“Prazo”


Tudo sempre parecia urgente. Era agosto, e agosto é um mês cheio de estigmas, então, era mais urgente ainda acabar. Prazo? Nunca pensava em prazo, apenas acabar o serviço.

O prazo existia. Rodava pela noite, os trabalhadores da noite, todos eles, o conheciam. O povo do posto de gasolina, da lanchonete, o rapaz pálido que vendia flores nos bares, Robério da banca de jornal.

– Não consigo mais comprar revista, nenhuma me atrai – era o começo de conversa.

– Eu decoro títulos e preços, a noite passa com o barulho da TV – Robério não perdia nunca o humor ou paciência.

– Vou comer uma paçoca – pegou, desembrulhou e engoliu, assim desvirtuava a função da banca de jornal.

Agosto, mês do suicídio de Getúlio. Em 1983 morreu uma tia no interior – no começo daquele agosto – a mãe dizia ser a maldição do mês. Sairam de casa na madrugada, pegaram ônibus e ainda era escuro, cinco horas de viagem, já quase Mato Grosso, nunca tinha visto a tal tia. Uma lembrança.

Pegou mais duas paçocas e entrou na Lanchonete Portucalense. Mastigava pedacinhos de amendoim, viu o Pedro na sua cadeira cativa e sempre com frases espirituosas:

– Passei a noite esperando alguém, sabia que uma hora chegaria a minha primeira frase, qual será? – sorridente e hospitaleiro o fiel cliente da Portucalense.

– Se eu andasse com frases prontas, estaria em casa trabalhando – respondeu escondendo o sorriso de satisfação.

Pedro era um bom cara, perdeu família por causa do jogo, inteligente, mas inábil com a vida prática. Adorava contar histórias longas, deixava a impressão que sempre mudava os fatos no meio da prosa, e não importava verdade ou ficção, as histórias rendiam.

Chamo uma gelada, Pedro sorriu e emplacou um silêncio de um minuto. Goladas, história começada. Mais uma, duas, três…

Duas horas com Pedro, história terminada, as cervejas, algum rubor no rosto. Boa noite, pra novorumo. Outras partes da noite a explorar.

A urgência afrouxava, não dormia, o dia era o fim do prazo, e esse dia seria longo, então alongava o fim do prazo. Passou em frente à banca, Robério dorminhocava. A madrugada já avançava. O prazo parecia maior.

O rapaz das flores, o pálido rapaz das flores, ele nunca ouvira a voz do sujeito, chegou perto, não eram falsas, eram flores de verdade. O rapaz não sorriu, nem ofereceu flores. Solitário é percebido fácil na noite, ainda mais por um profissional que vive de pessoas que têm pessoas para dar flores. Ele não era um, nem sorriso, nem simpatia. Sem flores.

Luzes, Lubrax, posto de gasolina, a loja de conveniência era a dama da noite, não ia nem vinha, não fechava. Tinha ar condicionado e Radio Antena Um ligada o tempo todo. Noite quente, loja fria. Maquina de suco de milho, era o único lugar que vendia suco de milho. Pegou um copo grande e encheu de suco gelado. A Antena Um tocava Eric Carmem:

All by myself
Don’t wanna be
All by myself
Anymore

Não deveria existir música mais insuportável, com jeito de coisa velha e passada, o diabo é que tocava fundo, a melodia pegajosa e o solo meloso de guitarra. Pensava alto:

– Esses compositores usam alguma droga pra gente grudar nessas músicas.

Vulgar o sentimento de todo cara que se julga superior ao apelo pop. A briga contra a multidão. Fim do dilema, ele gosta da música.

Pior é o que o suco de milho fará horas depois. Suco de milho e Eric Carmem. Novamente o prazo e não há mais lugares para ir. Mais quatro ou cinco músicas da Antena Um na conveniência, a provisão do imaginário já começa a ficar preenchida. Banca de Jornal, Portucalense, o pálido das flores, suco de milho, Antena Um, Eric Carmem, horas de agosto, o mês do estigma.

