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Arquivo mensal: junho 2014

Arnaldo Baptista foi parte dos Mutantes. Não qualquer parte, parte fundamental, o respiro de criatividade, o inconformismo partia de Arnaldo.

As constantes comparações com Syd Barret do Pink Floyd demonstram nem tanto uma alusão às insanidades recíprocas, mas ao faro de mudanças e às buscas por novas soluções musicais. Arnaldo Layne, óbvio.

Arnaldo saiu dos Mutantes e foi achar o Lóki. Lançou o álbum há quarenta anos. O formato, baixo, bateria, piano, teclados e alguns violões e as letras que mesclavam os impasses existenciais, dor e prosódia rock:

Venho me apegando ao passado
E em ter você ao meu lado
Não gosto do Alice Cooper
Onde é que está meu rock’n’roll
?

Insano, insatisfeito, ególatra, só pode afirmar quem viveu ao lado, ouvir as canções de Lóki pode nos levar a qualquer conclusão dessas. Importa? Arnaldo juntou as canções foi para o estúdio e nos presenteou com um registro insuperável:

Ontem me disseram que um dia eu vou morrer
Mas até lá eu não vou me esconder
Porque eu não estou nem aí pra morte
Não estou nem aí pra sorte
Eu quero mais é decolar toda manhã

Quem era o mutante dos Mutantes, Serginho segurava a onda, Rita Lee era o molho pop, a atmosfera 68 alavancou o povo da Pompéia? Arnaldo deixou tudo isso pra trás, sentou no piano com acidez e certezas, sabia o que queria e usou provavelmene o último fio dessa certeza:

Conquistar o espaço
Navigaire de novo
Descobrir as novas terras que existem por aí
I’m sure of that

Não se separa a dor do Lóki, não se nega o arrependimento que paira nas canções, mesmo sendo uma obra de total afirmação, de questionar fronteiras, a dor está ali no Arnaldo amante:

Sinta o pulso de todos os tempos
Comigo, até quando eu não sei
Sinta o barato de ser ser humano
Comigo
Até quando Deus quiser

Datado, sim, falar da época não é anacronismo, é 1974, gírias e jeitos de ver o mundo, um retratinho de certa juventude, desbunde, repressão, mas o contemporâneo não se furta em registrar e dar data:

Ainda bem que agora eu não tenho cabeça
Ama-me ou deixe-me em paz
Imagine só
Xuxu beleza
Tomate maravilha
É a última moda

O que é o coletivo depois dos furacões niilistas? O compositor e seu LSD sonhando na mata a vida coletiva parece uma paródia, especialmente numa época que a Cantareira só nos faz lembrar volume morto, mas Arnaldo sonhou:

Estamos numa boa pescando pessoas no mar
Aqui
Numa pessoa só

Arnaldo deu a letra na canção mais óbvia, foi ela que abriu a estrada por onde ele sonhou e pôde expressar o seu registro de época, foi assim que Arnaldo entrou para a história nesse registro que é só dele, que no máximo é acompanhado:

Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?
Eu sou velho mas gosto de viajar por aí
Cilibrina pra cá
Cilibrina pra lá
Eu sou velho, mas gosto de viajar…

Não é fácil.

loki

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A mídia investiu pesado para azedar o sentimento geral contra a Copa do Mundo. Operou esta empreitada no limite do cinismo, numa fronteira perigosa onde ficou a centímetros do conflito de interesses dela própria e dos seus principais patrocinadores.

A Copa começou, a maior surpresa foi o nível técnico das partidas, na média bem mais alto que nas últimas edições da competição.

Nas ruas o aumento evidente de consumo e de circulação de pessoas, previsível num evento que congrega países de todos os continentes.

A torcida por grandes blanks, catástrofes ou tragédias virou quase um ruído isolado de black blocs quebrando agência de carros importados.

O caos não veio, a equação tantas vezes usada do “isso é Brasil”, “só no Brasil isso acontece” ou “tinha que ser no Brasil” deu com os viralatas n’agua.

Qual o movimento natural das editorias? Surfar no exito e no otimismo, despolitizar o discurso antes politizado por eles mesmos. Bastou exercitar o cinismo subjacente em tudo no jornalismo atual. Fácil.

“A Copa é do Brasil, não do Governo do PT” nos últimos dias pudemos ler este tipo de frase nos comentários típicos dos leitores manadas. As editorias em consonância praticam um “singelo” “esqueçam o que escrevi” efehagaciano.

