“Enredo”


E o rapaz insistia em não ter saudade de nada. A grita era enorme, a quantidade de pessoas que passava por ali reduzia seu tempo de pensar sobre coisas que já tinham sido. Não era a primeira vez que trabalhava num guichê de rodoviária, coisa antiga.

Seu tempo sempre foi diferente. Obedecia à lógica do fluxo, no principio interessava um rosto destacado, atentava aos vários tipos de sorriso, às carrancas, pulsavam por ali trechos de história. Observava as roupas, alguns perfumes incomodavam, e sempre os trechos de história…

Pegava o fortuito, o incompleto, sabia o destino, nunca o enredo. Fazia anos que esperava o nome do lugar e o horário, já havia trabalhado até em transnacional que mandava gente pra Bolívia. Quanto enredo perdido. Aquelas idas e vindas é que tiravam dele o luxo de ter saudade de algo.

Tickets verdes, cinza, azul, brancos, código de barras, horários, lugares, sobre tantos lugares ele desenvolveu uma fobia do “longe”, nunca queria ir, abominava viagens e deslocamentos, o máximo que partilhava com o deslocamento era saber o ruído dos onibus, a diferença entre eles, ouvia todo dia e sabia.

“Obrigado, brigado, obrigada, brigada, tchau”…silêncios…muitas vezes era o silêncio o seu dialogo com os viajantes, gente que para ir ao mundo precisava passar no seu mundo de quatro por três. Dia qualquer uma moça perguntou sobre uma foto de família que o seu antecessor deixara na mesinha de trabalho, disse que não era dele, a moça sorriu, talvez, da sua falta de enredo…”brigada”…

Tinha manias temporárias. Por um tempo brincou de advinhar para onde as pessoas iriam, era naqueles segundos entre a chegada e o pedido. Errava muito, era melhor pra inventar enredos do que pra descobrir destinos. E os enredos não passavam de destinos inventados. Essas manias passavam rápido.

Nunca teve tempo pra tentar entender porque não tinha saudade de nada. Nos últimos tempos dobrava o horário, pouco ficava em casa, percebera que há meses não ligava o rádio, ouvia sempre as músicas dos outros, as notícias dos outros, tava tudo pronto mesmo, mas sempre eram trechos, trechos que passavam e seguiam seus destinos.

Morava bem perto da rodoviaria, num quarto e sala variava sua vida do três por quatro. Mesmo dentro da casa se deslocava pouco, o que curtia era esmerar na brancura e no prumo da camisa bem passada, caprichava, os cabelos ainda fartos e a camisa limpa e branca, esse era o modo de se mostrar ao mundo, é certo que substituiam o sorriso e as demais expressões do rosto.

Por curto período dividiu seu guichê três por quatro com um rapaz de outra empresa. Ficavam os dois ladeados. O rapaz era falante, no início tentou enredar um papo com ele, mas o silêncio continuou. O rapaz estendia a conversa com as pessoas, isso o incomodava, mas os enredos cresciam e com eles o trechos, agora maiores, das histórias.

Durou pouco, bem pouco. Logo, tiraram o seu parceiro dali. Nem foi parceiro, mas foi uma historia completa, um enredo e um destino que ele soube inteiro e dessa feita pra dentro do guichê. Talvez isso trouxesse alguma saudade, passou, mas se completou. A diferença foi que o parceiro partiu sem ticket, atinou. Agora novamente sem saudade.

Feriados prolongados, festas de final de ano, dias santos, reclamações, palavras rispidas, pressa, atraso, cansaço…vivia no contrapelo, descansava nos dias sem destaque, sem emendas. Suas férias eram sem sentido. Ficava andando ali pelo centro, vez ou outra se deparava com algum onibus que costumava ajudar a encher sem nunca ver. Fora do guichê. Passavam os dias de férias. Era isso.

Seis e trinto e oito da manhã, entrava às sete, bebericou mais um café de coador, a menina da lanchonete era bonita, ele não sabia o nome dela, mas sabia seu gosto pela cor verde, pagou o café e deu um sorriso, a menina surpresa retribuiu, ele nunca sorrira antes, tampouco bebera mais uma dose de café. Era um dia diferente.

Manhã de pouco movimento, um rapaz chega e pede uma passagem para o norte, cidade no interior do Pará, vende para uma cidade próxima, não há caminho direto para aquele destino. Grande intervalo sem ninguém. O café bebido começa a atiçar a queimaçao, bebe água, tempo passa devagar. Outro grande intervalo.

Ficou olhando para a máquina de tickets, ela sem o barulhinho seco que emitia não era nada. Sem destino certo não tinha nem o ruído da maquina. Pensou sobre o tempo, sobre a maquina, sobre a saudade que não tinha. Bateu o dedo na lista, nem leu o nome da cidade, digitou o código e logo veio o barulhinho. Ticket emitido. Pegou a mochila, aproveitou o intervalo e foi buscar seu enredo sem destino certo.

abril 006

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3 comentários
  1. arnobiorocha disse:

    Ricardo,

    Vivemos sem enredo, nem nosso, nem de outros…texto espetacular.

    Arnobio

  2. Vera Borda disse:

    Você nasceu pra escrever sobre essas vidas miúdas, por assim dizer. No meio do conto, fiquei com medo da solução que vc daria no final. Mas acho que foi a “natural”, por assim dizer.

  3. Vera Borda disse:

    Enredo…. um enredo… há décadas estou atrás de um enredo pra minha vida. Tem vários contos … e longos pontos parágrafos.

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