“O vendedor de mapas”


Não há nada que substitua o caminhar nas ruas. Olhar a cidade, suas mudanças, seus desenhos velhos e novos, como protagonista, não como espectador. Andar no chão, ao lado das pessoas, lugar diferente das panorâmicas dos vidros dos carros, ver a vida mudar de perto.

As ruas mudam no meio dos milhares de passos, a cidade se conforma, improvisa seus arranjos, se transforma muito além das decisões oficiais e das imposições. Tortuosamente, os transeuntes decidem seus caminhos e fazem sua a cidade sobre a qual nem sempre têm direitos.

No meio dessa massa incógnita, temos os destaques: gente que compra, gente que vende, a cidade também organiza dentro de sua lógica difusa, seu comércio informal, seu instinto mercantil

Os vendedores mantidos, os sobreviventes, os obsoletos, os que se perdem no tempo, andam com seus produtos acabados, com seu serviço a prestar e sua conversa cavada no ir e vir.

Outro dia pensava em mapas, de como o mundo mudou e os mapas, claro, eram o concreto disso. E pensava que fazia muito tempo que nao via um vendedor de mapas nas ruas.

Saberia certamente onde encontrar mapas para comprar. Na boca, ali pelas bandas do Centro, dos Campos Elísios, conheço alguns lugares onde se vendem mapas, mas não era esse o caso.

O assunto me fugiu, como muita coisa que foge na volatilidade dos interesses, e guardei o tema “mapa e seus vendedores” em algum lugar menos nobre das prioridades.

Hoje, logo após o almoço, o assunto voltou e se materializou, vi um vendedor de mapas perambulando pelas ruas do Centro de São Bernardo do Campo, bem perto da minha casa.

O sorriso no rosto suado. Sorriso que parecia constante, a mão estendida, oferecendo o inusitado, um mapa, as pessoas negavam, desinteressadas, algo inusitado – para quê um mapa?

Fiquei ali hesitante: eu queria ou não queria um mapa?

O vendedor de mapas (até aquele momento, de fato, não sabia o seu nome), corria o seu trecho, oferecia, sem vacilar, o ganho da vida, um mapa na mão e vários num saquinho colado ao corpo.

Resolvi comprar e fui andando bem rápido atrás do vendedor de mapas, ele entrou primeiro no cartório, no restaurante, eu atrás sem conseguir chamá-lo, zigue zague, parecia procurar o caminho que me levasse ao mapa (com o perdão do clichê), finalmente o alcancei e falei:

– O sr. tem o Mapa Mundi? – uma pergunta quase tautológica.

Ele sorriu, tamborilou agilmente e sem virar o corpo, os mapas guardados no saquinho anexo, puxou um e disse:

– Mapa de 2013, do mundo todo, não é mapa velho, é novo, quer que eu abra? – respondi que não, que bastava.

Perguntei o preço, pensei em pechinchar:

– Vinte reais – a resposta e o sorriso do rosto suado. Sem pechincha.

Não vacilei, paguei e peguei meu mapa, já fui pensando em colocá-lo num quadro, feliz.

– Qual seu nome?

– Cícero – ainda com o sorriso no rosto suado.

– Há muito tempo não via mapeiros vendendo nas ruas, há quanto tempo o Senhor faz isso?

– Vendo mapas há quarenta anos, nas ruas de São Paulo, do ABC, moro no quilômetro doze da Anchieta, fico no meio de todas as cidades.

Pensei: nada mais lírico do que um vendedor de mapas que mora nas fronteiras, no limite das cidades, o quilômetro doze da Anchieta fica perto de várias cidades, São Paulo, São Bernardo, São Caetano, Santo André, várias confluências.

Tenho agora o mapa que pensava em comprar a muito tempo, o mundo todo para mim, vai virar quadro para olhar o mundo todo. Nunca tinha falado com um  vendedor de mapas, e agora eles todos têm nome, ao menos penso que tenham, e é Senhor Cícero, e o seu sorriso de rosto suado.

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1 comentário
  1. arnobiorocha disse:

    Ricardo,

    Procurando um mapa para saber onde estamos, é uma baita história, ainda hoje vender mapas.

    Arnobio

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