“A chuva”


Eu perguntei  se o que ouvia era uma chuva inspiradora. Sem resposta. O silêncio permitiu ouvir as gotas caindo em algum teto vulnerável. Mudou de assunto.

Tinha assunto, bastante. E contou das provas que deveria já ter corrigido, da mudança de carreira, velhos dilemas. Eu ouvia. Ofegante, procurava acalmar a voz, ouvia as gotas de novo. Era quase dia. Nos falavamos ao telefone.

Telefone fixo não era sem fio. Ao menos o meu. Eu contorcia o corpo na poltrona.  Jurava que horas depois entraria em algum magazine e resolveria o impasse. Poderia finalmente andar pela casa, sem fio.

Naquela noite/manhã o assunto esquentava em algo parecido com briga. Acerto de contas. Se estivessemos ao vivo, sem fios e ondas separando, estaríamos enroscados, balbuciando coisas ininteligíveis. À distância é o verbo que esquenta as coisas.

Não era noite nem era dia, nos silêncios o barulho das gotas ficou mais intenso. Chuva inspiradora. Nem precisei mais da resposta. Ela prosseguia com a récita e dava zelo a uma narrativa séria sobre o futuro. Eu, preocupado com a trilha sonora.

– …quantas músicas que você lembra que falam de chuva?

Silêncio. Entrou um raio de luz na sala, mudou o tempo. O sol era generoso com a minha sala. No meio do dia aquele sofá desajeitado ficava banhado de luz. O dia seria daqueles quentes. Eu ainda ouvia a chuva do outro lado nos intervalos, nos silêncios.

Perguntei que horas eram. Ela disse para fazer conta, afinal eram três horas de fuso. Tentei. Parei, pois não sabia nem que horas eram onde eu estava. Procurei enredar a conversa para o meu lado. Um reencontro. Virou temporal, o barulho da chuva do lado de lá chegou quase a encobrir a conversa.

E veio a estiagem. Depois de horas de conversa e de sofá desconfortável consegui arrancar um sorriso e uma frase leve. Falou, relaxou, até considerou um reencontro. Soberana, andava pela casa com o telefone sem fio. Imagino que nua. Ela disse que olhava pela janela, já era dia, e que a cor da chuva no chão da praça era bonito.

 

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1 comentário
  1. Bom dia, Ricardo.

    Gostei da crônica, talvez seja autobiográfica, não sei; vale por ela.

    Boa semana, quem sabe nos deparamos por aí qualquer hora.

    Abraço cid

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