Volta ao Robério, virou vela, a moça bonita que conversa com ele dia sim, dia não, está hoje lá, revista na mão, folheando sem olhar e olhando para Robério, namoram silenciosos. Robério olha para ele de lado, ignora, ele cala, vai ver revistas, a moça também o ignora. Ele tem a vantagem de se fingir um cliente, não para Robério, nem para a moça, mas para ele mesmo. Mais quarenta minutos. Leu duas matérias da Revista Saúde, não decorou.

Prazo, tentou lembrar quando fechou a data para entrega do trabalho, era um texto curto e detalhado, uma descrição completa de conteúdo para uma loja de auto peças. Tinha que ter apelo e urgência, era para a página da internet, ele não tinha carro, nem sabia dirigir, mas a loja de auto peças era o seu mote da semana. O texto não saia. Agosto, dia 6 era o fim do prazo. O dia que seguia.

A Portucalense fechas as portas, o rapaz da cozinha passa correndo e grita um “corintiano”, ele sorri de volta, nem liga para o futebol, mas é o código de falar com todos. O fechamento da lanchonete é um alarme, já passa de cinco horas, não anda de relógio e sempre esquece o celular. Sempre sem as referências das horas. Olha o letreiro da Portucalense apagado e nota que a letra E tá caindo, um detalhe, talvez um mote, aquilo pode virar texto.

Na rua de cima ainda rola um barulho, tem bares, tem forró, tem puteiro, rua longa, mas ele prefere ali, sua rua, muito perto da grande avenida, dos carros rápidos , de onde pode ver a luz acesa do seu quarto, seu apartamento fica a uns trezentos metros, tudo perto e sob o seu controle.

O suco de milho começa a dar retorno, azedo. Foram duas linhas que escreveu, duas linhas de várias devidas. O prazo, agosto é um mês de complicações. Logo, deve sentar e escrever o texto, está tudo sobre controle.

A moça bonita foi embora, Robério estica a perna sentado na beirinha da entrada da banca, calça arregaçada até perto do joelho, logo acabará o expediente no café com pão em algum bar da quebrada. Faz questão de fazer a primeira refeição perto de casa. O amigo da banca mora longe, dois ônibus. Olha para ele e ri, fala alto na madrugada vazia:

– Nem passou em casa, ficou direto? – fingia ignorância do seu paradeiro.

– Fiquei ai um tempo, mas você não viu, tava chapado na moça bonita – sem amargura, observou e disse o óbvio.

A noite acaba, ar quente, sol vindo ainda fraco, mas iluminando firme e fazendo o dia vigorar. Desperto, ele segue sem tchau pra ninguém rumo à luz acesa da sala. Tudo perto, por três ou quatro horas não foi longe, ficou ali no meio das suas poucas opções e pessoas da madrugada. Dia feito.

Quase no fim do caminho o pálido rapaz das flores está no ponto de ônibus, como todo dia que trabalha. Não dá pra saber se triste, se cansado, quieto. Muitas flores sobraram e leva tudo consigo.

– Será que as joga fora, será que faz desconto? – pensou alto

Depois de muito tempo – tempo em que nunca falou com o florista andante da madrugada – finalmente abordou o rapaz. Seis e vinte da manhã. Pergunta:

– Quanto você faz um maço de rosas – a pergunta soava patética mesmo.

O rapaz não sorri, apenas responde frio, nem cansado, nem triste:

– Há muitas rosas ali naquele jardim, roube-as – sem emoção, pragmático, aponta um jardim próximo e sobe rápido no ônibus.

Ele fica ali com a primeira frase do refrão da canção de Eric Carmem na cabeça “All by myself”, e um prazo para cumprir. A história de Pedro persiste fresquinha e presente.

foto

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: