“A moça do Guarujá”


Mas quieta em caverna escura sangra muda a humanidade,
Constrói de duros metais a cabeça redentora.

Georg Trakl

Não quero reduzir a minha indignação à lágrimas . Não quero transformar o momento numa peça publicitária das minhas escolhas políticas. Não quero ser mais sensível ou ser mais humano que o outro do outro do outro. E nem sei dizer basta, sabendo que não é basta que se diz em momentos como esse, não basta.

A morte é coisa que vemos diariamente, compulsóriamente as notícias batem nos nossos olhos. O espetáculo dantesco escorre dos palcos escolhidos e vem para perto de nós. Sofremos a dor da violência real e da sua naturalização, da sua reificação. A morte, a vingança, a satisfação de muitos que vêm a intolerância como arma, como modo de vida, nos entope os olhos, os ouvidos, o nariz.

A moça do Guarujá tinha filhos, marido, história, medos, erros, detalhes, tudo isso ignorado. Uma fofoca, recurso que é usado de forma costumeira para destruir reputações, pode também tirar vidas e tirou a vida da moça do Guarujá, linchada.

Linchamento patrocinado por estúpidos, por outras mãos que não só as que o fizeram cabal, por nefastos, por aberrações, atrocidade coletiva, construída diariamente, pedacinho por pedacinho com a força mágica da liberdade de postar, publicar e enunciar coisas nojentas e repulsivas, mas é a liberdade, e não é cercear a liberdade.

Morte construída pelas bravatas de apresentadores de tv, por sua retórica biliar que patrocina a morte substantiva, morte que transborda no modo que as pessoas recebem as mensagens e constrôem os próprios meios. Patrocinada por uma política construída no barro do medo, no apavoramento, na falta de reconhecimento do outro, na podridão, na barbárie. Arquitetadas em mídias variadas, TV, web, sem privilegiar essa ou aquela, o ódio e o que dá a liga.

A moça do Guarujá sangrou e nos deixou apenas com as palavras, a perplexidade e o medo (ele novamente) de estarmos indiferentes, de não mais nos chocarmos, de nos perdermos, de esperarmos o pior, e ignorar o pior quando ele já está, por parecer mais suave do que realmente é.

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1 comentário
  1. Sonia disse:

    Triste acontecimento. Reflexão perfeita.

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