“Dê um rolê”


Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvir
Apenas quem já dizia,
Eu não tenho nada…

Novos Baianos

Dar um rolê é um termo antigo, uma gíria que indica um momento tranquilo, relax, para desanuviar. “Dar um rolê” atravessou gerações de forma despreocupada e nunca esteve relacionado com situações pesadas. Mas a era da bazófia entre o público e o privado não pretende deixar nada em pé, para ter a “paz” você  tem que pagar ou tomar um pau.

Para estar dentro de um espaço minimamente organizado, arejado, limpo e “seguro” a pessoa tem que pagar e não só, ela tem que aparentar que pode pagar por isso. Os espaços de compartilhamento estão cada vez mais limitados, entra quem se adequa a certos códigos.

Em meados da década de 90 do século passado começou a proliferação de shopping centers no Brasil, a década da privatização da vida apresentou como um dos seus tentáculos o espaço insípido, inodoro do comércio organizado. Dentro deles vicejam, claro, as lojas, o lazer plastificado e pouco interativo dos cinemas de pacotão de pipoca e litrão de coca e as fétidas praças de alimentação.

Voltemos ao “rolê” ou dar uma banda, sair pra ver a vida, aquele momento em que você sai pra ver gente, e onde tem gente reunida, com  quem você pode interagir. Restou o shopping como lugar de encontro, mas como interagir num local onde a interação é quase um sacrilégio? Na era da interação eletronica e virtual , o shopping center é o espaço “real” pronto e acabado onde os papeis estão pré estipulados: se vista assim, compre isso, beba aquilo…e vá embora. A antítese do “rolê” interativo.

A alternativa seria o espaço público. Seria? Qual? São cada vez mais limitados os espaços onde prevalecem o direito constitucional do ir e vir , e muita gente entende isso como um processo natural.

O que segue é a ladainha de vários lados, é certo que no sentido contrário da valorização e da prevalência dos espaços privados, os espaços públicos definharam. Museus, bibliotecas, centros culturais, praças públicas? Alguns existem no papel, os que “funcionam” ou recebem minorias privilegiadas para convescotes limitados ou estão cumprindo setença de morte na terra, com os dias contados, agonizam.

E então, chegamos no quesito políticas públicas, participação, interação, a antítese da privatização da vida. O rolezinho, de fato, não cabe no shopping center, dar um rolê em cinco ou em mil, de maneira combinada ou espontânea, não cabe nos limites da excludência. Mas onde é que a engenharia social de nossas cidades reserva espaço para essa rapaziada?

A contraposição espaço público x espaço privado que usa a contenda centro cultural x shopping como referência é a prova cabal da associação reducionista de cultura com consumo . Cultura é direito, consumo é opção, pode até parecer a mesma coisa, mas não é.

Vamos mudar isso ou vamos continuar colocando o cassetete na cabeça de quem quer dar um rolêzinho usando o mesmo raciocínio da guerra preventiva do Pentágono: eliminar antes que causem algum problema?

 

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