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Arquivo mensal: maio 2013

Há alguns anos assisti a uma apresentação do poeta John Cooper Clarke no Jazz Cafe em Londres. Foi um acerto de contas. Entendi melhor naquele momento, ainda que tardiamente, o movimento punk e suas pontas invisíveis. Na platéia várias gerações assistiam respeitosamente (na medida) aos versos urgentes de uma época. Aos apocalípticos o benefício de chamar de decadência, pouco importa. 

Hoje de manhã me veio a imagem da lustrosa figura e os versos que poderiam ser outros tantos:

“I wanna be your electric meter
I will not run out
I wanna be the electric heater
you’ll get cold without
I wanna be your setting lotion
hold your hair in deep devotion
Deep as the deep Atlantic ocean
that’s how deep is my devotion”

… John Cooper pode ser considerado o literal poeta do punk, ao promulgar versos em meio ao “no future” generalizado daquela cena inglesa (1977/78). Cabia poesia intencional em meio à poesia acidental do movimento. A interpretação não serve para buscar legitimidade, não há metáfora em ser o poeta punk.

John segue na ativa.

JCC

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“O mais perigoso, na violência, é sua racionalidade.”

Michel Foucault

Uma das doenças da contemporaneidade é a obsessão em criar falsas proteções. Muros altos e seguros com coberturas astronômicas, mudanças e recrudescimento de leis, tudo se insere na mesma cesta de abrigos esburacados e precários. A violência é a gema do ovo.

A Virada Cultural acontece em São Paulo desde 2005, não quero entrar aqui na pendenga partidária. Foi criada na administração Serra (PSDB), continuou com Kassab (DEM/PSD) e teve sua primeira edição no último final de semana com Haddad (PT).

Durante esses oito anos foram  poucos os momentos, do ponto de vista do poder público,  em que se considerou suspender o evento; na última semana foi votada uma lei que a insere nos eventos “permanentes’ da cidade. A Virada virou lei, apesar de não agradar a todos.

O que penso sobre a Virada (como parte de uma política cultural mais ampla) escrevi há dois anos aqui: http://klaxonsbc.com/2011/04/18/ate-a-hora-que-virar-de-verdade/ – pouco tenho a acrescentar. O que me interessa são as justificativas usadas para que ela não ocorra, o que se diz para pedir o fim do evento.

“Um evento como esse não dá certo num país como o Brasil, só no primeiro mundo”

“É preciso pensar antes em saúde, moradia, educação, transportes, depois Virada Cultural”

“O povo não valoriza, destrói e não respeita tudo que é de graça”

“Virada dos bandidos e assaltantes fãs do Racionais”

“Nada que acontece no centro de SP pode dar certo, ali só tem nóia e ladrão”

Extraí as frases aleatoriamente, sem critério qualitativo e quantitativo, de comentários postados em notícias de portais. Eles não destoam do raciocínio resumido de quem comenta tudo nesses espaços, os valores e categorias são os mesmos, não seria diferente para a Virada Cultural.

O que particulariza a questão é quando se confronta prazer, comemoração e celebração com violência. Talvez, seja a forma mais bem acabada de observar o confronto entre cultura e barbárie. E lembrando que a separação entre ambas não é tão cristalina e manipulável:

“Nunca há um documento da cultura que não seja, ao
mesmo tempo, um documento da barbárie. E, assim como ele
não está livre da barbárie, assim também não o está o processo
de sua transmissão, transmissão na qual ele passou de um
vencedor a outro.”

Walter Benjamin

A Virada Cultural coloca a nu a cidade, retira-lhe as proteções simuladas, algumas pessoas vão ao centro dos “nóias e ladrões”  e usam uma cidade que não vêem como delas, é a cidade do bandido, do degredado, suja, que fede a urina e que está abandonada. A cidade que as pessoas rejeitam.

E é este o palco escolhido para que num final de semana específico do ano de “Nosso Senhor” ocorra a catarse, a festa, a celebração, a disseminação de produtos culturais por praças, ruas, avenidas e cantos da cidade onde no máximo as pessoas passam correndo em seus carros durante o resto do ano.

O produto cultural, que é apenas parte integrante do conceito amplo de cultura, mas sem dúvida, o seu primo lucrativo, tenta unir uma cidade fragmentada por descaso, omissão, falta de diálogo e ausência de políticas publicas que transformem os espaços públicos em algo merecedor do seu nome. Um dia de entretenimento e exposição de produtos acabados está longe de ser o suficiente para tamanha empreitada.

A violência é uma realidade na cidade de São Paulo –  esta frase parece um exercício tautológico, mas não custa reafirmar: se a violência é uma realidade, como esperar que ela não ocorra em um evento que se coloca na contramão das relações estabelecidas dentro da cidade? A contramão é a tentativa de tornar públicas as praças públicas.

Um movimento óbvio para “acabar”  com as contradições é suprimir aquilo que as expõe, só que elas não deixam de existir. A cidade precisa de lugares efetivamente públicos, lugares de encontro e de troca. A violência ocorre no escuro, no claro, nas ruas largas e nas ruas estreitas da cidade; a Virada é um evento, e não estaria fora dessa lógica. Desmoralizar a Virada Cultural tem um subtexto interessante: a desqualificação da coisa pública.

O sujeito pode até declarar um ódio visceral pelo rap, funk, rock, umbigada, forró, dança contemporânea, performances em geral, mas como se declarar contra algo que aproxima pessoas e faz do uso da coisa pública um direito? Há uma racionalidade nisto, que, se for explicitada, muda totalmente o rumo do debate. Os que fazem apologia da violência, não são justamente aqueles que querem escondê-la por trás do discurso da excludência?

A impossibilidade de usar as ruas da cidade para qualquer coisa que não seja uma rápida locomoção transforma as ruas num detalhe incômodo do dia a dia. As ruas são abandonadas porque nelas praticamos nossas violências às escondidas.  E cada uma delas parece mais grave no outro, naquele que está distante.

Para cada arrastão, cada roubo que tenha ocorrido na virada há uma justificativa que aumenta a violência da nossa cidade. A Virada Cultural é o luminol dessa racionalidade violenta, desse sentimento recolhido que aumenta subterraneamente o ódio e a distância entre as pessoas. Combater a violência com ódio é um atalho para confirmá-la.

E não adianta dizer que isso é papo do povo dos “direitos humanos”, por que essa alegação apenas reafirma a falta de vontade para debater, e não muda nada. O debate não é de quem é contra ou favor da violência, isso parece ser consenso; o cerne da questão é de qual violência se fala.

O fim da Virada deixará as ruas mais vazias e as pessoas mais protegidas da violência que criam para si.

virada cultural maio 085

Um amigo, sim um amigo, era o barulho do skype pensado pra ser agradável que anunciava. Um amigo me chamava as duas e quatorze da manhã.

Uma chamada de skype de madrugada amedronta menos do que os velhos e estridentes telefonemas, o nome brilha e aquele barulhinho hightech anuncia macio o outro lado.

A conversa começa na voz:

– Oi, você tá bem ?

– Tô…bem, acho que tô, o dia hoje…

– Na verdade eu liguei pra dizer que penso que você deve parar de ter pena de seus personagens. Esse último é piegas demais.

A desgraceira que faz os blogs, basta escrever, escrever, apertar um botão e pronto, tá publicado. Foram duas madrugas pra atrás, uma história chegou pronta na cabeça.bonitinha, personagem triste. Instantâneo. Sentei, escrevi, publiquei.

Publiquei, publiquei…

E de longe, claro, alguém concluiu e fez juízo. Tudo bem que o personagem não era dos mais carismáticos, era apenas um cara no meio de uma historia interessante, ele mesmo não tinha tantos atractivos. O meu amigo, o nick do skype, o crítico, detonou.

Continua…

– Você estragou uma bela história por conta de um personagem que espelha sua auto piedade.

– Opa, opa, agora a piedade não esta mais no personagem, é minha? – subiu o tom da minha voz no meio daquele silêncio.

– Calma, não é pra tanto…bem, o fato é que tudo ficou impregnado de uma pieguice exagerada.

– Putz, piedade ou pieguice?

– Não importa…porque…

– Como não importa? A piedade pode ser épica, a pieguice nunca…

– Do jeito que eu tô falando nem a piedade, nem a pieguice podem ser épicas.

Aquela conversa no rumo da animosidade. Três da manhã. Segui e provoquei:

– Aliás, com que autoridade você desbeiça meu personagem? Com sua vastas leituras de um e meio Rubem Fonseca?

– Desqualificando meu prontuário você não salva seu personagem. Devo dizer que são personagens, porque é o segundo que você enxerta nas suas histórias com esse jeitinho de “ouvi Smiths minha adolescência inteira”.

– Você parou de ouvir Smiths?

– Não vem ao caso.

Escrever de sopetão só pode dar nisso. Você encaixa uma história no meio da madrugada, ela vem inteira e pronto, solta na vida. Pega um sujeito, mesmo sendo amigo, numa noite ruim e ele assassina seu personagem.

