“Combater o racismo é pra ontem”


If you have a racist friend
Now is the time
Now ist he time
For your friendship to end

The Specials

Em 1977 eu tinha 11 anos. Estudava numa escola ao lado de casa. Era a escola da ditadura, aquela das filas no pátio para cantar o hino nacional perfilado. Naquele tempo as classes sociais se misturavam na escola pública.

O sucateamento acontecia, mas alguns os ricos sentavam perto da gente nas carteiras, não era por democracia, claro, era apenas uma transição para o abandono total da coisa pública. Todo mundo misturado e se distanciando.

Eu tinha alguns amigos, por ser o gordinho da classe, me juntei aos outsiders, os mais pobres, os mais feios, os esquisitos, os negros. Sim, negros outsiders, num pais predominantemente mestiço e negro, negros à margem.

Um dia rolou uma festinha daquelas de escola onde cada um de nós levava uma comidinha, um doce, um salgado feito pela mãe. Era um jeito de trazer o carinho, a aquiescência de casa para sala de aula.

Os doces, os salgados ficaram em cima de uma mesa e acabaram rapidamente na furia hormonal que dá fome na infância, bolos cremosos, tortas, docinhos mais delicados.

Restou um prato de pastéis intocado no meio de tudo.

Eu, na minha fúria comilona, não entendi o porquê daquela omissão dos colegas e parti pra cima dos pastéis de carne e queijo. Foi quando um amigo me abordou e falou baixo:

– Estes são os pastéis do fulano…

Vacilei um minuto, não entendi, ele se referia ao nosso amigo, nosso comum, que jogava bola, corria no pátio, conversava com a gente todos os dias no meio daquelas carteiras tristes e alegres, nosso amigo negro.

Continuei a comer os pastéis, muito mais por gula do que por qualquer ato heróico anti racista. Foi a primeira vez que senti de perto o racismo, naquele prato cheio de pastéis. Nunca vou me esquecer.

Eu era menino e eu não entendi bem na hora. Hoje sei que racismo não é uma coisa para se combater amanhã, pelo simples fato dele acontecer desde anteontem.

Esta música da banda inglesa e multiaracial, The Specials, expressa bem esta urgência. Não aceite racismo, nunca, é urgente.

7-specials-racist friend-german

 

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1 comentário
  1. rossiley ponzilacqua disse:

    Caso de urgência urgentíssima!

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