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Arquivo mensal: novembro 2013

Não sei a data certa, e de verdade sei que era um tempo frio. Eu em cima do muro da casa da Vó, ficava ali horas olhando o Largo Santa Adelaide, não tinha muito movimento, raros os carros, os passantes das manhãs/tardes de vila pacata.

Longe, entre as brumas, apontava meu avô Pedro, bengala, sobretudo cinza, chapéu.

Bruma, uma palavra que por si representa o poético, tem aura própria, esvazia o evento, enaltece seus contornos. Eram brumas, sim, neblina, daquela Vila Euclides no começo da década de 70, 1970. 

Um avô da velha guarda, um avô bem avô, vinha lento em passos, chegava da conversa do boteco, nem beber bebia, mas o boteco era o forúm disponível. Imagino que falava da política local, e mais discretamente da ditadura e das coisas do Brasil.

Tudo é imaginação, não tem de fato quem me conte o que o meu avô conversava com seus amigos, o que tenho de lembrança era o Guaraná Caçulinha da garrafa de vidro, que ele trazia caprichosamente para mim. Os goles e a sensação de carinho.

Meu avô Pedro escrevia seu diário, alguns trechos, pedaços de cadernos ainda sobreviveram ao tempo, parte na casa da minha mãe, parte na casa da minha tia. São comentários da política, esparsos, das notícias de jornal e do rádio.

Congelou na minha cabeça aquela cena de filme: uma São Bernardo envolta em neblina, bruma, o vô Pedro saindo dela, sobretudo cinza, chapéu, elegante, baixinho, magro e austero. A frugalidade do Guaraná Caçulinha.

Um ano e meio depois meu avô faleceu, a casa dos avós, o portão, o largo Santa Adelaide ainda estão lá, quase todo o cenário esta em pé, faltam o avô, o Guaraná Caçulinha da garrafa de vidro e alguma inocência.

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Não há nada que substitua o caminhar nas ruas. Olhar a cidade, suas mudanças, seus desenhos velhos e novos, como protagonista, não como espectador. Andar no chão, ao lado das pessoas, lugar diferente das panorâmicas dos vidros dos carros, ver a vida mudar de perto.

As ruas mudam no meio dos milhares de passos, a cidade se conforma, improvisa seus arranjos, se transforma muito além das decisões oficiais e das imposições. Tortuosamente, os transeuntes decidem seus caminhos e fazem sua a cidade sobre a qual nem sempre têm direitos.

No meio dessa massa incógnita, temos os destaques: gente que compra, gente que vende, a cidade também organiza dentro de sua lógica difusa, seu comércio informal, seu instinto mercantil

Os vendedores mantidos, os sobreviventes, os obsoletos, os que se perdem no tempo, andam com seus produtos acabados, com seu serviço a prestar e sua conversa cavada no ir e vir.

Outro dia pensava em mapas, de como o mundo mudou e os mapas, claro, eram o concreto disso. E pensava que fazia muito tempo que nao via um vendedor de mapas nas ruas.

Saberia certamente onde encontrar mapas para comprar. Na boca, ali pelas bandas do Centro, dos Campos Elísios, conheço alguns lugares onde se vendem mapas, mas não era esse o caso.

O assunto me fugiu, como muita coisa que foge na volatilidade dos interesses, e guardei o tema “mapa e seus vendedores” em algum lugar menos nobre das prioridades.

Hoje, logo após o almoço, o assunto voltou e se materializou, vi um vendedor de mapas perambulando pelas ruas do Centro de São Bernardo do Campo, bem perto da minha casa.

O sorriso no rosto suado. Sorriso que parecia constante, a mão estendida, oferecendo o inusitado, um mapa, as pessoas negavam, desinteressadas, algo inusitado – para quê um mapa?

Fiquei ali hesitante: eu queria ou não queria um mapa?

O vendedor de mapas (até aquele momento, de fato, não sabia o seu nome), corria o seu trecho, oferecia, sem vacilar, o ganho da vida, um mapa na mão e vários num saquinho colado ao corpo.

Resolvi comprar e fui andando bem rápido atrás do vendedor de mapas, ele entrou primeiro no cartório, no restaurante, eu atrás sem conseguir chamá-lo, zigue zague, parecia procurar o caminho que me levasse ao mapa (com o perdão do clichê), finalmente o alcancei e falei:

– O sr. tem o Mapa Mundi? – uma pergunta quase tautológica.

Ele sorriu, tamborilou agilmente e sem virar o corpo, os mapas guardados no saquinho anexo, puxou um e disse:

– Mapa de 2013, do mundo todo, não é mapa velho, é novo, quer que eu abra? – respondi que não, que bastava.

