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Arquivo mensal: janeiro 2014

Às vezes meu amor fico pensando
Se a vida não tivesse 
Me dado esse jogo

trecho de “Um certo dia para 21” (Paulinho da Viola)

Cabreiro, desconfiado, ele levou três ou quatro dias para engolir aquela versão desajeitada. Filho mente, sempre mente. Seu pai ensinou isso a ele, e ele pode comprovar com as suas próprias histórias. Não tem jeito, é mentira. 

Fabrício era o terceiro filho que veio no segundo casamento. Conturbado, o nascimento, o caminho. Mas era o filho mais querido e já entendeu isso desde a tenra idade do garoto.

Com três anos –  pode ter sido antes – ele jogou uma bola no quintal, o menino correu atrás e chutou de biquinho com a esquerda, canhoto já era presente demais, quase chorou.

Tratava diferente, levava junto, comia junto com ele na mesa. Era o seu par, com ele era mais pai do que de costume e mais presente dentro de sua grande ausência.

Os trejeitos todos o menino copiou dele, com seis anos na escola pré virava o serelepe aprontando bagunça, o pai tolerante, pra surpresa de todos, baixou no corpo e aceitava sempre as desculpas do menino.

Aceitava porque identificava e via o futuro, caprichos da cria. A ausência existia, mas do seu jeito sempre checava o caminho do menino. O menino se formou com notas boas, nunca repetiu de ano, nunca levou treta brava pra casa, mas tinha suas tretas.

E os trejeitos herdados começaram a virar histórias. Futebol, brigas, mulheres, noites, 16, 17, 18, 20 anos.

O tempo deu tinta às suas intuições, desconfianças, e às falas do seu velho pai, avô do Fabrício. Filho mente.

– Não engulo mais suas presepadas – o pai mescla a fala, enérgico e cansado.

– Mas eu não tava sozinho e teve uma grande confusão, daí… – Fabrício argumentava no vacilo.

– Daí porra nenhuma, daí que você não se fudeu por sorte…

Não era normal essa conversa com palavrões e tom áspero, mas os motivos eram reais.

O bate boca continua:

– Marcando bobeira de madrugada em lugar de puta e movimento. Ta pedindo pra se lascar…

– Não tem essa de marcar bobeira… – Fabrício  não segura a fala.

– Acabou o papo, chega, não adianta ficar fuçando em merda, fede, fede… vai pra casa da sua mãe e se guarda lá uns dias.

Tava torto já, o pai sabia. Ele permitiu e ia tentar uma última vez mudar o rumo das coisas.

Decidiu conferir na pinta, de perto.

Tinha que voltar no tipo de lugar que não pisava há anos, mas aonde já foi rei, não esqueceu o rito, o respeito. Chegou, pediu cerveja e foi no canto olhar a viração do lugar.

Tomou uma, duas e a língua estalou uma vontade de maria mole, um gole, dois goles, desceu. Desinibido, puxou papo com o dono do bar, apresentou credenciais (de fala e conhecimento), com respeito foi sacando o que era e o que não era.

Fez o resumo mais rápido que pensava, resolveu sair rapidinho, não tinha mais pegada, nem saco para aqueles lugares, o tempo passou de verdade.

Fabrício mentiu grandão para ele, tava provado, ele estava iniciado nos negócios, aprontara um monte e só não caiu por conta dos anjos (pagos) que sempre acabam ganhando nessas contendas.

O filho cresceu e dentro da máxima: filho grande mente mais.

Ainda zonzo (estava velho e deitou mais duas marias mole), voltou a pé pra casa, nem ônibus quis pegar, o caminho parecia longo, e passava um monte de coisa na cabeça, feito filme, o filho, Fabrício estrelava.

As longas ausências, Fabrício, o mais amado que acompanhou de longe, e longe ficaram as coisas, as várias noites que ignorou suas próprias desconfianças, tinha orgulho naquela rebeldia que ficava sugerida no filho e agora era medo, medo de ter desandado de vez.