A voz trava, a ligação fica lenta e o recurso à mão e passar para a caixa de diálogo, sai a voz sobre o IP e entra o velho chat:

– Piegas ou piedoso, digno de pena ou com auto piedade? – esperava que ele resolvesse o conceito pra que eu pudesse espinafrar.

– Você não entendeu, vou ser claro: você quer que a humanidade tenha pena de seus personagens – a conversa vaga já estava ficando irritante.

– Você tá sendo evasivo. Então me diga quantos caras bons não quiseram que seus personagens fossem tristes e dignos de pena?

– Ah, então você admite??

– Psicanálise de boteco com panca de crítica literária, nem sei porque tô dando trela…o que eu admito é que você levantou um aspecto…

A conversa on line tem vantagens. Googlei: personagens piegas. Nada de registro relevante. Pieguice, auto piedade, nada disso servia. Não consegui ilustrar meus argumentos com uma citação espirituosa.

– Vá pro inferno, vc já escreveu alguma linha com pretensão à literatura? – apelei feio.

– Não, não mesmo, quem escreve às duas e pouco e já em seguida publica no blog é você, tô tentando ajudar e recebo patada e não é pela literatura, mas pela amizade.

– Desculpe…é piegas mesmo?

– Sim! – disse sem entonar em nada a frase.

Aquela conversa só seria salva com dignidade pelo fim da bateria do tablet que estava nos sessenta por cento, longe de acabar.

– Vc leu tudo, completo, até o fim?

– Claro, tem partes otimas, frases bem sacadas jogadas no meio de um personagem auto indulgente…

– PQP, mais um rótulo para o miserável?

Miserável? Eu disse isso!  Já havia incorporado a critica ao personagem ou a mim. Não era justo. Mal podia falar dele, criei e joguei na história. Piegas, auto piedoso, auto indulgente. Chega!

– Já são quase quatro da manhã – a voz sobre o IP não voltou a funcionar, teclava – quero parar esta conversa.

Silêncio…caiu a conexão?

O ruidinho discreto high tech e macio do Skype anuncia nova chamada. Demora uns segundos, conecta, a voz alta e clara.

– Você não ficou ofendido, né? Não chamei você de piegas, piedoso e auto indulgente, mas o personagem…

Como o blog ,rápido, instantâneo e publicável, o skype, voz e caixa de diálogo sumiram, offline salvador. Tinha até o recurso de deletar aquela conversa toda e bloquear o amigo crítico por uns dias. Fui dormir aliviado e guardei o personagem na memória disponível.

No dia seguinte mudei o nome do personagem.

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Quem acredita nos direitos humanos procura transformar a possibilidade teórica em realidade, empenhando-se em fazer coincidir uma com a outra. Inversamente, um traço sinistro do nosso tempo é saber que é possível a solução de tantos problemas e no entanto não se empenhar nela.

Antonio Cândido

A leitura é um direito, não se trata de afirmação genérica ou redundante, nenhum direito é redundante, o direito à leitura é capital ao indivíduo para que ele possa associar e compreender os vários direitos básicos, e assim pavimentar o caminho que impeça a barbárie. Não há mágica nesta afirmação, ela é substantiva, e rigorosamente, a luta pela sua confirmação é urgente.

Existem passos a seguir para tornar a leitura direito, e direito, como é sempre bom frisar, não é dádiva ou concessão temporária, claro que a conquista de um direito não o torna permanente, afirmar isso seria negar a historia e seus abruptos movimentos. Direito conquistado é por luta e dentro de relações complexas, há sempre os interesses satisfeitos e os contrariados. Nenhum direito acaba onde começa o do outro, eles estão sempre relacionados, quando não em conflito.

Um dos primeiros passos é entender que a sociedade civil e Estado não são antagônicos, a sociedade civil é parte do Estado e com ele não rivaliza, esta noção de público e privado serve a interesses de quem se apropria do Estado e dele tira proveito, a maioria da população fica na sombra dos interesses privados e é alijada do campo de alcance do Estado, na prática os seus direitos se diluem nesta cantilena.

A afirmação da leitura como direito passa pelo estabelecimento de um marco legal.

A política de Estado garante minimamente o estabelecimento de regras a serem cumpridas, o argumento liberal de auto regulação da sociedade é continuamente contrariado pela realidade, a democratização e acesso à leitura não vão brotar das relações de mercado, ou de ações isoladas e espontâneas.