Perguntei o preço, pensei em pechinchar:

– Vinte reais – a resposta e o sorriso do rosto suado. Sem pechincha.

Não vacilei, paguei e peguei meu mapa, já fui pensando em colocá-lo num quadro, feliz.

– Qual seu nome?

– Cícero – ainda com o sorriso no rosto suado.

– Há muito tempo não via mapeiros vendendo nas ruas, há quanto tempo o Senhor faz isso?

– Vendo mapas há quarenta anos, nas ruas de São Paulo, do ABC, moro no quilômetro doze da Anchieta, fico no meio de todas as cidades.

Pensei: nada mais lírico do que um vendedor de mapas que mora nas fronteiras, no limite das cidades, o quilômetro doze da Anchieta fica perto de várias cidades, São Paulo, São Bernardo, São Caetano, Santo André, várias confluências.

Tenho agora o mapa que pensava em comprar a muito tempo, o mundo todo para mim, vai virar quadro para olhar o mundo todo. Nunca tinha falado com um  vendedor de mapas, e agora eles todos têm nome, ao menos penso que tenham, e é Senhor Cícero, e o seu sorriso de rosto suado.

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No pleito presidencial de 2002, o PT resolveu adotar o caminho do pragmatismo, a decisão era ganhar o Governo Federal, e para tal seria preciso ampliar o leque de alianças e buscar recursos e financiamentos – duvido muito que tenha sido a primeira vez que o Partido tenha lançado mão de caixa dois para campanha – com a “Carta ao Povo Brasileiro”, esta inflexão ficou clara, muitos defendem que esse foi o fim do PT, outros que foi o começo de uma nova fase do Partido.

O PT ganhou a eleição, Lula foi empossado com grande apoio jpopular, os oito anos de FHC chegavam ao fim. As regras do governar por coalizão permaneceram intactas: a maioria no Congresso, a distribuição de Ministérios e cargos, a submissão do programa de governo à lógica fisiológica, a pmebedebidização da política, tudo isso permaneceu.

O PT e Lula entraram numa dança conhecida: governar com as amarras, sob silêncios e curtos espaços, não é questão de virtudes ou defeitos, mas sim o arranjo herdado pós Constituição 1988, Sarney, Collor e FHC. Uma colcha de retalhos presidencialista, a obrigação de maioria, a fragilidade partidária, as regras rígidas da desigualdade social e econômica batendo fundo no dia a dia da política.

Em 2005 estourou a conversa do Mensalão (termo cunhado pelo Presidente do PTB , Roberto Jefferson), José Dirceu, então Ministro da Casa Civil, José Genoino, Presidente do PT, Delúbio Soares, Tesoureiro da Campanha, envolvidos e processados. A acusação se baseava numa suposta mesada (dinheiro público) paga aos deputados da base do Governo.

Nunca ficou provado que houve uso de dinheiro público ou que o mensalão existiu. O que ficou evidente foi o uso de caixa dois, expediente criminoso usado por todos os partidos. O que tinha de inédito nessa historia?

O que precisava ser feito era colocar no PT a pecha de o “partido mais corrupto”. Evidente que houve uma mistura de arrogância, desleixo e falta de percepção de que a luta de classes é uma realidade, por parte do PT, o partido nunca foi e jamais será aceito como apto para estar no Governo ou exercer o poder, antes de tudo é uma questão ideológica, sem vitimismos.

Uma longa novela operada pela PGR e pelo STF, o enredo qualquer pode acompanhar e ratificar nos blogs, portais e livros publicados. Joaquim Barbosa, Ministro do STF como paladino da justiça, o judiciário mais uma vez auxiliou a direita brasileira, bancando e defendendo seus interesses e privilégios, não bastava manter lucros de bancos e demais interesses do capital intactos.

A chamada AP 470 (aka Mensalão) também serviu para mostrar a fragilidade e a desorganização dos partidos políticos – ironicamente, o atacado foi o partido mais organizado e com base social – forçou a intervenção da mídia e de parte do judiciário agindo como oposição.

Em 2010 a oposição mostrou outra fragilidade, a eleitora, logo após, uma atitude mais incisiva para o desfecho do mensalão foi prontamente pedida e atendida. O STF assumiu de vez o protagonismo político diante de um Congresso anêmico e amarrado aos arranjos que o fragilizam, a política subjulgada novamente.

