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Arquivo mensal: abril 2014

Você observa coisas incríveis nas redes sociais.

Sujeitos que curtem posts que incentivam a violência, a vingança social, a barbárie e que ao mesmo tempo ficam indignados com a banana jogada no campo de futebol. A mesma banana cria um nó nas almas progressistas que têm duvida sobre a politização ou não da banana, comer a banana é pouco, é preciso fazer a revolução.

E tem também os adeptos da teoria da conspiração: a banana teria sido jogada de forma propositada para que Daniel Alves a come-se e no dia seguinte Neymar aparece-se com seu filho comendo banana e o Luciano Huck lança-se  as camisetas para vender a 80,00 reais. Torcedor, jogadores, marketeiros e Huck combinados. Wikileaks teria descoberto

Esquizofrênia e fantasia às mancheias e o racismo grassa subreptício.

A banana do torcedor que virou banana do Daniel é uma daquelas coisas que joga luminol sobre o sangue da hipocrisia. De um lado racistas indignados com a banana, do outro esquerdistas que acham que comer a banana não é ato político.

Conclusão: se o mundo te der uma banana, embanane-se.

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Às 0:20 do dia 25 de Abril de 1974 o programa Limite da Rádio Renascença de Lisboa colocava a canção “Grandola Vila Morena” de Zeca Afonso, era a senha para desencadear aquela que depois foi nomeada Revolução de Cravos. 

O ocaso da ditadura do Estado Novo comandada até 1968 por Antonio Salazar e naquele momento pelo seu sucessor Marcelo Caetano.

Revolta de capitães do Exercito Português fortemente apoiada pela população, pelo fim das guerras coloniais na África (Moçambique e Angola), pelo fim da ditadura.

A canção que marcou:

“Grândola Vila Morena, terra da fraternidade, o povo é quem mais ordena dentro de ti ó cidade”

Relógio

As coisas vão
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão

Oswald de Andrade

Não acredito que a vida seja feita de escolhas simples. Escolhas se cruzam com escolhas de outras pessoas, daí seguem um enredamento de múltiplos caminhos, tornam-se complexas, ricas, e não raro, perigosas.

No período de 2010 a 2012 tive a oportunidade de estar Chefe de Divisão de Biblioteca Pública da Secretaria de Cultura de SBC, função e nomenclatura pomposas (fiz questão de colocar por extenso), cheia de surpresas, decepções, e que na somatória me trouxeram alguma satisfação, muitas dúvidas e um tanto considerável de experiências e ensinamentos.

Cometer falhas e atinar acertos são contingências da ação, não cabe a mim descrever o inventário dessa trajetória, o julgamento é externo, implacável, muitas vezes conivente, outras cruel. O que ficam marcados são as dores e os prazeres íntimos, inexplicáveis ao juízo alheio.

Dentre as experiências mais ricas, que carregam este misto dor e prazer, está o Projeto Agentes de Leitura. Em 2010 fui de ir à Brasília (junto com o Chefe de Divisão de Difusão à época, João Pires) para fazer o primeiro contato com o intuito de estabelecer o convênio MINC/PMSBC.

Começava ali a ideia de colocar agentes de leitura nos subúrbios de São Bernardo do Campo.

A Constituição de 1988, avanço inequívoco na história do país, procurou colocar o município como protagonista na construção e aplicação de políticas públicas, nada mais claro e efetivo dentro de um estado federativo, onde as palavras pacto e descentralização são ingredientes fundamentais quando fogem à mera retórica.

Políticas (públicas) culturais que preencham de sentido as palavras descentralização e pacto são a expressão viva das intenções da Constituição 1988, o tal cumprimento da lei maior. Podemos considerar que os Agentes de Leitura, parte de um programa maior do MINC, denominado Cultura Viva, são parte dessa expressão viva.

Em meados de 2012 pedi exoneração do cargo de chefia, mas fiz questão de continuar organicamente ligado ao Projeto Agentes de Leitura, por acreditar no dinamismo e nas várias possibilidades de mediação e consequente formação de leitores que ele poderia alcançar.

Um programa ou projeto apenas na palavra, no papel, não está garantido, por mais óbvia que possa parecer essa frase, o fato é que a execução sempre nos surpreende, nos mostra caminhos novos, dissipa ilusões, fomenta outros sonhos, executar é discurso direto. Os Agentes de Leitura não fugiram dessa regra, ao contrário, de tão vivos, eles a tornaram mais fora do controle do que podíamos imaginar.

