“Fragmentos de junho”


“A luta para entender os protestos não é luta só epistemológica, com jornalistas e teóricos tentando explicar seu “real” conteúdo: é também luta ontológica pela própria coisa, o que esteja acontecendo dentro dos próprios protestos”.

Slajov Zizek

O mês de junho de 2013 vai entrar para a história política do Brasil como um paradigma. Como farsa ou tragédia só a visão retrospectiva dará conta de dizer. A eclosão de manifestações deixou partidos políticos, movimentos sociais, mídia, intelectuais e a população perplexos. Todo mundo procurando o rumo e as reais motivações que levaram milhares de pessoas às ruas. Os motivos alegados variaram as colorações ideológicas idem, e as consequencias vamos viver intensamente nos próximos meses. Reuni pequenos textos que escrevi no Facebook durante nos meses de junho e julho. Vou postar aqui dividido por datas, mais para organização de registro do que para qualquer sistematização de pensamento, até porque a perplexidade e o vacilo aludidos acima, certamente estão no que escrevi.

14 de Junho via celular

A mídia fez vista grossa na chacina de retaliação ao suposto PCC, em Pinheirinho, na Cracolândia e agora tomou um literal tiro no olho. E o tiro no olho da mídia, óbvio, acertou o lado mais fraco, o trabalhador, quem escreve editorial continua intacto.

18 de junho via celular

O que aconteceu ontem nas ruas ainda é difícil de aferir. Fui até a Paulista, encontrei um terço da manifestação. Os transeuntes não envolvidos olhavam, tiravam fotos, sorriam, procuravam o jeito de ir embora (usando o sistema de transporte pivô da crise). A cidade viveu normal em paralelo. Pequena parte da cidade foi reclamar dessa parte, grande parte reclamava de um pacote genérico. Vi uma menina com cartaz contra a PEC 37, outro rapaz com uma máscara levava um cartaz anticapitalista. Eu não sei se esta geração tem rumo, pois eu mesmo não sei o rumo que tomo para entender essa geração. Cresci dentro de um mundo político, onde partidos, programas e ideologia eram (são?) o menu básico, se isso ruiu ainda não sei, pode ser que saibam por mim. O mais positivo de ontem foi à entrevista que dois líderes do MPL (Movimento Passe Livre) concederam ao Roda Viva. Os jornalistas insossos e sua ladainha costumeira tentaram colocar casca de bananas para o rapaz e a moça, eles pularam e responderam com coerência mesclada a um travo de insegurança natural do momento e da idade. Tentar compreender o que nos incomoda é exercício duplo num mundo de acomodações.

20 de junho

Presidenta Dilma Roussef: é hora de se pronunciar, é hora de aglutinar forças e entender o que esta acontecendo, a fragmentação de análises pode criar uma situação incontrolável.

20 de junho

Peço um favor aos caros amigos do Facebook: se você deseja um golpe, fomenta o desrespeito às instituições e coloca declarações racistas, homofóbicas ou preconceituosas em geral, me delete da sua lista. Peço com serenidade para garantir a sanidade de todos. E fique à vontade para me deletar por conta das minhas ideias.

26 de junho

A votação da PEC 37 no fim da noite de ontem foi emblemática. A votação da bancada do PT (que fechou voto contra) surpreendeu, decepcionou muita gente. Promotores e procuradores que ocuparam as galerias do Congresso comemoraram. Também no dia de ontem a Suprema Corte dos EUA revogou após 50 anos a Lei de Direito ao Voto. Essa lei estabelecia regras de votação nos Estados onde era detectada a discriminação racial, agora cada Estado controla o seu processo. A coincidência entre esses dois fatos é a aposta que se faz na autonomia e amadurecimento das instituições. No caso do Brasil, o Legislativo chancelou ao Ministério Publico o direito de investigar (sob regulação própria e sem interferência externa) crimes. No caso dos EUA o Judiciário concedeu aos Estados total autonomia e controle sobre o processo eleitoral. Fica uma pergunta direta: confiamos em nossas instituições? Eu poderia fazer essa pergunta em inglês, mas estou no Brasil.

26 de junho

A greve do dia 01/07 não tem pé, nem cabeça, nem pauta, nem motivo, nem nexo. Greve para reivindicar o quê? E o pior é que tem gente de esquerda preocupada com greve chamada por um anônimo que nem consegue explicar o que é greve?

01 de julho

Pela quarta vez acompanhei as manifestações nas ruas que começaram mês passado. Duas delas foram a SP e duas aqui em SBC. Muitos boatos marcaram esse tal dia de greve geral. Na semana passada participei de uma reunião com coletivos de esquerda aqui do ABC e a informação que se tinha era que aqui na região o “Anonymous ABC” havia chamado às manifestações. Foi marcada uma aglutinação de forças de esquerda para marcar posição nas ruas. Hoje por volta das 18hs começou o movimento de pessoas em torno do Paço Municipal SBC. Em sua maioria eram coletivos anarquistas, jovens convocados pela internet (Anonymous) e os coletivos de esquerda (partidos, movimentos sociais, etc.). No início houve um princípio de bate boca para que fossem excluídas as bandeiras dos partidos, de fato não apareciam, mas os símbolos da esquerda prevaleceram em parte dos cartazes e bandeiras. As cores vermelha e preto prevaleceram. A manifestação saiu do Paço Municipal rumou pela Lucas Nogueira Garcez, seguiu pela Anchieta, voltou pela Rua Vergueiro para chegar ao Paço Municipal novamente, cerca de duas horas e meia depois. Cerca de cinco mil pessoas participaram. No final confronto, bombas de efeito moral, correria e tudo adequado para a imprensa chamar uma manifestação plural de vandalismo. As pessoas estão nas ruas e não devem sair tão cedo. Parece que tem gente que ainda não se convenceu disso.

04 de julho

PSDB, Demos e PPS e, claro, o PMDB contra o plebiscito, mas o que eles propõem para dar respostas ao clamor das ruas? Ou era apenas fingimento a indignação da oposição? Quanto pior, melhor?

08 de julho

Nos últimos dias o propalado “silêncio do Lula” segue incomodando os veículos de comunicação e suas trombetas monocórdicas. Ciosos de criticar a “língua solta do ex-presidente”, agora reclamam da falta de sinais. O Estadão já está convicto que Lula é candidato e que Dilma fracassou. Tudo é afirmado e refutado, sem que seja feito o básico em jornalismo: ouvir o outro lado. Parece que o silêncio de Lula incomoda a mídia porque assim ela tem que ficar ouvindo o eco das próprias besteiras que publica.

24 de julho

O mantra coxinha lapidar:

“Nem direita, nem esquerda. Estamos à frente.”

Mas pode chamar de “retorno ao grande nada.”

25 de julho

Em tempos de neoudenismo fazer política parece um exercício de maldade. Sim, o termo “política” esta associado a coisas ruins, mazelas, falcatruas. Parte do jogo confirma essa sensação, mas não é fora do campo da política que vai se superar isso, e nem todo campo da política é permeado por essa negatividade. Mas é mais fácil negar tudo para criar uma falsa ruptura. “““ ““Todos os argumentos levam para algo “fora da política” ou que negue a” velha” política em benefício da “nova” política. Pergunta de incauto: o que é e onde está esse novo??

julho 075

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1 comentário
  1. arnobiorocha disse:

    Ricardo,

    Espetacular o resgate e do nosso zigue-zague

    Arnobo

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