Inesquecíveis foram os furos. A entrevista mash up de Mario Sérgio Conti com o “não Felipão”, o roubo do “Viva a Vaia” de Augusto de Campos para desancar Dilma e serem desancados pelo próprio poeta numa carta certeira. Os dossiês todos prevendo o caos.

Frágil jornalismo desleixado que se preparou para desprezar e detratar algo que veio na contramão dos seus desejos. Foi pego de calça curta e produziu excrescências como as citadas acima.

Tem muita Copa ainda, inclusive há tempo para que se contradiga a contradição da mídia. A Copa ainda pode dar aos desejosos secadores pequenos fracassos prazeirosos, mas o movimento de pular fora do pessimismo é generalizado.

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“Viva a Vaia” é um poema que Augusto de Campos fez em desagravo ao comportamento agressivo da platéia contra Caetano Veloso quando o baiano defendia a canção “Proibido Proibir” no 3o Festival Internacional da Canção em 1968.

O motivo da indignação da conservadora (e esquerdista) platéia foi o fato de Caetano ter convidado os Mutantes com guitarras para acompanhá-lo, assim ferindo a pureza da música brasileira com estrangerismos.

Augusto de Campos usou recursos vérbicos visuais para saudar a tal vaia. Desagravou Caetano exaltando a vaia que ele levou.

Como vimos uma vaia enviesada pode constatar e apontar um caminho sem volta.

Parte da platéia vaiou a Presidenta Dilma ontem no Itaquerão, vaiou e virou as costas para o Hino Nacional. Exerceu, álias, seu direito de reclamar e mostrar indignação. Como é muito melhor não proibir, é muito provável que eles expressem nas urnas esta indignação.

Mas quantos são, o que representam, onde querem chegar esses indignados?

Que eu saiba as guitarras marcaram e marcam muita presença na música brasileira. Para silenciar uma guitarra é necessário muito mais do que tentar tirar o plug da tomada.

É preciso saber onde vai dar a vaia.

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Em 1970 eu tinha quatro anos. Tostão, segundo familiares, era o jogador que eu sempre citava. Lembro de uma chuva e de uma agua barrenta que cobriu a avenida que eu morava, foi minha primeira Copa.

De lá pra cá os fragmentos são mais claros.

Em 1974 a insistência em Zagalo e o baile que tomamos da Holanda. Em 1978 campeões morais e o golaço do Nelinho. Em 1982, Socrates, Falcão, uma mágica com trágico desfecho e o choro contido. Em 1986, Josimar, os penalties. Em 1990, Lazaroni e seus mercenários, Maradona. Em 1994, a Copa do cálculo, Romário fora de qualquer cálculo. Em 1998, Ronaldinho sonâmbulo, Zinedine Zidane. Em 2002, Marcos, Rivaldo, e fora isso, a Copa tradição, família e propriedade. Em 2006, um bom time, máscara, França de novo. Em 2010 uma Copa quase, como o Robinho quase, e por fim a Holanda, eterna quase.

Chegou 2014, minha décima segunda Copa.

Satisfação maior é poder ver os jogos com meu pai. Que Neymar e seo Geraldo sejam os campeões.

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O baterista, percussionista, arranjador e produtor, Helcio Milito faleceu na manhã de sábado (07/06). No meio de notícias da Copa, greves, entraves e embates políticos, o fato passou quase despercebido.

Desde o final da década de 40 do século passado, Helcio integrou combos, orquestras e conjuntos musicais. Orquestra de Djalma Ferreira, Orquestra de Ary Barroso, Conjunto Nossa Bossa entre outros.

Mas foi em 1962 que junto com Luiz Eça e Bebeto formou o Tamba Trio, onde consagrou sua tamba (instrumento de percussão por e ele criado) e suas canções.

Milito tocou muito anos nos EUA de onde retornou nos anos 70 para reformular o Tamba e atuar como produtor musical.

Boa viagem, camarada!!

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São dois momentos de dois grandes fotografos brasileiros, são dois momentos do futebol, não o futebol dos astros do gramado, da vitória ou da derrota, mas de espectadores e expectativas.

O futebol esta na vida das pessoas com todas as contradições e injustiças, com todas as marcas classistas e com as somas das diferenças.

Não tem a ver com a Copa, tem a ver com vida.

Fotos de José Medeiros e Thomas Farkas.

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