Pai vida lôca, filho vida lôca? Não pode ser assim, não é assim. Nunca levou suas tretas pra casa ou deixou coisa pela metade, resolvia fora, sempre. O filho só sabia de coisas por ouvir falar. Não deu mau exemplo, mas que exemplo?

Então…

Atravessou o sábado quieto mexendo nas ferragens no quartinho dos fundos, passava horas por ali, consertando coisas que nem precisavam de conserto, era um jeito de olhar a vida, o presente, o passado.

Domingo de manhã, sol bonito. Fabrício ia sempre pra várzea, jogava bem, era classudo, diferente do pai que tinha sido um zagueiro valente e que se situava bem no campo apenas. E o garoto era canhoto, diferente.

O pai sempre que podia ia olhar e agora, mais do que nunca, era hora de olhar.

Seu olhar turvava no sol do domingo e Fabrício corria solto no meio de campo, se virava, recebia bola, devolvia, aparecia muito no jogo, bom de bola o menino, os olhos turvos eram pura intuição, emoção, expectativa, orgulho.

Domingo, várzea, amigos na beira do campo. Nem todos amigos, alguns tinham um jeito estranho pior do que os zagueiros carrancudos.

Na beira do campo nem todos gostam dos canhotos, dos habilidosos, de quem se safa de todas. Alguns rostos eram mais do que estranhos.

No campo Fabrício preparava as jogadas, canhoto, ligeiro, olhava para o pai e sorria, ali não mentia se apresentava. Uma hora o jogo termina e volta o dia a dia. Tem prazo, tem conta pra acertar, não importa quantos gols se faz.

E as palavras do pai do pai se repetiam:

– Filho mente!

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A primeira coisa que brota na cabeça das pessoas quando se fala em rolezinho é “que direito esses moleques têm de avacalhar um shopping”. O contra argumento mais óbvio é “eles não têm é opção para onde ir”.

Os dois caminhos costumam empobrecer o debate. Rolezinho é fenômeno de consumo + problema social, óbvio que o consumo é, antes de tudo, uma questão social. Parece que as pessoas ficam espantadas com esse dado.

Senão vejamos. O consumo compele todo o indivíduo a se mover diariamente para trabalhar, estudar, se relacionar socialmente, fazer negócios, mexer o corpo, a ideologia do consumo está subjacente à vida de todas as pessoas, assumir isso é assumir o óbvio, vivemos de fato numa sociedade norteada pelo consumo.

O que move cinco mil garotos e garotas da periferia para um shopping é o desejo de zoar (como disse um dos próprios participantes), isso explicita uma forma enviesada de consumo. É aqui que entra o problema social e suas implicações.

Algumas (muitas) pessoas não estão aptas e nem municiadas para o consumo, e eu não vou entrar no mérito da forma ou quantidade e mesmo na legitimidade do tipo de consumo. Uma vez que esse consumo está diluído e impregnado em nossa vida cotidiana, como julgar quando ele é legítimo ou não? Quais os critérios e vetores?

O garoto ou garota quer circular onde a coisa está “acontecendo” e onde mais acontecem as coisas nessa sociedade fora dos templos do consumo? A forma que eles usam para fazê-lo pode ser discutida, nunca sem deixar de levar em conta o que os leva a agir dessa forma, sem mistificações.

Parece prosaico, mas o exercício de refletir sobre algo, é pouco praticado na sociedade da opinião fast food (olha o consumo de novo).

Voltando ao início do texto: quem argumenta que eles não têm o direito de ir em bando “zoar” o shopping tem uma dose de razão e quem diz que eles não têm outro lugar pra ir, também, o grande problema é a discussão se encerrar nessa dicotomia.

Uma análise sobre a ideologia do consumo não pode se restringir a aferir quem pode ou tem capacidade de consumir. O rolezinho é uma “porta maldita” de entrada para o mundo do consumo e o horror que causou é a resposta que o senso comum deixa preparada para qualquer fenômeno que foge do binômio apto ou inapto: a repressão.