E crivo a palavra “podíamos”, crivo e subscrevo, pois quem viabilizou a implantação do Projeto Agentes de Leitura em São Bernardo do Campo foi uma equipe, foi um plural de pessoas, de ideias, de posições, de interpretações, que dividem alegrias e angústias. De alguma forma todos chegaram juntos até aqui (nas mais diversas contradições), mesmo quem ficou pelo caminho.

Foram angelas, thiagos, reginas, alexandres, jozys, eraldos, elianas, marleys, dalvas, elaines, camilas…advogados, historiadores, professores, bibliotecários, sociólogos, de múltiplas origens e destinos.

Creio que eu vá esquecer nomes, não queria, mas acontece, por isso os coloquei em letras minúsculas e no plural, pois os relatórios lidos e elaborados, os pagamentos checados, as reuniões e as formações exaustivas, etc, foram sempre de maneira plural, nunca no singular, portanto não cabe personalismo.

E então os agentes de leitura, aqui coloco de novo e deliberadamente em letras minúsculas e no plural coerentemente, pois apesar de muitas vezes estarem sozinhos nas ações de leitura que fizeram e fazem nos bairros de São Bernardo do Campo, nunca estão sozinhos na essência do projeto, projeto que privilegiou desde o início o coletivo, a ação junto ao outro e com o outro.

São os agentes de leitura no seu papel de mediador que jogam as luzes e as trevas nos gozos e tragédias das políticas de leitura.

O mediador é a prova dos nove, como dizia o poeta Oswald, ele transforma o papel, a palavra do projeto, não em estatísticas, não em fotos e imagens bonitas
para publicização, nas suas plenas carências e potências, ele transforma projeto em realidade, desvelando os territórios e olhando,sem intermediários e atravessadores, para as pessoas.

Não vou citar nomes dos agentes de leitura, não que eles sejam anódinos ou que sejam uma massa homogênea, pois é na diversidade e complexidade que eles representam que está o sentido desse projeto, mas correria novamente o risco da omissão.

Então, os agentes de leitura são todos os jovens que formaram e conformaram o Projeto Agentes de Leitura de 2010 até o presente. Diferentes, contraditórios, complementares, agentes vivos.

O agente de leitura é o mediador, esse é o fundamento, o mediador desencadeia o processo sem controle, que não cabe em qualquer estatística de qualquer projeto ou programa, o “descontrole” apesar de tripudiar sobre números e resultados pré estipulados é a garantia mais efetiva da qualidade e dos fins de qualquer política cultural.

Os agentes de leitura fazem avançar o sinal entre o público e o privado, são ao mesmo tempo moradores e agentes culturais de seus locais, aprofundam o dialogo, recebem, trocam, mediam e são mediados, a cultura opera sempre em duplo e dúbio sinal, o que é unívoco é a barbárie.

Em 2014 existe a intenção de municipalizar o Projeto Agentes de Leitura, São Bernardo do Campo dará um passo enorme no sentido de fazer cumprir as premissas estabelecidas pela Constituição de 1988.

Que os agentes de leitura (coletivo e plural),e suas experiências compartilhadas, sejam a base dessa consolidação, que a cidade abra mais um veio na busca das suas mais profundas necessidades, e não esqueçamos que a leitura é, antes de tudo, um direito.

Parece um fim de ciclo, mas é um eterno reinício, da minha parte agradeço plenamente às adversidades, às contradições e seus artífices, não há nada mais insuportável e improdutivo do que um ser humano que carrega as ideias e os olhares congelados, a dúvida seguida de ação e a nossa maior garantia de construir novas saídas e horizontes possíveis.

Estando perto ou distante dos próximos passos dos agentes de leitura, tenho certeza que navegarei na mesma sintonia, no mesmo rio, para o mesmo fim.

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Olho com olhos 
de imagem os que vão linchar-me. 

Pasolini

Ateu convicto, o cineasta e pensador Pier Paolo Pasolini, mergulhou profundamente na poesia para fazer em 1964 o filme “Evangelho Segundo São Mateus”. Ele mesmo afirmou que esse foi o seu único filme que se inscrevia naquilo que ele defendia como cinema de poesia.

Pasolini se embebedou na crença e na história cristã para entender poéticamente algo em que não acreditava.

As crenças e, sobretudo, as descrenças são passíveis de poesia, fazemos isso na política cotidiana, mergulhamos em algo em que não acreditamos para entender a sua trajetória, descontruir para extrair nossas verdadeiras crenças.

O grande perigo é quando nos perdemos no caminho e não concluímos nosso percurso poético, a paródia prevalece, mergulhamos na escuridão e há o perigo de jamais voltarmos.

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