“Ainda sobre as manifestações”


Desde o início das movimentações de rua operadas pelo MPL , em junho, que se multiplicaram em diversas outras, tomei muito cuidado para não embarcar em análises apressadas e redutoras sobre as manifestações.

Não vou criminalizar movimentos
sociais em hipótese nenhuma, tampouco agir como um deslumbrado olhando para eles sem apontar as contradições percebidas.

Em linhas gerais a base das reivindicações tem toda a legitimidade: melhoria dos serviços públicos e crítica ao funcionamento das instituições.

O perfil dos manifestantes é diverso: jovens estudantes insatisfeitos com as regras e funcionamento da política, militantes de esquerda desiludidos, e uma massa cambiante de pessoas que nunca se envolveu com política.

Contudo e apesar da aparência de novo o embate central ainda opera no âmbito da política tradicional e sua velha correlação de forças, oposição x governo, isso não some num passe de mágica, e por ora, essa ainda é a regra de jogo.

Agora que passamos da fase da perplexidade e do romantismo podemos afirmar: os movimentos que varrem o país apesar do formato multifacetado e inusual, têm um intervenção notável de forças conservadoras, e isso não esvazia o papel da esquerda que esta atuando nele, pelo contrário, é preciso ficar mais atento com as manipulações.

Não vou chamar indiscriminadamente todos os manifestantes de vândalos ou laranjas, nem não vou me espantar com chutes em janelas de sedes de governou ou vidros de agencias bancárias quebrados (isso é efeito colateral), muito menos me interessa apontar que existem criminosos dentre os manifestantes. A criminalidade é parte do desenho social.

O que me interessa são os movimentos estratégicos, o que esta no fundo. O verdadeiro embate que perpassa a política e é nele que percebo que o novo não predomina.

Quem opera nas sombras continua usando o argumento da criminalização dos movimentos sociais, só que agora capitaliza com o efeito causado por esses próprios movimentos.

O fascismo age sorrateiramente inclusive atacando seus braços armados, sua quinta coluna. E usando inocentes úteis. Reverte pra si o que pretensamente questiona as suas bases de existência.

O novo pode decepcionar demais quando começa a trabalhar para fomentar o que é velho. Não consigo enxergar de forma clara um movimento antihegemônico, anticapitalista, que questione a exploração e a desiigualdade, há indícios evidentes de um ultraliberalismo nisso tudo, e não por atacar o governo do PT, isso é conjuntural, mas pelas palavras de ordem que faz ecoar.

Na prática, a conquista do congelamento das tarifas foi a vitória mais expressiva até o presente, no demais das conquistas práticas, por enquanto, foi o tal “muito barulho por nada”. Mas é um barulho que incomoda e move (ou deveria mover) algumas convicções congeladas.

O próprio movimento precisa avançar na crítica ao Governo, nesse momento parece acompanhar de muito perto o discurso moralista da oposição. Novamente caímos no velho impasse governo x oposição ou PT x PSDB como querem alguns.

Uma parte esquerda entusiasta reclama que quem apóia o governo tenta deslegitimar tudo sob a ótica uma obsoleta leitura da realidade. Por outro lado, o que fazer com a infiltração clara de uma direita organizada nas manifestações? Ignorar, confrontar, se aliar táticamente? É preciso que isso fique claro.

Evidente que não podemos ignorar novas forças políticas e suas formas de articulação – que utilizam tecnologias de rápida comunicação e se organizam de forma horizontal – mas afirmar que as mesmas não estão atreladas à renitente luta de classes seria uma precária leitura da superestrutura.

Resta saber quais serão as consequências concretas do pós-junho de 2013: o reforço dos movimentos sociais, fim da desgastada dicotomia PT X PSDB, consolidação de uma nova esquerda ou de uma direita assumida?

Ou será que todos nós usaremos máscaras dos anônimos para continuar beneficiando quem sempre ganha o jogo?

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1 comentário
  1. arnobiorocha disse:

    Ricardo,

    Este é o debate fundamental, a quem serve o “Gigante”, como vamos disputar e usar esta energia surgida das manifestações.

    Arnobio

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