Todas as irregularidades do processo, da aplicação das penas e dos demais rituais concernentes ao STF foram apontados por diversos blogs, articulistas e até por juristas historicamente avessos ao PT (Ives Gandra, por exemplo), no mínimo uma boa parcela das pessoas interessadas em olhar o caso para além dos maniqueísmos, atentou para o açodamento e as distorções do Presidente do STF e de parte do seu plenário.

O ódio e a pressa estavam visíveis no semblante de Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa na última semana do julgamento, os dois não se aguentavam em suas togas, um misto de ansiedade e desejo de cumprir um fardo que carregavam, o resto é espetáculo dos jornais e TVs marrons, que não se aguentam em detalhes sórdidos (o banheiro da cela é um buraco e água do chuveiro é fria) e na bílis de seus articulistas.

Nesse último dia 15 de novembro a pantomima teve seu momento crucial, as prisões de José Dirceu e José Genoino foram decretadas (assim como de outras nove pessoas envolvidas no chamado mensalão) e um dia depois ambos foram encaminhados para o Presídio da Papuda (segundo fontes de forma irregular, já que os dois nessa primeira fase devem cumprir prisão em regime semi aberto).

Não entendo de leis e não sou especialista em Constituição, quando muito opino e milito politicamente. E é da política que estou falando: foi clara a intenção política e as ações refletiram isso, prender os réus no dia da Proclamação da República foi um ato digno de um dramaturgo pastelão.

Não conheço pessoalmente o político, José Dirceu. Não foram poucas as vezes que discordei de suas teses e métodos. O mesmo serve para José Genoino. E quando falo de “teses e métodos” em nenhum momento estou me baseando em preceitos morais, antes de tudo é de política que estou falando, tampouco esvazio a política no âmbito da moral.

Ser do PT não é seguir cegamente o que esta ou aquela direção decide, mesmo dentro da tal disciplina partidária, nada me impede em ser solidário com alguém que está sendo vítima de arbitrariedades e ao mesmo tempo discordar dos seus pontos de vista. As contradições estão em toda parte, parece elementar.

Sem querer transformar esses fatos (julgamento e prisão) que deveriam ser solapados da história do país, em rinha de heróis e vilões, não me interessam heróis injustiçados, nem vilões inatingíveis, isso é bom pra Hollywood ou qualquer espaço de enredos moralistas.

José Genoíno e José Dirceu (assim como Delúbio Soares), foram julgados e condenados dentro de um moralismo seletivo, não são heróis, foram vítimas de um julgamento injusto, e isso é gravíssimo para o país. Um julgamento político que usa a política para desqualifica-la, um velho expediente. Quem ganha com isso?

O jogo da política é de cartas marcadas, e essa foi mais uma carta marcada, mas os movimentos foram excepcionais, sem precedentes, arbitrariedades aconteceram aos montes com base na tal moralidade seletiva em outros momentos históricos, porém, o cinismo, o requinte de legalismo e ritualística hipócrita usados nesse episódio foi surpreendente.

A ironia toda é que nada indica que ficou consolidado, tanto do ponto de vista político como jurídico, qualquer movimento em direção do controle da corrupção e da intervenção do poder econômico em eleições e nos demais fundamentos do mundo político. Não há reforma política, nem mudança de postura em relação aos crimes de colarinho branco, a jurisprudência mudou apenas para limitar direitos dos réus (específicos).

Na mídia os grandes esquemas de corrupção seguem sendo tratados como efeito colateral e com a conivência costumeira (dependendo do partido que está envolvido, é claro), matérias que omitem nomes e detalhes cruciais para que se chegue aos verdadeiros responsáveis. Exemplos concretos: mensalão mineiro (considerado o precursor), escândalo do Metrô e CPTM paulista, máfia dos fiscais da prefeitura paulista (estão dando um jeito de incriminar o PT).

“A história se repete em farsa” –  uma frase que pode ser vista como clichê, lugar comum, mas que cabe perfeitamente no contexto e no apelo dos acontecimentos. O velho arranjo permanece, incólume e funcionando, algumas prisões foi o custo.

A política desce vários degraus na história brasileira.

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É preciso explicitar em letras grandes: a mídia distorce, manipula, mente e não cumpre seu papel de informar. A atuação da Folha de São Paulo no episódio que envolve os ex-prefeitos José Serra, Gilberto Kassab e o Secretário de Finanças de ambos, Mauro Ricardo, no escândalo das liberações de imóveis, é risível e absurda.

Foram duas as táticas usadas até agora para desviar o foco principal: primeiro a superexposição da denuncia em cima dos peões: os fiscais. A segunda é clássica e contumaz nos últimos dez anos: envolver o PT , a bola da vez é o atual Prefeito, Fernando Haddad.

