” que casa com a “Senhora do Castelo” de Macalé e Wally, o dito rapaz esforçado que carrega o seu “Mal Secreto” pra lá e pra cá, o cansaço que ele alude ao lembrar do regime militar e que gerou a contemplativa e triste “Movimento dos Barcos”, a brincadeira com Insensatez de Jobim e Vinicius, o segundo que foi seu parceiro numa canção única…ele atravessa o violão e elogia o sax, um luxo que só podem os grandes…

…no meio da refrega, ele chama Walter Franco ao palco, juntos eles entoam “Canalha” um anti-hit de festival do Franco, um encontro de vozes da invenção, dissonantes, um momento divertido musicado por uma canção que em outro tempo foi puro desabafo, história registrada sem a necessidade de imagens de arquivo…a dor que dilacera…

… Macalé sorria no palco e mandava o um, dois, três animado pra começar a música, foram duas horas e pouco de apresentação, um septuagenário renitente rodeado por músicos jovens, reverentes e talentosos, uma raridade vê-lo tocar com banda completa…a música soou diferente do trio com Lanny Gordin e Tuty Moreno, trio power rock do primeiro álbum de 1972, mas a vida toda tava ali presente aos setenta…

…é pouco o entusiasmo do texto frio, sem som, sem a presença maravilha da música, das pessoas, da vida ao vivo, o registro é apenas para não dar chance ao tempo de empalidecer a alegria, ingressos na faixa e surpresa geral no domingo quente…o fato é que Jards Macalé nunca desistiu e não soa nada saudoso, ele tá vivo, violão em punho, presente…e se deu ao luxo de pedir uma vaia no final de uma música, viva a vaia…

…lá no finzinho, Macalinas voltou pro bis, saca o Nelson Cavaquinho, era o fim do juízo final, e aos setenta se o juízo não veio, o cara pode brincar com o juízo dos outros e pedir o que quiser, e ele pede, pede á platéia que entoe sozinha a letra do homem que surrava lírico as cordas do violão e o povo canta:

“O amor…será eterno novamente
É o Juízo Final, a história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer

…Macalé exagera, segura o canto com a platéia e pede sem dar folego que deixemos as cadeiras e sigamos embora cantando a canção, todo mundo levanta sem pressa, sorrindo, alguns tímidos, outros sem entender, de algum jeito todos cantando o Cavaquinho, diz ele que é o presente dos seus setenta, setenta anos do compositor de música brasileira, os convidados em reverência, obedecem…ele ganhou seu milhão.

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2 comentários
  1. Ricardo,

    Melhorou muito a minha modorrenta Segunda-feira, a fundamental diferença do viver de música e o do viver para música. Cara chega íntegro aos 70 anos. Muitos viram reaças do sistema com 40, principalmente roqueiros de M. Além de “mpb”, estes nem se fala.

    Arnobio

  2. Opa, agora acho que consigo comentar de boa, no celular não rolou… realmente, a noite foi mágica, o que Jards Macalé consegui no auditorio Ibirapuera poucos artistas conseguem. E o dueto com Walter Franco foi ducaralho!! Parabens, Ricardo, pelo post! Abracao!

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