“Eu não tô bixado, não”


Fiz o gol, pixotada do Junior. Rei (diziam). O estádio era festa só, a fuzarca fazendo o fundo até o fim, primeiro jogo, metade da saga se foi, galo forte vingador.

E o tempo de espera, a falação das rádios, as manchetes, faltava pouco.

Maracanã, sempre bonito… cheio…

Entrei na área, rapidinho na primeira oportunidade – pouco depois do Nunes abrir o placar para eles, nós já estávamos atrás – o chute saiu mascado na perna do Manguito e enganou o Raul. Gol. Quase, quase o título (ainda não).

A bola zunia pra cá e pra lá. A pegada era forte, jogo bom de jogar. Tinha gente muito boa do outro lado. Bola na frente da área, Junior bateu e a ela parou no pé “certo”, João Leite caiu e lá se foi a bola no ângulo, o Zico. Não, não tinha acabado.

A fisgada, aquela, ninguém tocou em mim, não ali, a dor não tava no gibi, doeu muito. Um acúmulo de pancadas, desde o dente de leite, vários “Morais” passaram pela minha vida. Era um barulho só, a perna doía e tudo ficava lento. Nunca senti igual, mas não faltava vontade.

Camisas vermelhas e pretas sobravam e a bola escapava, fácil. Eles precisavam do título, não tinham um Brasileiro.

E tem a hora que tudo para, tudo silencia, e são apenas as camisas de tons diferentes correndo… a bola não parava no pé.

Não, não é nem um pouco suave uma multidão inteira gritando:

– Bixadôooo, bixadôooo – e bateu no ouvido, eco, juntou com a dor e a lembrança da fisgada. Fui, precisava, buscar o empate, nós fomos. Bixado. A dor.

O Aragão corria junto. Camisa preta, e a respiração difícil de juiz, vi o Cerezzo, olhos vidrados, falando no ouvido dele.

O início da década, a primeira decisão dos anos 80, claro que eu não fiz essa relação, claro que na cabeça da gente era, antes de tudo, a primeira decisão depois de 1977, pênaltis, Mineirão, perda do título, uma injustiça.

Perdia a bola e o tempo da bola, ela rolava na perna dura e sem movimento, queria alcançar, a dor, não adianta, não tem como sair, o Procópio já tinha substituído os dois. Dor.

O Junior  (sempre ele) lançou uma bola para o Nunes na direita, eu vi de longe, tinha uma multidão de cabeças na frente, Adílio, Jorge Valença, Chicão…Nunes pegou mal na bola. Maravilha.

E o grito insistente de “bixado” no Maracanã, naquele velho Maracanã, o gigante, que punha o povo para nos olhar de frente na geral. Podia ouvir um, dois, três caras gritando: bixadooo! Marcação cerrada.

Nó na perna, ela puxava pra trás, pesava. Não tem palavra para descrever essas coisas. Só consigo pensar na bola andando de cá pra lá.

Palhinha tenta um drible, topa na marcação, a bola volta. Ele insiste. Toca para o Eder, alça na área forte como sempre, a bola desce, vi a sombra branca chegando, Marinho sobe, vacila…

…por um instante, rápido, aquilo congela, seria a hora?

…caiu no pé direito, doeu… pé direito…desceu lisa, toquei, vi que o Raul tava na bola, ele tocou nela, rolou pra dentro. O título era nosso (ainda não).

Era o segundo, o terceiro contando as duas partidas.

Fui correndo ali, no velho Maracanã, atrás do gol, fotógrafos, toda aquela imprensa, a torcida, os cariocas olhando para mim, todos eles silenciosos.  01 de Junho de 1980, naquele momento o título era nosso (por ora), pude gritar, gritar:

– Eu não tô bixado não, eu não to bixado, não – o braço esquerdo erguido,  a marca,  como os black panthers.

Faltava muito pouco…

reinaldo

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1 comentário
  1. Ricardo,
    REInaldo e Romário foram os geniais centroavantes, pequenos e cruéis com os zagueiros, em centímetros decidiam com gols belíssimos.

    Arnobio

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