Uma pergunta que deixo é: qual o lugar, diferente do shopping, onde faria sentido se fazer um rolezinho na sociedade de consumo? Por enquanto alguns participantes foram parar na delegacia…

Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvir
Apenas quem já dizia,
Eu não tenho nada…

Novos Baianos

Dar um rolê é um termo antigo, uma gíria que indica um momento tranquilo, relax, para desanuviar. “Dar um rolê” atravessou gerações de forma despreocupada e nunca esteve relacionado com situações pesadas. Mas a era da bazófia entre o público e o privado não pretende deixar nada em pé, para ter a “paz” você  tem que pagar ou tomar um pau.

Para estar dentro de um espaço minimamente organizado, arejado, limpo e “seguro” a pessoa tem que pagar e não só, ela tem que aparentar que pode pagar por isso. Os espaços de compartilhamento estão cada vez mais limitados, entra quem se adequa a certos códigos.

Em meados da década de 90 do século passado começou a proliferação de shopping centers no Brasil, a década da privatização da vida apresentou como um dos seus tentáculos o espaço insípido, inodoro do comércio organizado. Dentro deles vicejam, claro, as lojas, o lazer plastificado e pouco interativo dos cinemas de pacotão de pipoca e litrão de coca e as fétidas praças de alimentação.

Voltemos ao “rolê” ou dar uma banda, sair pra ver a vida, aquele momento em que você sai pra ver gente, e onde tem gente reunida, com  quem você pode interagir. Restou o shopping como lugar de encontro, mas como interagir num local onde a interação é quase um sacrilégio? Na era da interação eletronica e virtual , o shopping center é o espaço “real” pronto e acabado onde os papeis estão pré estipulados: se vista assim, compre isso, beba aquilo…e vá embora. A antítese do “rolê” interativo.

A alternativa seria o espaço público. Seria? Qual? São cada vez mais limitados os espaços onde prevalecem o direito constitucional do ir e vir , e muita gente entende isso como um processo natural.

O que segue é a ladainha de vários lados, é certo que no sentido contrário da valorização e da prevalência dos espaços privados, os espaços públicos definharam. Museus, bibliotecas, centros culturais, praças públicas? Alguns existem no papel, os que “funcionam” ou recebem minorias privilegiadas para convescotes limitados ou estão cumprindo setença de morte na terra, com os dias contados, agonizam.

E então, chegamos no quesito políticas públicas, participação, interação, a antítese da privatização da vida. O rolezinho, de fato, não cabe no shopping center, dar um rolê em cinco ou em mil, de maneira combinada ou espontânea, não cabe nos limites da excludência. Mas onde é que a engenharia social de nossas cidades reserva espaço para essa rapaziada?

A contraposição espaço público x espaço privado que usa a contenda centro cultural x shopping como referência é a prova cabal da associação reducionista de cultura com consumo . Cultura é direito, consumo é opção, pode até parecer a mesma coisa, mas não é.

Vamos mudar isso ou vamos continuar colocando o cassetete na cabeça de quem quer dar um rolêzinho usando o mesmo raciocínio da guerra preventiva do Pentágono: eliminar antes que causem algum problema?

 

“Somos inacabados e a leitura ameniza e intensifica isso” – inicío com as palavras do professor e velho amigo de batalhas, Oswaldo Almeida Junior, e adianto: não tenho uma nova fórmula para solucionar as deficiências da área de leitura, da formação de leitores no Brasil, o que trago aqui são ponderações muito específicas, com todos os limites que elas carregam.

Começo com os reflexos das palavras iniciais: amenizar e intensificar. Elas não são apenas a representação do ato solitário de ler, elas pode ser utilizadas sem vaticínios na dimensão pública do universo da leitura, daí passam a abarcar o coletivo e vai além do ato exclusivo e isolado do leitor.

