“Filho mente”


Às vezes meu amor fico pensando
Se a vida não tivesse 
Me dado esse jogo

trecho de “Um certo dia para 21” (Paulinho da Viola)

Cabreiro, desconfiado, ele levou três ou quatro dias para engolir aquela versão desajeitada. Filho mente, sempre mente. Seu pai ensinou isso a ele, e ele pode comprovar com as suas próprias histórias. Não tem jeito, é mentira. 

Fabrício era o terceiro filho que veio no segundo casamento. Conturbado, o nascimento, o caminho. Mas era o filho mais querido e já entendeu isso desde a tenra idade do garoto.

Com três anos –  pode ter sido antes – ele jogou uma bola no quintal, o menino correu atrás e chutou de biquinho com a esquerda, canhoto já era presente demais, quase chorou.

Tratava diferente, levava junto, comia junto com ele na mesa. Era o seu par, com ele era mais pai do que de costume e mais presente dentro de sua grande ausência.

Os trejeitos todos o menino copiou dele, com seis anos na escola pré virava o serelepe aprontando bagunça, o pai tolerante, pra surpresa de todos, baixou no corpo e aceitava sempre as desculpas do menino.

Aceitava porque identificava e via o futuro, caprichos da cria. A ausência existia, mas do seu jeito sempre checava o caminho do menino. O menino se formou com notas boas, nunca repetiu de ano, nunca levou treta brava pra casa, mas tinha suas tretas.

E os trejeitos herdados começaram a virar histórias. Futebol, brigas, mulheres, noites, 16, 17, 18, 20 anos.

O tempo deu tinta às suas intuições, desconfianças, e às falas do seu velho pai, avô do Fabrício. Filho mente.

– Não engulo mais suas presepadas – o pai mescla a fala, enérgico e cansado.

– Mas eu não tava sozinho e teve uma grande confusão, daí… – Fabrício argumentava no vacilo.

– Daí porra nenhuma, daí que você não se fudeu por sorte…

Não era normal essa conversa com palavrões e tom áspero, mas os motivos eram reais.

O bate boca continua:

– Marcando bobeira de madrugada em lugar de puta e movimento. Ta pedindo pra se lascar…

– Não tem essa de marcar bobeira… – Fabrício  não segura a fala.

– Acabou o papo, chega, não adianta ficar fuçando em merda, fede, fede… vai pra casa da sua mãe e se guarda lá uns dias.

Tava torto já, o pai sabia. Ele permitiu e ia tentar uma última vez mudar o rumo das coisas.

Decidiu conferir na pinta, de perto.

Tinha que voltar no tipo de lugar que não pisava há anos, mas aonde já foi rei, não esqueceu o rito, o respeito. Chegou, pediu cerveja e foi no canto olhar a viração do lugar.

Tomou uma, duas e a língua estalou uma vontade de maria mole, um gole, dois goles, desceu. Desinibido, puxou papo com o dono do bar, apresentou credenciais (de fala e conhecimento), com respeito foi sacando o que era e o que não era.

Fez o resumo mais rápido que pensava, resolveu sair rapidinho, não tinha mais pegada, nem saco para aqueles lugares, o tempo passou de verdade.

Fabrício mentiu grandão para ele, tava provado, ele estava iniciado nos negócios, aprontara um monte e só não caiu por conta dos anjos (pagos) que sempre acabam ganhando nessas contendas.

O filho cresceu e dentro da máxima: filho grande mente mais.

Ainda zonzo (estava velho e deitou mais duas marias mole), voltou a pé pra casa, nem ônibus quis pegar, o caminho parecia longo, e passava um monte de coisa na cabeça, feito filme, o filho, Fabrício estrelava.

As longas ausências, Fabrício, o mais amado que acompanhou de longe, e longe ficaram as coisas, as várias noites que ignorou suas próprias desconfianças, tinha orgulho naquela rebeldia que ficava sugerida no filho e agora era medo, medo de ter desandado de vez.

Pai vida lôca, filho vida lôca? Não pode ser assim, não é assim. Nunca levou suas tretas pra casa ou deixou coisa pela metade, resolvia fora, sempre. O filho só sabia de coisas por ouvir falar. Não deu mau exemplo, mas que exemplo?

Então…

Atravessou o sábado quieto mexendo nas ferragens no quartinho dos fundos, passava horas por ali, consertando coisas que nem precisavam de conserto, era um jeito de olhar a vida, o presente, o passado.

Domingo de manhã, sol bonito. Fabrício ia sempre pra várzea, jogava bem, era classudo, diferente do pai que tinha sido um zagueiro valente e que se situava bem no campo apenas. E o garoto era canhoto, diferente.

O pai sempre que podia ia olhar e agora, mais do que nunca, era hora de olhar.

Seu olhar turvava no sol do domingo e Fabrício corria solto no meio de campo, se virava, recebia bola, devolvia, aparecia muito no jogo, bom de bola o menino, os olhos turvos eram pura intuição, emoção, expectativa, orgulho.

Domingo, várzea, amigos na beira do campo. Nem todos amigos, alguns tinham um jeito estranho pior do que os zagueiros carrancudos.

Na beira do campo nem todos gostam dos canhotos, dos habilidosos, de quem se safa de todas. Alguns rostos eram mais do que estranhos.

No campo Fabrício preparava as jogadas, canhoto, ligeiro, olhava para o pai e sorria, ali não mentia se apresentava. Uma hora o jogo termina e volta o dia a dia. Tem prazo, tem conta pra acertar, não importa quantos gols se faz.

E as palavras do pai do pai se repetiam:

– Filho mente!

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