Um prefeito assume, quatro meses depois abre investigação sobre irregularidades das duas gestões anteriores e os veículos de comunicação não medem esforços para envolver esse prefeito na patranha? André Breton não faria melhor.

Não se trata de síndrome de perseguição ou melindre, tudo é feito sem sutileza, no que tange à Folha de São Paulo dizem ser coisa diretamente orquestrada pelo publisher, Otávio Frias Filho – que segue ritualísticamente o desejo e o legado do pai, o velho Frias, de proteger o eterno candidato, José Serra e, óbvio, defender os próprios interesses comerciais e políticos. É ideologia, é lucro.

Um jornal tem o direito de se posicionar politicamente e defender seu pacote de convicções – não acredito na neutralidade dos veículos de comunicação -, isso não quer dizer que para tal possa lançar mão de expedientes escusos, textos dúbios, distorção de dados, omissões, linchamentos etc.

Essa contenda transpassa os governos não aceitos pelo monólito midiático e quando não vira foco de debates distorcidos, se transforma no pacote ladainha: ortodoxia na econômia, moralidade seletiva na coisa pública e afirmações generalistas afins. Via de regra: interesses privados que se sobrepõem aos interesses públicos.

E não cabe falar em decadência de “velha mídia”, conversada baseada em entusiasmos exacerbados, a mídia tem sim muita força, pois defende interesses que vão muito além do seu papel tradicional, uma manchete dos chamados veículos tradicionais costuma causar enorme furor inclusive na autoentitulada “mídia alternativa”, síndrome de estocolmo ou não, é um dado real.

Observemos os próximos passos de duas contendas: o aumento do IPTU e o “escândalo dos fiscais”, será um bom termômetro  para medir o tamanho da disposição que um importante veículo reserva, no caso a Folha de São Paulo, para fazer oposição ao Governo Haddad e também, para medir a disposição do Prefeito em enfrentar essa situação.

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No final de 2012, Wilko Johnson foi diagnosticado com câncer no pâncreas. Wilko, guitarrista e fundador do Dr Feelgood, seminal banda inglesa, ponta de lança do pub rock, movimento que deu inspiração ao punk por conta do som cru, básico e urgente.

Quando eu soube da doença de Wilko Johnson pensei em escrever um post sobre a sua marcante decisão de abrir mão do tratamento (radio e quimioterapia) para sair em turnê nesse ano de 2014 e aproveitar o pouco tempo de vida para fazer o que mais gosta: subir num palco e tocar. Tocar para viver um ano de alegrias e abrir mão de um tempo maior de vida, mas também de ostracismo. Vacilei, não escrevi o texto à época.

No último dia 05, Kiko Nogueira do DCE (Diário do Centro do Mundo) escreveu sobre – http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ele-e-guitarrista-ele-esta-morrendo-de-cancer-e-ele-esta-em-turne-com-sua-banda/ – agiu mais rápido.

Dr Feelgood para quem conhece os desdobramentos do rock setentista não é uma banda tão obscura assim, eles eram idolatrados pela molecada que deu o ponta pé inicial no punk rock, pela simplicidade, pela performance – Wilko inspirado em Chuck Berry nos movimentos de palco e pelo guitarrista Mick Green (Johnny Kids and Pirates) na forma de tocar – os shows eram concorridos e intensos, repertório baseado no blues e rock and roll.

Wilko tocou com o Dr. Feelgood no período de 1971 (fundação da banda) até 1977 (sintomaticamente o ano de explosão do punk rock), logo depois saiu em carreira solo.

Os outros integrantes da banda eram o cantor Lee Brilleaux (que morreu também de câncer em 1994), o baixista John Sparks e o baterista John Martin, todos eles do delta do Tâmisa em Canvey Island, Essex.

Wilko Johnson é um cara bem humorado, com os olhos estalados, agitado e falante, um desses jukebox man, que andam com um repertório de r&b, rock, blues embutido no corpo.

Em entrevista ao The Guardian, ele afirmou que ao saber da doença terminal  teve uma sensação de euforia e libertação (ele é um depressivo diagnosticado), e pensou que na sequência viria uma tristeza profunda , felizmente ela não veio e foi então que decidiu trocar o tratamento pela turnê.

Wilko está vivo, com 66 anos, toca a sua guitarra, participa de programas de TV e vai a pubs como um inglês de verdade. Uma longa e luminosa história no rock and roll, e na despedida não abre mão dos staccatos e das frases secas tocadas sem palheta de sua guitarra.

Long Live to Wilko Johnson. Aqui um vídeo gravado por um fã em Glasgow, 2013:

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