Uma das propostas concretas para tornar a leitura um direito é a implantação planos do livro e da leitura nos âmbitos federal, estadual e municipal. As maiores fragilidades das ações em pro da leitura são o caráter volátil e episódico que as sustentam e um dos motivos dessa descontinuidade é a falta de mecanismos consistentes que garantam estes projetos e programas como ações de Estado, não de Governo.

A luta pelo estabelecimento dos planos do livro e leitura se desenrola através dos anos, mas aparece de forma marcante a partir de 2004 (início do Governo Lula) onde iniciaram as ações concretas para instituição de uma lei nacional (com participação ativa de Estados e Municípios). No caldo dessas discussões. diversas experiências na área de cultura e educação, programas, projetos, ações que se diluíram com o tempo justamente por conta da ausência de uma política de Estado.

Os eixos que servem como escopo dos planos do livro e da leitura:

  1. Democratização do Acesso
  2. Fomento à Leitura e Formação de Mediadores
  3. Valorização Institucional da Leitura e Incremento de seu Valor Simbólico
  4. Desenvolvimento da Economia do Livro

Como notamos os eixos abarcam todos os aspectos do caminho que separa e une o ser humano da leitura e da informação. No universo disso: pessoas, instituições publicas, privadas, livros e outros suportes, e toda a subjetividade do ato de ler que aponta questões bem objetivas e obstáculos muito concretos. E derivados desses eixos são incontáveis os assuntos que estão esperando um debate e um destino.

A escolha do viés político, dos valores que venham a construir estas leis é fundamental para o resultado final. Na democracia estas escolhas nunca são unilaterais, tampouco podem ser caracterizadas dentro de uma guerra entre estado e sociedade civil, até porque no meio de tudo, existem os interesses econômicos, que fazem valer sem vacilos cada centímetro da sua influência e tornam todos os “lados” facilmente visíveis.

Não há relativização possível que harmonize os interesses financeiros, as necessidades básicas da população e o papel do Estado. Esta negociação, este embate é, sobretudo político, e nada melhor que um marco legal discutido de forma igualitária e que leve a construção de um projeto para o país, não para fomentar grupos específicos, nem levando em conta interesses conjunturais, assim podemos chamar o resultado desse todo de política pública.

Os planos municipais do livro e leitura precisam não só ser discutidos, formulados, criados e votados, eles devem estar presentes no dia a dia dos Estados, dos Municípios, das pessoas, e ser o fruto dessa proximidade, esta é uma forma de trazer a leitura e a informação para perto do cotidiano, retirá-la da torre “fria” e distante ocupada por poucos.

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O garoto chegava querendo ser invisível dentro da banca de jornais, terça feira, o futebol do final de semana tava todinho narrado na sua cabeça. Mas ele queria as imagens, os relatos escritos, a revista Placar.

O radinho da pilha registrava de primeira, gols, polêmicas, histórias, falação, menos merchandising, mais drama e teatro amador. O futebol no limite da era do improviso.

Os jogadores profissionais eram um tipo diferente de ídolo, mais próximos, menos “eficientes”. O futebol era pertinho, quase na esquina.

O colorido da capa, revista Placar, os textos que estimulavam ler, alguns bons de verdade, lidos hoje ainda bons de verdade. Placar era na banca e a banca era outro universo mítico…

Banca de jornal eram as revistas em quadrinhos, outras que não que se entendia, revistas de historias de terror, fotonovelas, uma industria pop tão amadora como os jogadores ídolos, uma industria amadora, mas que custava alto e não cabia no bolso das calças rancheiras.

A vontade era de levar o colorido das bancas de jornais para dentro de casa, todos as imagens dos jogos ouvidos no domingo, ter os jogadores reais jogando nos times de botão, os heróis de quadrinhos, tudo palpável.

E á terça feira novamente, na banca de jornal toda a discrição que um menino de 10, 11 anos pode apresentar, esgueirar a banca e abrir discretamente a revista Placar, as imagens do futebol:

– Deixa a revista Placar aí, muleque – a voz era firme e indiscreta, definitiva.

Essa voz se repetiu algumas vezes, mas a rebeldia de abrir a revista insistia, o espaço colorido de mitos e imagens desejadas, era o espaço da transgressão, de tentar abrir o colorido da vida toda terça feira.

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E o rapaz insistia em não ter saudade de nada. A grita era enorme, a quantidade de pessoas que passava por ali reduzia seu tempo de pensar sobre coisas que já tinham sido. Não era a primeira vez que trabalhava num guichê de rodoviária, coisa antiga.

