“Uma leitura de domingo”


Adoro as palavras, mas nem sempre sou todo ouvido!
Principalmente quando língua, lábios e dentes buscam outros objetivos…

Casulo

– De domingo a periferia é mais longe.

Esta foi a resposta que o rapaz no ponto da Praça Quatorze Bis me deu quando perguntei se demorava o ônibus para o Terminal João Dias. Descobri que tinha que pegar o Terminal Capelinha e descer na Avenida João Dias e acessar o Terminal João Dias pelo lado de fora. Lá vou eu rumo ao Parque Santo Antônio.

A Livraria Editora e Biblioteca Comunitária Filoczar que pertence ao Cesar Mendes Costa, um filósofo, professor, terapeuta, ativista da leitura que faz um trabalho único no coração do Jardim São Luiz, extremo zona sul de São Paulo: provocar, instigar a educação, a formação e mediação de leitores.

Cesar, claro, não está sozinho, tem uma rede, tecida na teimosia, na resiliência, na insistência de fazer coisas diferentes daquelas que a lógica perversa do abandono, do preterimento, do descaso do Estado e da sociedade.

Naquela tarde pude conhecer e descobrir pessoas que trabalham duro para fazer o que a maioria não percebe, mas que é fundamental para quem convive e compartilha das ações que eles promovem.

Eu não estava lá a passeio, desde junho de 2014, faço parte de um grupo de trabalho que se reuniu e foi nomeado oficialmente para construir o PMLLLB (Plano Municipal do Livro Leitura Literatura e Biblioteca).

Poder público, entidades, militantes da leitura, parlamento e as pessoas da cidade de São Paulo são o húmus do Plano, e para legitimar o processo uma das etapas fundamentais são as plenárias populares realizadas junto aos movimentos, com os trabalhadores da leitura, ir à zona sul naquela tarde era parte dessa caminhada.

Na constituição do grupo de trabalho represento a Câmara Municipal através do mandato do Vereador Antônio Donato (PT), no dia 06 de junho realizamos uma audiência pública para recolher subsídios junto à sociedade para compor uma política do livro e leitura. Com a formalização do GT juntamos as forças.

Foram duas horas que demorei em chegar ao Jardim São Luiz e encontrar a Livraria Filoczar. Tudo muito simples, a simpatia de Cesar e esposa, a livraria no cômodo da frente na sala contígua cadeiras, ali acontece os cursos, cineclube, os debates. Em outra sala está biblioteca comunitária, duzentos títulos acessíveis.  Sim, a Filoczar comporta uma livraria e uma biblioteca, onde está escrito que são coisas excludentes?

Ás 15h40min começamos a plenária, alguns minutos depois o companheiro de GT, Haroldo Ceravolo se juntou a mim para coordenação da plenária. Chovia em São Paulo, coisa rara nos últimos meses. Não erámos muitos, mas não foi pouco.

Sentados conosco educadores, militantes, escritores, o início do diálogo foi frio, o estranhamento, a difícil comunicação. Plano, institucionalidade, poder público não são moeda corrente para pessoas que fazem o que tem que fazer sem esperar a verba, a estrutura, o Estado.

Evidente que as necessidades, o que falta, o que é preciso para fazer melhor, são coisas muito claras para estas pessoas, eles podem não dominar as nomenclaturas, os termos empolados que lhe são impostos, e não é por ignorância  mas pela urgência das tarefas.

Maria Vilani, o poeta Casulo, Célio Sales, Luciana; Cleon (Ceará); Monica Aiub; Willian; Paulo Sérgio; Vanessa Mendes; Naram… todos eles sabem a importância do que fazem, porque fazem há muito tempo, enão têm escolha, o enredo é antigo.

O tempo das políticas públicas, não é o tempo da periferia de São Paulo ou de qualquer periferia. Há um descompasso, um desnível, nas verbas, no olhar, no entendimento, no diálogo. Não adianta conversa, as pautas são claras, o enredamento é conhecido, avançar é urgente.

Foram quatro horas de debate, depoimentos, sugestões, desabafos, conversa direta de quem já correu muitos trechos. Concretos encaminhamentos. Aprendi mais um tanto na vida. Há uma dívida grande com esse povo e vem de longe, muito longe. E precisa ser paga.

De carona com o Haroldo na volta, falávamos de política, de eleição, conjuntura, realpolitik, a velha e não superada conversa da luta de classes. O contraste foi satisfação de ter participado de uma plenária produtiva, com cruezas, belezas, tendo a certeza que não tem nada de missão cumprida. A luta de classes, há quem a negue.

Quando o rapaz do ponto de ônibus me disse no início daquela tarde que de domingo a periferia era mais longe, nem ele, muito menos eu, sabia o quanto eu caminharia naquele dia chuvoso.

Sigamos o Plano…

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