“O gosto de uva”


Desde cedo minha apreensão maior no dia era saber se abriria sol. No meio das nuvens torcia, torcia para o sol aparecer. As 5:30 estava na porta da distribuidora. Tomava um café e esperava. Sabores.

Morango, Abacaxi, Limão, Uva, Nata, Chocolate. Calculava os gostos, a preferência do povo e o olho no céu. Nuvem, sol. Algumas manhãs eram fáceis. O sol vinha firme. Dia ganho. Calculava. Meia duzia do sabor limão a mais, ao gosto do cliente.

Quando era menino seguia meu pai. Peregrinação na Zona Norte. Avenida Itaberaba, Avenida Inajar, as ruas pequenas todas, o bairro. Gostava quando ele descambava pelo centro, atravessavamos a ponte. Barra Funda, Parque da Água Branca, Avenida São João, novidade.

O gosto do sorvete de uva era enjoado, meu pai sempre dava um sabor diferente, lá pelas onze, onze e meia. Calor. Com o tempo deixei de pedir, mas ele cumpria o ritual, tirava o sorvetinho do papel fino, desembrulhava, eu olhava aquele naquinho de gelo colorido, eu lembro do gosto enjoado da uva.

Um dia meu pai reclamou da perna. Nas Clínicas, muito tempo esperando. O médico com o olho em outro lugar disse que era trombose. Aquela palavra mudou o rumo da minha vida, da vida da família. O menino cresceu. Com pouco tempo eu assumi o carrinho, calculava os sabores, os valores e aprendi a olhar as nuvens, todo dia

O tempo…

No inverno me virava com outros bicos. Afundava o pé no extremo da zona norte, ajudava um primo no boteco, no almoço prato feito, comercial, flertava com moça da cozinha, sempre ágil, bonita. Namorei, casei. Passava rápido. E sempre o sorvete. Voltava pra rua com o tempo quentinho, mas casei no inverno.

Conheci outros sorveteiros, o Beca teve equipe de som, dava baile, gostava de música americana. Era engraçado, contava histórias de conquistas (no passado),  dos bailes inesquecíveis, das noites em claro. Disse que não ouvia música “nova”, que o rap tinha acabado com os bailes. Agora não cuidava dos discos, era mais um preocupado com as nuvens.

Meu primeiro filho se chama Luis Antonio. Nasceu numa terça de sol.  Divido os dias entre os de sol e os de nuvem. Simples. Os de chuva ficam no esquecimento. Já sai com chuva molhando o carrinho, teimoso. Se vendo três, quatro sorvetes é lambuja. Luis Antonio nunca ligou pro carinho, enveredou na bola e no computador. Se vira, joga, trabalha.

No galpão, no meio das geladeiras, ficava o Benê. A tosse seca não se sabe se do cigarro ou daquela friagem. Capa azul surrada e o maço de Plaza. Com ele o negócio era rápido, tantos sorvetes, tantos sabores,  tal valor, piadinha rápida, cálculo de lucro rapidinho e rua.

No domingo acordei cedo, fui no galpão peguei os sabores, bati perna rápido. Lembrei do pai, das conversas nas longas caminhadas. Atravessei a ponte, um aperto. O gosto de uva. E a vida que passa nas ruas. Rumei para o Centro, Avenida Barra Funda…

…o Minhocão fechado para os carros, gosto de ficar ali. As pessoas se divertindo, correndo, as famílias, bicicletas. Fico calmo. Às vezes um de limão, chocolate. Um dia de nuvens, mas proveitoso.

 Sentei, comigo as lembranças, um dia a mais empurrando o carrinho. Vendi bem, poderia ir embora. Não fui. Fiquei ali olhando o tempo. Não tava esperando o sol, nem cliente. Um aperto, aqueles prédios ao lado me olhavam. Serenei. O gosto de uva.

 

Anúncios
1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: