“Voz sobre IP”


Um amigo, sim um amigo, era o barulho do skype pensado pra ser agradável que anunciava. Um amigo me chamava as duas e quatorze da manhã.

Uma chamada de skype de madrugada amedronta menos do que os velhos e estridentes telefonemas, o nome brilha e aquele barulhinho hightech anuncia macio o outro lado.

A conversa começa na voz:

– Oi, você tá bem ?

– Tô…bem, acho que tô, o dia hoje…

– Na verdade eu liguei pra dizer que penso que você deve parar de ter pena de seus personagens. Esse último é piegas demais.

A desgraceira que faz os blogs, basta escrever, escrever, apertar um botão e pronto, tá publicado. Foram duas madrugas pra atrás, uma história chegou pronta na cabeça.bonitinha, personagem triste. Instantâneo. Sentei, escrevi, publiquei.

Publiquei, publiquei…

E de longe, claro, alguém concluiu e fez juízo. Tudo bem que o personagem não era dos mais carismáticos, era apenas um cara no meio de uma historia interessante, ele mesmo não tinha tantos atractivos. O meu amigo, o nick do skype, o crítico, detonou.

Continua…

– Você estragou uma bela história por conta de um personagem que espelha sua auto piedade.

– Opa, opa, agora a piedade não esta mais no personagem, é minha? – subiu o tom da minha voz no meio daquele silêncio.

– Calma, não é pra tanto…bem, o fato é que tudo ficou impregnado de uma pieguice exagerada.

– Putz, piedade ou pieguice?

– Não importa…porque…

– Como não importa? A piedade pode ser épica, a pieguice nunca…

– Do jeito que eu tô falando nem a piedade, nem a pieguice podem ser épicas.

Aquela conversa no rumo da animosidade. Três da manhã. Segui e provoquei:

– Aliás, com que autoridade você desbeiça meu personagem? Com sua vastas leituras de um e meio Rubem Fonseca?

– Desqualificando meu prontuário você não salva seu personagem. Devo dizer que são personagens, porque é o segundo que você enxerta nas suas histórias com esse jeitinho de “ouvi Smiths minha adolescência inteira”.

– Você parou de ouvir Smiths?

– Não vem ao caso.

Escrever de sopetão só pode dar nisso. Você encaixa uma história no meio da madrugada, ela vem inteira e pronto, solta na vida. Pega um sujeito, mesmo sendo amigo, numa noite ruim e ele assassina seu personagem.

A voz trava, a ligação fica lenta e o recurso à mão e passar para a caixa de diálogo, sai a voz sobre o IP e entra o velho chat:

– Piegas ou piedoso, digno de pena ou com auto piedade? – esperava que ele resolvesse o conceito pra que eu pudesse espinafrar.

– Você não entendeu, vou ser claro: você quer que a humanidade tenha pena de seus personagens – a conversa vaga já estava ficando irritante.

– Você tá sendo evasivo. Então me diga quantos caras bons não quiseram que seus personagens fossem tristes e dignos de pena?

– Ah, então você admite??

– Psicanálise de boteco com panca de crítica literária, nem sei porque tô dando trela…o que eu admito é que você levantou um aspecto…

A conversa on line tem vantagens. Googlei: personagens piegas. Nada de registro relevante. Pieguice, auto piedade, nada disso servia. Não consegui ilustrar meus argumentos com uma citação espirituosa.

– Vá pro inferno, vc já escreveu alguma linha com pretensão à literatura? – apelei feio.

– Não, não mesmo, quem escreve às duas e pouco e já em seguida publica no blog é você, tô tentando ajudar e recebo patada e não é pela literatura, mas pela amizade.

– Desculpe…é piegas mesmo?

– Sim! – disse sem entonar em nada a frase.

Aquela conversa só seria salva com dignidade pelo fim da bateria do tablet que estava nos sessenta por cento, longe de acabar.

– Vc leu tudo, completo, até o fim?

– Claro, tem partes otimas, frases bem sacadas jogadas no meio de um personagem auto indulgente…

– PQP, mais um rótulo para o miserável?

Miserável? Eu disse isso!  Já havia incorporado a critica ao personagem ou a mim. Não era justo. Mal podia falar dele, criei e joguei na história. Piegas, auto piedoso, auto indulgente. Chega!

– Já são quase quatro da manhã – a voz sobre o IP não voltou a funcionar, teclava – quero parar esta conversa.

Silêncio…caiu a conexão?

O ruidinho discreto high tech e macio do Skype anuncia nova chamada. Demora uns segundos, conecta, a voz alta e clara.

– Você não ficou ofendido, né? Não chamei você de piegas, piedoso e auto indulgente, mas o personagem…

Como o blog ,rápido, instantâneo e publicável, o skype, voz e caixa de diálogo sumiram, offline salvador. Tinha até o recurso de deletar aquela conversa toda e bloquear o amigo crítico por uns dias. Fui dormir aliviado e guardei o personagem na memória disponível.

No dia seguinte mudei o nome do personagem.

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