‘A Virada da Violência”


“O mais perigoso, na violência, é sua racionalidade.”

Michel Foucault

Uma das doenças da contemporaneidade é a obsessão em criar falsas proteções. Muros altos e seguros com coberturas astronômicas, mudanças e recrudescimento de leis, tudo se insere na mesma cesta de abrigos esburacados e precários. A violência é a gema do ovo.

A Virada Cultural acontece em São Paulo desde 2005, não quero entrar aqui na pendenga partidária. Foi criada na administração Serra (PSDB), continuou com Kassab (DEM/PSD) e teve sua primeira edição no último final de semana com Haddad (PT).

Durante esses oito anos foram  poucos os momentos, do ponto de vista do poder público,  em que se considerou suspender o evento; na última semana foi votada uma lei que a insere nos eventos “permanentes’ da cidade. A Virada virou lei, apesar de não agradar a todos.

O que penso sobre a Virada (como parte de uma política cultural mais ampla) escrevi há dois anos aqui: http://klaxonsbc.com/2011/04/18/ate-a-hora-que-virar-de-verdade/ – pouco tenho a acrescentar. O que me interessa são as justificativas usadas para que ela não ocorra, o que se diz para pedir o fim do evento.

“Um evento como esse não dá certo num país como o Brasil, só no primeiro mundo”

“É preciso pensar antes em saúde, moradia, educação, transportes, depois Virada Cultural”

“O povo não valoriza, destrói e não respeita tudo que é de graça”

“Virada dos bandidos e assaltantes fãs do Racionais”

“Nada que acontece no centro de SP pode dar certo, ali só tem nóia e ladrão”

Extraí as frases aleatoriamente, sem critério qualitativo e quantitativo, de comentários postados em notícias de portais. Eles não destoam do raciocínio resumido de quem comenta tudo nesses espaços, os valores e categorias são os mesmos, não seria diferente para a Virada Cultural.

O que particulariza a questão é quando se confronta prazer, comemoração e celebração com violência. Talvez, seja a forma mais bem acabada de observar o confronto entre cultura e barbárie. E lembrando que a separação entre ambas não é tão cristalina e manipulável:

“Nunca há um documento da cultura que não seja, ao
mesmo tempo, um documento da barbárie. E, assim como ele
não está livre da barbárie, assim também não o está o processo
de sua transmissão, transmissão na qual ele passou de um
vencedor a outro.”

Walter Benjamin

A Virada Cultural coloca a nu a cidade, retira-lhe as proteções simuladas, algumas pessoas vão ao centro dos “nóias e ladrões”  e usam uma cidade que não vêem como delas, é a cidade do bandido, do degredado, suja, que fede a urina e que está abandonada. A cidade que as pessoas rejeitam.

E é este o palco escolhido para que num final de semana específico do ano de “Nosso Senhor” ocorra a catarse, a festa, a celebração, a disseminação de produtos culturais por praças, ruas, avenidas e cantos da cidade onde no máximo as pessoas passam correndo em seus carros durante o resto do ano.

O produto cultural, que é apenas parte integrante do conceito amplo de cultura, mas sem dúvida, o seu primo lucrativo, tenta unir uma cidade fragmentada por descaso, omissão, falta de diálogo e ausência de políticas publicas que transformem os espaços públicos em algo merecedor do seu nome. Um dia de entretenimento e exposição de produtos acabados está longe de ser o suficiente para tamanha empreitada.

A violência é uma realidade na cidade de São Paulo –  esta frase parece um exercício tautológico, mas não custa reafirmar: se a violência é uma realidade, como esperar que ela não ocorra em um evento que se coloca na contramão das relações estabelecidas dentro da cidade? A contramão é a tentativa de tornar públicas as praças públicas.

Um movimento óbvio para “acabar”  com as contradições é suprimir aquilo que as expõe, só que elas não deixam de existir. A cidade precisa de lugares efetivamente públicos, lugares de encontro e de troca. A violência ocorre no escuro, no claro, nas ruas largas e nas ruas estreitas da cidade; a Virada é um evento, e não estaria fora dessa lógica. Desmoralizar a Virada Cultural tem um subtexto interessante: a desqualificação da coisa pública.

O sujeito pode até declarar um ódio visceral pelo rap, funk, rock, umbigada, forró, dança contemporânea, performances em geral, mas como se declarar contra algo que aproxima pessoas e faz do uso da coisa pública um direito? Há uma racionalidade nisto, que, se for explicitada, muda totalmente o rumo do debate. Os que fazem apologia da violência, não são justamente aqueles que querem escondê-la por trás do discurso da excludência?

A impossibilidade de usar as ruas da cidade para qualquer coisa que não seja uma rápida locomoção transforma as ruas num detalhe incômodo do dia a dia. As ruas são abandonadas porque nelas praticamos nossas violências às escondidas.  E cada uma delas parece mais grave no outro, naquele que está distante.

Para cada arrastão, cada roubo que tenha ocorrido na virada há uma justificativa que aumenta a violência da nossa cidade. A Virada Cultural é o luminol dessa racionalidade violenta, desse sentimento recolhido que aumenta subterraneamente o ódio e a distância entre as pessoas. Combater a violência com ódio é um atalho para confirmá-la.

E não adianta dizer que isso é papo do povo dos “direitos humanos”, por que essa alegação apenas reafirma a falta de vontade para debater, e não muda nada. O debate não é de quem é contra ou favor da violência, isso parece ser consenso; o cerne da questão é de qual violência se fala.

O fim da Virada deixará as ruas mais vazias e as pessoas mais protegidas da violência que criam para si.

virada cultural maio 085

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2 comentários
  1. Chris disse:

    Boa!
    Se tivéssemos tido educação a violência seria apenas a ação do dilatemento múscular da cloaca da galinha.

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