E quando nos referimos à leitura, a história nos fornece registros desse ir e vir entre o individual e o coletivo, as histórias compartilhadas em registros diversos, de início na memória, no boca a boca, para logo após se massificar e ironicamente passar a ser ato isolado por conta das novas técnicas.
Desloco rápido, o pensamento para o ano de 2003, Brasil quando foi implantada a “Lei do Livro”, resumindo suas intenções e implicações, em tese ela incide diretamente na desoneração e no consequente barateamento do objeto livro, contiguo a isso foi instituído um Fundo suprido por 1% das vendas de livros no país que seria depositado pelo mercado editorial e utilizado nas políticas públicas de fomento à leitura.

Pincei um exemplo e deixo um hiato para que pensemos…
Dez anos e alguns meses depois e o preço médio de capa do livro não sofreu os efeitos dessa desoneração, continua caro e elitizado, e o referido fundo segue tímido atolado no descumprimento da lei e nesse sentimento naturalizado de que ignorar regras é um comportamento aceitável.

Por que o mercado editorial e a cadeia do livro ignorou a referida Lei 11.030, ela tem falhas, ela substimou as regras do mercado, ela não foi pactuada a contexto Ela não serve para a conjuntura Reconhecer uma contradição e dissecá-la é o primeiro passo para intervir e modificar uma realidade, mas há real interesse  A ver.

O livro é um objeto unânime, tirante as patologias históricas que mais pelo seus conteúdos, subjetividade e eventual transgressão do que pela forma, o demoniza e o destrói em certas conjunturas, ele é visto de forma positiva pela sociedade. Ler é “virtude” não assumida, é bom sempre para o “outro”, podemos dizer que existe um certo cinismo nos discursos de apologia aos benefícios da leitura.

O ato da leitura não implica necessariamente nesse prazer desprendido e cheio de leveza, leitura é hábito, e antes de tudo, é hábito que se adquire arduamente, depende de trabalho, depende de esforço e dedicação. E é nesse aspecto que a apologia fácil se torna falsa, quem a profere, quem a repete assume que a leitura depende desse dispêndio de energia, de disciplina ou apenas joga palavras ao vento para reforçar um falso consenso?

O fato é que essa retórica, essa ladainha incide diretamente nas políticas públicas e nos marcos legais do livro e da leitura, a roupagem do lúdico, do prazeiroso, do frugal encobre a dura realidade do universo leitor, palavras lindas e leves não resolvem as questões da democratização, acesso e circulação, e acaba acomodando tudo na seara das boas intenções e se adia reiteradamente para um constante amanhã.
Outro fator inexorável: a leitura tem um custo material, e o custo nela embutido está implicado diretamente no preço de capa do livro e no custeio do universo do livro e leitura (industria, profissionais, maquina pública etc), nesse baile circula o público e o privado – muitas vezes com seus papéis distorcidos e misturados, como é de costume nessa realidade de ideologias difusas – no topo dessa torre de babel é decidido o rumo dos recursos públicos aplicados.

Volto então aos verbos do Oswaldo (desculpem a banalização das palavras do amigo), amenizar, sim, amenizar com leis e ações práticas, mas nunca esquecer que a intensificação das cobranças, dos resultados e das consequencias nos mostram um quadro praticamente inalterado na democratização da leitura. As leis, os divisores de água, os marcos legais fazem aniversário como tudo, e nesse caso, o que nos cabe é comemorar com cobrança e novas ideias.

E quem convocar para fazer a devida cobrança das leis não cumpridas? Quem encabeça a lista: bibliotecários, professores, escritores (principalmente os “não contemplados”), leitores, como juntar pessoas e mesmo grupos que agem isolados?

O ano de 2014 é ano de eleição no nível federal e estadual, ano de rediscutir as políticas públicas e as prioridades em todas as áreas, uma boa oportunidade para avaliar o que é real, o que é promessa, o que é de fato, o que é discurso, o que é leve, o que é pesado. Como disse acima, leitura dá trabalho e exige dedicação e empenho, momento de unir o ameno ao intenso e dar rumo a essa prosa solta.

Books float on the street after a library on Rue Jacob, Paris is flooded during the Great 1910 Parisian Flood

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