“Um problema de Zé”


No pleito presidencial de 2002, o PT resolveu adotar o caminho do pragmatismo, a decisão era ganhar o Governo Federal, e para tal seria preciso ampliar o leque de alianças e buscar recursos e financiamentos – duvido muito que tenha sido a primeira vez que o Partido tenha lançado mão de caixa dois para campanha – com a “Carta ao Povo Brasileiro”, esta inflexão ficou clara, muitos defendem que esse foi o fim do PT, outros que foi o começo de uma nova fase do Partido.

O PT ganhou a eleição, Lula foi empossado com grande apoio jpopular, os oito anos de FHC chegavam ao fim. As regras do governar por coalizão permaneceram intactas: a maioria no Congresso, a distribuição de Ministérios e cargos, a submissão do programa de governo à lógica fisiológica, a pmebedebidização da política, tudo isso permaneceu.

O PT e Lula entraram numa dança conhecida: governar com as amarras, sob silêncios e curtos espaços, não é questão de virtudes ou defeitos, mas sim o arranjo herdado pós Constituição 1988, Sarney, Collor e FHC. Uma colcha de retalhos presidencialista, a obrigação de maioria, a fragilidade partidária, as regras rígidas da desigualdade social e econômica batendo fundo no dia a dia da política.

Em 2005 estourou a conversa do Mensalão (termo cunhado pelo Presidente do PTB , Roberto Jefferson), José Dirceu, então Ministro da Casa Civil, José Genoino, Presidente do PT, Delúbio Soares, Tesoureiro da Campanha, envolvidos e processados. A acusação se baseava numa suposta mesada (dinheiro público) paga aos deputados da base do Governo.

Nunca ficou provado que houve uso de dinheiro público ou que o mensalão existiu. O que ficou evidente foi o uso de caixa dois, expediente criminoso usado por todos os partidos. O que tinha de inédito nessa historia?

O que precisava ser feito era colocar no PT a pecha de o “partido mais corrupto”. Evidente que houve uma mistura de arrogância, desleixo e falta de percepção de que a luta de classes é uma realidade, por parte do PT, o partido nunca foi e jamais será aceito como apto para estar no Governo ou exercer o poder, antes de tudo é uma questão ideológica, sem vitimismos.

Uma longa novela operada pela PGR e pelo STF, o enredo qualquer pode acompanhar e ratificar nos blogs, portais e livros publicados. Joaquim Barbosa, Ministro do STF como paladino da justiça, o judiciário mais uma vez auxiliou a direita brasileira, bancando e defendendo seus interesses e privilégios, não bastava manter lucros de bancos e demais interesses do capital intactos.

A chamada AP 470 (aka Mensalão) também serviu para mostrar a fragilidade e a desorganização dos partidos políticos – ironicamente, o atacado foi o partido mais organizado e com base social – forçou a intervenção da mídia e de parte do judiciário agindo como oposição.

Em 2010 a oposição mostrou outra fragilidade, a eleitora, logo após, uma atitude mais incisiva para o desfecho do mensalão foi prontamente pedida e atendida. O STF assumiu de vez o protagonismo político diante de um Congresso anêmico e amarrado aos arranjos que o fragilizam, a política subjulgada novamente.

Todas as irregularidades do processo, da aplicação das penas e dos demais rituais concernentes ao STF foram apontados por diversos blogs, articulistas e até por juristas historicamente avessos ao PT (Ives Gandra, por exemplo), no mínimo uma boa parcela das pessoas interessadas em olhar o caso para além dos maniqueísmos, atentou para o açodamento e as distorções do Presidente do STF e de parte do seu plenário.

O ódio e a pressa estavam visíveis no semblante de Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa na última semana do julgamento, os dois não se aguentavam em suas togas, um misto de ansiedade e desejo de cumprir um fardo que carregavam, o resto é espetáculo dos jornais e TVs marrons, que não se aguentam em detalhes sórdidos (o banheiro da cela é um buraco e água do chuveiro é fria) e na bílis de seus articulistas.

Nesse último dia 15 de novembro a pantomima teve seu momento crucial, as prisões de José Dirceu e José Genoino foram decretadas (assim como de outras nove pessoas envolvidas no chamado mensalão) e um dia depois ambos foram encaminhados para o Presídio da Papuda (segundo fontes de forma irregular, já que os dois nessa primeira fase devem cumprir prisão em regime semi aberto).

Não entendo de leis e não sou especialista em Constituição, quando muito opino e milito politicamente. E é da política que estou falando: foi clara a intenção política e as ações refletiram isso, prender os réus no dia da Proclamação da República foi um ato digno de um dramaturgo pastelão.

Não conheço pessoalmente o político, José Dirceu. Não foram poucas as vezes que discordei de suas teses e métodos. O mesmo serve para José Genoino. E quando falo de “teses e métodos” em nenhum momento estou me baseando em preceitos morais, antes de tudo é de política que estou falando, tampouco esvazio a política no âmbito da moral.

Ser do PT não é seguir cegamente o que esta ou aquela direção decide, mesmo dentro da tal disciplina partidária, nada me impede em ser solidário com alguém que está sendo vítima de arbitrariedades e ao mesmo tempo discordar dos seus pontos de vista. As contradições estão em toda parte, parece elementar.

Sem querer transformar esses fatos (julgamento e prisão) que deveriam ser solapados da história do país, em rinha de heróis e vilões, não me interessam heróis injustiçados, nem vilões inatingíveis, isso é bom pra Hollywood ou qualquer espaço de enredos moralistas.

José Genoíno e José Dirceu (assim como Delúbio Soares), foram julgados e condenados dentro de um moralismo seletivo, não são heróis, foram vítimas de um julgamento injusto, e isso é gravíssimo para o país. Um julgamento político que usa a política para desqualifica-la, um velho expediente. Quem ganha com isso?

O jogo da política é de cartas marcadas, e essa foi mais uma carta marcada, mas os movimentos foram excepcionais, sem precedentes, arbitrariedades aconteceram aos montes com base na tal moralidade seletiva em outros momentos históricos, porém, o cinismo, o requinte de legalismo e ritualística hipócrita usados nesse episódio foi surpreendente.

A ironia toda é que nada indica que ficou consolidado, tanto do ponto de vista político como jurídico, qualquer movimento em direção do controle da corrupção e da intervenção do poder econômico em eleições e nos demais fundamentos do mundo político. Não há reforma política, nem mudança de postura em relação aos crimes de colarinho branco, a jurisprudência mudou apenas para limitar direitos dos réus (específicos).

Na mídia os grandes esquemas de corrupção seguem sendo tratados como efeito colateral e com a conivência costumeira (dependendo do partido que está envolvido, é claro), matérias que omitem nomes e detalhes cruciais para que se chegue aos verdadeiros responsáveis. Exemplos concretos: mensalão mineiro (considerado o precursor), escândalo do Metrô e CPTM paulista, máfia dos fiscais da prefeitura paulista (estão dando um jeito de incriminar o PT).

“A história se repete em farsa” –  uma frase que pode ser vista como clichê, lugar comum, mas que cabe perfeitamente no contexto e no apelo dos acontecimentos. O velho arranjo permanece, incólume e funcionando, algumas prisões foi o custo.

A política desce vários degraus na história brasileira.

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1 comentário
  1. marcia melo disse:

    perfeito.

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