Seu tempo sempre foi diferente. Obedecia à lógica do fluxo, no principio interessava um rosto destacado, atentava aos vários tipos de sorriso, às carrancas, pulsavam por ali trechos de história. Observava as roupas, alguns perfumes incomodavam, e sempre os trechos de história…

Pegava o fortuito, o incompleto, sabia o destino, nunca o enredo. Fazia anos que esperava o nome do lugar e o horário, já havia trabalhado até em transnacional que mandava gente pra Bolívia. Quanto enredo perdido. Aquelas idas e vindas é que tiravam dele o luxo de ter saudade de algo.

Tickets verdes, cinza, azul, brancos, código de barras, horários, lugares, sobre tantos lugares ele desenvolveu uma fobia do “longe”, nunca queria ir, abominava viagens e deslocamentos, o máximo que partilhava com o deslocamento era saber o ruído dos onibus, a diferença entre eles, ouvia todo dia e sabia.

“Obrigado, brigado, obrigada, brigada, tchau”…silêncios…muitas vezes era o silêncio o seu dialogo com os viajantes, gente que para ir ao mundo precisava passar no seu mundo de quatro por três. Dia qualquer uma moça perguntou sobre uma foto de família que o seu antecessor deixara na mesinha de trabalho, disse que não era dele, a moça sorriu, talvez, da sua falta de enredo…”brigada”…

Tinha manias temporárias. Por um tempo brincou de advinhar para onde as pessoas iriam, era naqueles segundos entre a chegada e o pedido. Errava muito, era melhor pra inventar enredos do que pra descobrir destinos. E os enredos não passavam de destinos inventados. Essas manias passavam rápido.

Nunca teve tempo pra tentar entender porque não tinha saudade de nada. Nos últimos tempos dobrava o horário, pouco ficava em casa, percebera que há meses não ligava o rádio, ouvia sempre as músicas dos outros, as notícias dos outros, tava tudo pronto mesmo, mas sempre eram trechos, trechos que passavam e seguiam seus destinos.

Morava bem perto da rodoviaria, num quarto e sala variava sua vida do três por quatro. Mesmo dentro da casa se deslocava pouco, o que curtia era esmerar na brancura e no prumo da camisa bem passada, caprichava, os cabelos ainda fartos e a camisa limpa e branca, esse era o modo de se mostrar ao mundo, é certo que substituiam o sorriso e as demais expressões do rosto.

Por curto período dividiu seu guichê três por quatro com um rapaz de outra empresa. Ficavam os dois ladeados. O rapaz era falante, no início tentou enredar um papo com ele, mas o silêncio continuou. O rapaz estendia a conversa com as pessoas, isso o incomodava, mas os enredos cresciam e com eles o trechos, agora maiores, das histórias.

Durou pouco, bem pouco. Logo, tiraram o seu parceiro dali. Nem foi parceiro, mas foi uma historia completa, um enredo e um destino que ele soube inteiro e dessa feita pra dentro do guichê. Talvez isso trouxesse alguma saudade, passou, mas se completou. A diferença foi que o parceiro partiu sem ticket, atinou. Agora novamente sem saudade.

Feriados prolongados, festas de final de ano, dias santos, reclamações, palavras rispidas, pressa, atraso, cansaço…vivia no contrapelo, descansava nos dias sem destaque, sem emendas. Suas férias eram sem sentido. Ficava andando ali pelo centro, vez ou outra se deparava com algum onibus que costumava ajudar a encher sem nunca ver. Fora do guichê. Passavam os dias de férias. Era isso.

Seis e trinto e oito da manhã, entrava às sete, bebericou mais um café de coador, a menina da lanchonete era bonita, ele não sabia o nome dela, mas sabia seu gosto pela cor verde, pagou o café e deu um sorriso, a menina surpresa retribuiu, ele nunca sorrira antes, tampouco bebera mais uma dose de café. Era um dia diferente.

Manhã de pouco movimento, um rapaz chega e pede uma passagem para o norte, cidade no interior do Pará, vende para uma cidade próxima, não há caminho direto para aquele destino. Grande intervalo sem ninguém. O café bebido começa a atiçar a queimaçao, bebe água, tempo passa devagar. Outro grande intervalo.

Ficou olhando para a máquina de tickets, ela sem o barulhinho seco que emitia não era nada. Sem destino certo não tinha nem o ruído da maquina. Pensou sobre o tempo, sobre a maquina, sobre a saudade que não tinha. Bateu o dedo na lista, nem leu o nome da cidade, digitou o código e logo veio o barulhinho. Ticket emitido. Pegou a mochila, aproveitou o intervalo e foi buscar seu enredo sem destino certo.

abril 006

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