“Mais rolê”


A primeira coisa que brota na cabeça das pessoas quando se fala em rolezinho é “que direito esses moleques têm de avacalhar um shopping”. O contra argumento mais óbvio é “eles não têm é opção para onde ir”.

Os dois caminhos costumam empobrecer o debate. Rolezinho é fenômeno de consumo + problema social, óbvio que o consumo é, antes de tudo, uma questão social. Parece que as pessoas ficam espantadas com esse dado.

Senão vejamos. O consumo compele todo o indivíduo a se mover diariamente para trabalhar, estudar, se relacionar socialmente, fazer negócios, mexer o corpo, a ideologia do consumo está subjacente à vida de todas as pessoas, assumir isso é assumir o óbvio, vivemos de fato numa sociedade norteada pelo consumo.

O que move cinco mil garotos e garotas da periferia para um shopping é o desejo de zoar (como disse um dos próprios participantes), isso explicita uma forma enviesada de consumo. É aqui que entra o problema social e suas implicações.

Algumas (muitas) pessoas não estão aptas e nem municiadas para o consumo, e eu não vou entrar no mérito da forma ou quantidade e mesmo na legitimidade do tipo de consumo. Uma vez que esse consumo está diluído e impregnado em nossa vida cotidiana, como julgar quando ele é legítimo ou não? Quais os critérios e vetores?

O garoto ou garota quer circular onde a coisa está “acontecendo” e onde mais acontecem as coisas nessa sociedade fora dos templos do consumo? A forma que eles usam para fazê-lo pode ser discutida, nunca sem deixar de levar em conta o que os leva a agir dessa forma, sem mistificações.

Parece prosaico, mas o exercício de refletir sobre algo, é pouco praticado na sociedade da opinião fast food (olha o consumo de novo).

Voltando ao início do texto: quem argumenta que eles não têm o direito de ir em bando “zoar” o shopping tem uma dose de razão e quem diz que eles não têm outro lugar pra ir, também, o grande problema é a discussão se encerrar nessa dicotomia.

Uma análise sobre a ideologia do consumo não pode se restringir a aferir quem pode ou tem capacidade de consumir. O rolezinho é uma “porta maldita” de entrada para o mundo do consumo e o horror que causou é a resposta que o senso comum deixa preparada para qualquer fenômeno que foge do binômio apto ou inapto: a repressão.

Uma pergunta que deixo é: qual o lugar, diferente do shopping, onde faria sentido se fazer um rolezinho na sociedade de consumo? Por enquanto alguns participantes foram parar na delegacia…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: