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Arquivo mensal: junho 2013

Algumas mortes traduzem os sintomas de um tempo. Vacilei em escrever sobre, o cessar de Jacob Gorender é muito grande para caber em mensagens breves. Arrisco.

Militante político, pesquisador e historiador autodidata, ele marcou a vida por provocações, sim, por provocações no sentido de que tudo que ele escolheu não estava pronto nem evidente frente aos seus olhos, foi construído, quase sempre no contrapelo, uma vida provocada, de nítidas escolhas.

Gorender é a afirmação da política numa era de negação da política, e é esse o inequívoco sintoma – a morte. Não tem essa de lacuna, nem de substituição impossível, afirmar isso seria negar o que homens como ele perseguem e afirmam a vida toda. Boa viagem, camarada, o infinito não cessa, mas se não for reafirmado na materialidade fica sendo apenas o infinito.

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Jornais e revistas sempre foram uma constante na minha vida. Quando criança, apesar da família sem muitos recursos, aproveitava cada trocado para comprar revistas nas bancas. O jornal veio mais tarde quando apareciam as oportunidades raras de comprá-los ou ler na casa de parentes e amigos. É difícil romper com esse costume.

Vivemos um tempo de desmonte de redações, os velhos jornais e revistas agonizam entre o instinto de sobrevivência e a obsolescência dos seus formatos. Não quero entrar nesse momento na luta política, no confronto com ideologia defendida pelos donos dos veículos, tampouco no óbvio interesse comercial que tudo permeia. O que quero falar aqui é de uma coisa simples: a necessidade e o prazer de ler e se informar e como ficamos nessa mudança.

Na adolescência costumava comprar os jornais de domingo, com grandes cadernos, matérias longas, textos analíticos, resenhas interessantes, sobrava até texto para ler durante a semana. De vez em quando vinha ao centro de São Bernardo (morava no bairro) para comprar uma das três cópias do Jornal do Brasil que só eram vendidas na Banca da Matriz. Não foram poucas às vezes em que chegava tarde e não encontrava.

A leitura de jornais era grande referência, outra opção era a biblioteca pública onde passava horas lendo e anotando coisas. Como disse acima não dá para romper com esta historia de uma hora para a outra. Hoje os jornais fenecem e não me regozijo disso. Apesar das novas plataformas e da diversidade de formatos, um velho veiculo parte e com ele parte da nossa história, além do mais ficam algumas indagações.

Não cabe aqui divagações românticas, o uso de imagens passadas é combustível para esclarecer a ruptura. Uma nova maneira de informar já é realidade, a mudança de plataforma aproximou as notícias, encurtou o caminho entre o fato, a confecção, a interpretação, a produto da informação e finalmente o leitor. No PC, IPAD, celular, as informações, se replicam, se misturam e se recompõem no vai e vem incessante. Os domingos de manhã ficaram mais rápidos e mais constantes, não necessariamente mais profundos.

Hoje olho os jornais nas bancas e na estante da biblioteca com uma ponta de melancolia, como se olhasse algo que insiste em ser e não justifica a insistência. Claro que este olhar esta carregado de preconceito e que me impede de ler alguns bons textos, mas o costume se foi. Talvez seja essa mudança que faz com que os jornais desapareçam muito mais do que as transformações tecnológicas e comerciais o jornal perdeu seu valor simbólico.

É possível que sob o juízo de análises mais densas este meu olhar sobre as mudanças de paradigma no mundo da comunicação possa parecer ingênua e limitada. O que tento aqui é fugir da redução simplista de amar ou odiar os donos de jornais ou de louvar um novo mundo que ainda segue carregado de velhos símbolos; um mundo em transição que acrescido à velocidade cria miragens de mudanças definitivas.

Um exemplo? Os leitores de jornais diferem muito dos seguidores das redes sociais? Se ambos não interagirem com a informação serão apenas o passivo da notícia, ou seja, o velho com cara de novo.

O jornal morre (?!?) as novas plataformas surgem, se misturam, se confundem, mudam de nome, se mesclam entre a novidade e a auto referência, mas o velho formato ainda busca um substituto. É bem provável que a própria velocidade de transformação e a fugacidade sejam este novo formato e o substituto nem tenha a chance de existir por muito tempo sem ser substituído. É uma lenta morte num mundo de velocidades e a essência custa a morrer.

O fato é que as bancas, os jornais, as revistas, as bibliotecas, os pcs, os ipads, os celulares carecem ainda de elementos vitais: bons textos e informações confiáveis que não podem ser minimizados em meio a uma visão fetichista que privilegia os meios em detrimento do destino final. O novo não é tão novo como se apresenta, ele é apenas ardiloso para seduzir. O que morre não são os formatos, mas o que os carrega de sentido – dói a obviedade.

Parafraseando o já tão parafraseado Gil Scott Heron: a revolução não será formatada. Temos que estar atentos às novas mudanças sempre, e o mais importante é entendermos onde elas realmente são mudanças. Não mais os domingos de manhã com jornais enormes, mas também sem a ilusão de que a portabilidade e a instantaneidade “mataram” o primeiro.

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I want to be able to bring something to people that feels like happiness. I would love to discover a process such that if I wanted it to rain, it would start raining. If one of my friends were sick, I would play a certain tune and he would get better; if he were broke, I would play another tune and immediately he would receive all the money he needed. But what those pieces are, and what way do you have to go to arrive at knowing them, I don’t know.”

John Coltrane 

Um jornalista perguntou a John Coltrane como ele gostaria de ser visto na posteridade. Coltrane entre o bem humorado e sério respondeu que gostaria de ser visto como um santo. É certo que ele compreendia exatamente o tipo de santo que seria. Esta não foi apenas uma utopia, dos santos possíveis, Coltrane é um dos mais reais e verdadeiros.

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