“Biblioteca Pública e Mediação”


Ontem um amigo me fez uma pergunta complicada, daquelas que você hesita em responder não por dúvida ou excesso de cuidado, mas por medo da própria resposta:

– Qual o futuro das bibliotecas publicas?

Não vou reproduzir aqui a resposta, ela pode ter mudado durante a noite, ela pode mudar a qualquer momento, o que vou fazer é mudar o rumo temporal da pergunta:

– Qual o presente da biblioteca pública?

Pergunta que deve ser feita a todo um Brasil que se apresenta plural nas ausências e nas acomodações, diverso nos improvisos e nas distorções, múltiplo em histórias criativas e exemplos isolados, exemplos esses que mais aprofundam a dificuldade de uma solução integradora do que a fomentam.

Mas não é só de desesperança que vivemos na área de bibliotecas, e se tentaremos um futuro distinto desse presente, temos que nos aprofundar nele para avançarmos. Presentificação.

Um dos passos fundamentais é olhar para quem hoje, de fato, trabalha e atende nas bibliotecas públicas. Que profissional que entrega para a população o cartão de visitas da dimensão pública da leitura em nossas bibliotecas?

Quando falamos em novos modelos de bibliotecas públicas, muitos detalhes e um amplo arcabouço de projeções e idealizações vêm à tona. Móveis, cores, equipamentos, iluminações, estudos sobre luz natural, gadgets, setorizações, acervo, sistemas de controle de acervo etc. A figura humana aparece, nessa escala de destaques e prioridades, como um apêndice a ser encaixado, sua atuação e seu papel muitas vezes têm menos destaque do que a decisão de derrubar ou não uma parede.

Voltando ao presente: a pessoa, o profissional que atua nas bibliotecas públicas, hoje, é o centro do receio que me fez temer uma resposta de chofre ao meu amigo. Muito simples seria elencar as precariedades e as carências que cercam este indivíduo, a falta de qualidade no atendimento, a total incompreensão das múltiplas possibilidades da mediação (aliás, qual mediação?) a alienação sobre seu papel social, a falta de apetência para a empreitada.

Estas constatações bastam? Evidente que não bastam. Ao seguir esse caminho, cometeria o erro crasso de nem olhar para o futuro, nem me ater ao presente, e me fixar inócuamente a
no passado. Apontaria caminho nenhum.

A biblioteca pública surgiu no Brasil – como destaca uma grande amiga – fugida, escondida, fatiada, e tão somente como patrimônio a ser preservado. O Rei de Portugal a trouxe na bagagem para protegê-la da destruição, da invasão napoleônica. Este DNA é exemplar: algo que surge, que se inventa escondido, merece o nome de público?

E este início de história não deve ser encarado como chiste, como piada, e não é o caso de se fixar no passado, o presente segue confirmando esta instituição provisória, escondida, quase clandestina e patrimonialista. O que parece é que as bibliotecas públicas estão sempre prontas para voltar com seus reis perdidos para algum portugal imaginário.

O problema é que o Rei não estava tão perdido assim, ele sabia o que estava fazendo, mas a biblioteca que herdamos continua se perdendo.

A biblioteca pública que se fundou “não pública” e legou isso aos seus atores dos vários momentos históricos, enfrentou outras intempéries durante o tempo e continua buscando sua identidade. Reitero que dentro dessa trajetória de atropelos, existem exemplos de vitórias e êxitos, e não são poucos, porém, eles não se fixaram como modelos.

É preciso destacar uma prioridade, o momento, voltando ao hoje, é de inventar, de dar poesia ao ser humano que atua nas bibliotecas. Algo urgente e inadiável, priorizar a figura do mediador em biblioteca.

Sim, mediador, pois todo o profissional que atua numa biblioteca, independente de estar nas funções técnica, administrativa ou de atendimento, atua como mediador e, no mínimo, como suporte para a mediação, esse é o fim e não o meio.

Vou terminar não mais fugindo da resposta ao meu amigo, resolvi revelar essa resposta, não a de ontem, mas uma factível, presente, de hoje, não quero simular uma fuga redentora como o Rei de Portugal o fez, ele e sua Real Biblioteca, portanto volto à pergunta inicial:

– Qual o futuro da biblioteca pública?

Respondo:

– O futuro da biblioteca pública é investir, desde já, no presente, no agora, na formação de mediadores de leitura e informação, é colocar nas bibliotecas a vida e a diferença que faz o dialogo e as buscas conjuntas que dão sentido ao imobilismo das estantes organizadas.

Por que não um Programa Nacional de Formação de Mediadores que agregue todos os profissionais, instituições e organismos envolvidos na questão da leitura? MINC, MEC, União, Estados e Municípios, Universidades, juntos para retirar a biblioteca pública do seu eterno portugal abandonado.

Por ora, é um caminho apenas sugerido, a ser desvelado, construído, é o obvio que não se revela óbvio, é o futuro calcado na urgência de um presente, destacando que se esperarmos muito, voltamos rápido ao passado incerto.

Quero já o “Programa Nacional de Formação de Mediadores”, confesso que é um ideia vaga ainda, quem se habilita a ajudar a dar essa resposta para o futuro?

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3 comentários
  1. Durvalina Soares Silva disse:

    Caro,
    Concordo com você. Vamos construir uma nova biblioteca pública focada no diálogo. Diálogo entre leitores (ou futuros leitores), livros, mediadores, escritores. Diálogo em todas as direções. Não vejo outra possibilidade de futuro quando penso em leitura e informação públicas.

  2. Pingback: SUSCETÍVEL FEBRIL

  3. Alexandre Nogueira Paixão disse:

    Companheiro, sei que o tema aqui não é Portugal, mas sua contribuição para criar uma instituição que, hoje, muitas vezes se apresenta descolada de nossa contemporaneidade.
    Contudo, me intrometo no seu texto para explicitar dois momentos que reforçam sua tese, com a qual concordo e espero te ajudar a defender:
    As bibliotecas reais representavam um dos pilares de sustentação da nobreza ilustrada, que era o saber. Na meu ponto de vista (bem humilde e parcial), a vinda da Biblioteca Real Portuguesa deu-se pelo seu valor simbólico e pelo medo de que os franceses fizessem melhor uso dela; por isso escondida e “fatiada”. Contudo, sabemos que à nobreza portuguesa os livros eram mais importantes que a leitura, por materializarem o simbólico. Deste ponto, a vinda dos livros da Real Biblioteca representam a elevação do Brasil à condição de centro do frágil império português; não era temporário.
    Em 1825, Portugal reconheceu a independência política do Brasil mediante o pagamento de uma indenização. Boa parte desta serviu ao ressarcimento do Estado Português pela perda de seu bem simbólico mais caro: A Biblioteca. O reconhecimento do Estado Brasileiro nasceu a partir do empenho em se conservar os livros aqui.
    Podemos dizer, portanto, que o Brasil tem sim uma tradição fundada nos livros, mas não na leitura.

    E a mediação, assim como a leitura somente acontecem quando se transfere o foco do objeto para o seu conteúdo, que é produto social também e, portanto, coletivo.

    Este pode ser o momento em que a história nos convida a romper com o passado.

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