“Quarenta anos do Lóki”


Arnaldo Baptista foi parte dos Mutantes. Não qualquer parte, parte fundamental, o respiro de criatividade, o inconformismo partia de Arnaldo.

As constantes comparações com Syd Barret do Pink Floyd demonstram nem tanto uma alusão às insanidades recíprocas, mas ao faro de mudanças e às buscas por novas soluções musicais. Arnaldo Layne, óbvio.

Arnaldo saiu dos Mutantes e foi achar o Lóki. Lançou o álbum há quarenta anos. O formato, baixo, bateria, piano, teclados e alguns violões e as letras que mesclavam os impasses existenciais, dor e prosódia rock:

Venho me apegando ao passado
E em ter você ao meu lado
Não gosto do Alice Cooper
Onde é que está meu rock’n’roll
?

Insano, insatisfeito, ególatra, só pode afirmar quem viveu ao lado, ouvir as canções de Lóki pode nos levar a qualquer conclusão dessas. Importa? Arnaldo juntou as canções foi para o estúdio e nos presenteou com um registro insuperável:

Ontem me disseram que um dia eu vou morrer
Mas até lá eu não vou me esconder
Porque eu não estou nem aí pra morte
Não estou nem aí pra sorte
Eu quero mais é decolar toda manhã

Quem era o mutante dos Mutantes, Serginho segurava a onda, Rita Lee era o molho pop, a atmosfera 68 alavancou o povo da Pompéia? Arnaldo deixou tudo isso pra trás, sentou no piano com acidez e certezas, sabia o que queria e usou provavelmene o último fio dessa certeza:

Conquistar o espaço
Navigaire de novo
Descobrir as novas terras que existem por aí
I’m sure of that

Não se separa a dor do Lóki, não se nega o arrependimento que paira nas canções, mesmo sendo uma obra de total afirmação, de questionar fronteiras, a dor está ali no Arnaldo amante:

Sinta o pulso de todos os tempos
Comigo, até quando eu não sei
Sinta o barato de ser ser humano
Comigo
Até quando Deus quiser

Datado, sim, falar da época não é anacronismo, é 1974, gírias e jeitos de ver o mundo, um retratinho de certa juventude, desbunde, repressão, mas o contemporâneo não se furta em registrar e dar data:

Ainda bem que agora eu não tenho cabeça
Ama-me ou deixe-me em paz
Imagine só
Xuxu beleza
Tomate maravilha
É a última moda

O que é o coletivo depois dos furacões niilistas? O compositor e seu LSD sonhando na mata a vida coletiva parece uma paródia, especialmente numa época que a Cantareira só nos faz lembrar volume morto, mas Arnaldo sonhou:

Estamos numa boa pescando pessoas no mar
Aqui
Numa pessoa só

Arnaldo deu a letra na canção mais óbvia, foi ela que abriu a estrada por onde ele sonhou e pôde expressar o seu registro de época, foi assim que Arnaldo entrou para a história nesse registro que é só dele, que no máximo é acompanhado:

Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?
Eu sou velho mas gosto de viajar por aí
Cilibrina pra cá
Cilibrina pra lá
Eu sou velho, mas gosto de viajar…

Não é fácil.

loki

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