“O Centro de São Paulo”


Tenho um costume, antigo e arraigado. Gosto de caminhar pelo centro de São Paulo. Olhar de perto as dinâmicas, as mudanças. As belezas e a beleza das feiuras. Em geral, olhamos o Centro como unívoco na decadência e na degradação, nuances são ignoradas e desaparecem muitas vezes sem serem percebidas. É mais fácil transformar tudo em cinza.

O Centro que já foi dos trombadinhas, dos meninos de rua, da prostituição, dos camelôs, do crack, do cheiro ruim das ruas, do ecletismo e da suntuosidade das construções que supostamente contrastam com a pobreza monolítica das ruas. Uma longa memória que compõe o museu das ruas tristes. Um bocado de certezas que acomodam a lógica do higienismo, do preconceito.

Tudo isso permanece em resíduos mais ou menos presentes, como um museu das ausências, das carências, das perversidades. Com o tempo tudo se naturaliza se transforma parte da paisagem, aparece e desaparece sem causar nenhum alarde. O destino traçado. A memória é seletiva e aponta sempre para uma velha frase “o Centro de SP não tem jeito mesmo”, é mais simples pensar assim.

Há alguns anos o Centro vem sendo ocupado de uma maneira organizada, parte da exclusão se insurgiu, saltou das ruas e adentrou prédios vazios, prédio vazio numa cidade excludente é a maior das perversões. As bandeiras vermelhas com siglas são fixadas nas fachadas e pessoas ocupam, enchem de sentido um vazio.

A cidade onde tudo é longe, tudo é difícil, tudo demora a ser. Os movimentos de ocupação resolveram intervir na lógica das ruas abandonadas e, assim, fazer valer a Constituição:

“Artigo 397 I- as propriedades devem cumprir a função social ou uma função econômica e social para salvaguardar os seus direitos, de acordo com a natureza da propriedade.”

E o Centro foi ocupado por gente que pela toada tradicional estaria protagonizando mais uma história perversa do museu das ruas tristes. Ocupação no léxico das ruas, invasão no dizer do aparelho repressor e na fala senso comum de quem sustenta o discurso do medo e da repressão.

Na terça feira (16/09), o discurso do medo operou sua eficiência com balas e uniformes, jogou para a rua, para o destino traçado, a resistência que tenta mudar a velha história do centro. A mudança de enredo incomoda os donos e o discurso da propriedade, e tem polícia, mídia, tem discurso pronto para operar a desocupação.

O episódio da São João com violência franqueada sobre crianças, mulheres grávidas, idosos, não foi tragédia isolada, outras reintegrações de posse, é esse o termo policial emulado pelo sentido de justiça, são feitas diariamente São Paulo afora, mas como foi no Centro ele se amplifica eco de Pinheirinhos na vitrine da Avenida.

A prática é conhecida, testada e encontra respaldo na onda conservadora que nos acomete. A invasão (invertida) da polícia com bombas e balas de borracha cabe perfeitamente no discurso do “coitadismo” onde a vítima das mazelas é a culpada e o algoz (o Estado repressor e omisso) é o disciplinador. A sociedade aplaude o desfecho trágico do “vagabundo que quer casa de graça”

Foto de William Okubo

Anúncios
1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: