“Comentários sobre o Fora do Eixo”


Alguns comentários sobre o Fora do Eixo.

Nesses tempos bicudos devemos estar atentos a todos as formas de organização alternativas e contra hegemônicas, tenho como princípio não acusar levianamente nada e ninguém, principalmente movimentos sociais construídos com legitimidade. Porém, me atenho a dois motivos singelos que nos sugere a cautela e que envolvem o Fora do Eixo e congêneres: a incipiência no debate de política cultural e a falta (concentração) de recursos na área. Fazer gestão cultural e construir políticas culturais é uma jornada dupla diária, portanto, não devemos brincar com fundamentos. Para a prática, para a gestão, para vivência, para o fazer cultural precisamos de recursos materiais ,e antes de tudo, pessoas, pessoas com direitos básicos respeitados, nós que tantos exaltamos os direitos culturais como dos mais importantes dentre os direitos humanos. Precarizar esses fluxos é jogar contra. E é nesse quesito que o FDE não me convence há algum tempo e nesse debate recente está longe de me convencer.

Não vou fomentar fofocas e acusações mútuas (emilinha borba x marlene). O que me interessa é entender o FDE como modelo de gestão e experiência relevante na construção de uma política cultural. O que vejo até agora:

1- não há clareza sobre a destinação dos recursos públicos que estão sendo utilizados pelo FDE, e aqui não vai nenhuma ilação sobre desonestidade e nenhum julgamento prévio – existem órgãos e instâncias competentes que dão conta dessas lacunas – acredito que as inquirições que eles estão recebendo podem servir para o grupo pensar uma forma de prestação de contas democrática;

2- a horizontalização e a divisão de tarefas dentro dos coletivos não está muito clara. À primeira vista me parece a velha hierarquia travestida em neologismos, muita retórica e nenhum formato “transgressivo” resultante. O trabalho não perdeu seu valor central, ele foi modificado com a tecnologia e a mudança nas relações sociais? Sim, mas isso não quer dizer que os direitos do trabalhador (artista ou não) possam ser reduzidos a uma “experiência alternativa”, o que os membros do coletivo chamam de “lastro adquirido na experiência” é resultado de trabalho e deve ser tratado como tal ;

3 – me assusta o discurso do “fazer muito com pouco recurso”, na prática isso implica em precarização de todo um sistema, não afeta apenas o FDE isoladamente, mas toda uma luta da área cultural por recursos e infra estrutura. Enquanto alguns afirmam e mesmo vivem essa utopia, os velhacos de sempre se apropriam dos recursos da cultura (através da Lei Rouanet, editais ou do velho balcão) e usam para os suas festas particulares. A indústria cultural, aquela do conteúdo, não morreu, ela se travestiu e os velhos personagens ainda continuam ganhando, inclusive alguns que “adoram” o FDE;

4 – ainda não consegui entender o motivo das reações exaltadas, e muitas vezes soberbas, das pessoas do FDE, e de alguns defensores diletos, diante de críticas. Quer dizer que todo crítico do FDE se transforma “a priori” em fascista, leitor da veja e reacionário? Ainda que reconheçamos que parte dos ataques são levianos, desqualificar interlocução é um velho método que esvazia qualquer debate. Para um coletivo que defende as relações horizontais esse tipo de reação é, no mínimo, estranha.

Não quero, e acredito que nem conseguiria, esgotar aqui todas as minhas dúvidas e possibilidades de discussão a respeito do FDE, apenas quis contribuir com alguns pontos e espero aprender mais sobre o assunto nesse debate.

Sigamos.

fora-do-eixo

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3 comentários
  1. Vera Pereira disse:

    Muito bom. Expressar claramente as dúvidas é uma forma de começar a pôr os pingos nos Iss. Compartilho dessas dúvidas. Um avanço.

  2. O texto admite que não tem certeza de nada, mas acaba fazendo julgamento. Isso me parece pior do que aqueles que dizem ter certeza e por isso já condenam de antemão. Na verdade o texto só diz que tem dúvidas para fingir debate e impor conclusões, na verdade. Bastaria o autor correr atrás de mais informações se de fato quisesse ser imparcial e não impor sua opinião de forma dissimulada.
    Vejamos: ele afirma que “não há clareza na destinação dos recursos públicos” para em seguida admitir que “existem órgãos e instâncias competentes que dão conta dessas lacunas”. Se ele acredita nesses órgãos fiscalizadores, então admite que a sua afirmação não procede. Afinal, se o FdE não tivesse notoriedade bastaria deixar um livro-caixa em cada sede que não haveria uma legião de curiosos cobrando a publicação na internet. Fazer isso antes seria desperdício de tempo e uma preciosidade desnecessária.
    Só para ficar em mais um ponto, o autor diz no final “não entender o motivo das reações exaltadas” do FdE. Ora, pré-julgamentos que dizem que o grupo é mentiroso e criminoso, como essa que transcrevi acima e as outras contidas no texto já são uma exaltação. Vemos que as notas oficiais e comentários dos membros do FdE não são nada mal-educados ou maledicentes como os dos seus detratores, o que dá ao item 4 do texto o mesmo nível de distorção e pré-julgamento dos demais.

  3. Jaime,

    como vc deixou comentário aqui no blog tomo a liberdade de me dirigir a vc diretamente:

    1 – sobre prestação de contas: os órgãos existem, porém os mecanismos de prestação de contas devem ser aperfeiçoados permanentemente, o FDE com seu funcionamento horizontal (não é essa a proposta?) poderia sugerir alguma forma inovadora de prestação de contas, por ora, como frisei no texto, tudo é muito nebuloso.

    2 – o debate sobre as práticas do FDE acontece muito antes do Roda Viva, da Veja e da Carta Capital colocarem o assunto no foco, acusações de todos os lados pululam há muito tempo e não há como separar a contenda entre bem educados e mal educados como você sugere, me parece um tanto reducionista. Há críticas desqualificadas de ambos os lados e grande parte delas fogem dos assuntos gestão e política cultural que procurei frisar.

    Expor dúvidas não é deixar “ter algumas certezas”.

    agradeço os comentários.

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