” Tico, 1956-2015, São Paulo”


O Jardim Umarizal é um bairro incrustado no Distrito de Campo Limpo, perto do Córrego Pirajuçara e da Avenida Campo Limpo, zona sul de São Paulo. Lá nasceu há 56 anos o Francisco Pinto Campos Neto. Tempos depois, Francisco passaria a ser chamado Tico e assim cresceu. Um dia ele iria escrever em contos as suas impressões do mundo. Mas antes a vida de Tico deu vários giros e voltas.

Tico foi internado várias vezes, morou nas ruas. Drogas, alcool e a insanidade  vivida e adquirida. Existem dois sistemas que marcam o indivíduo para sempre, o prisional e o manicomial. Ele soube bem do segundo e sempre que pôde lutou contra. Nessas idas e vindas Tico teve encontros com a leitura e a literatura, a  grande via de escape, os clássicos, o aprendizado, o veio e o verbo desenvolvido. 

A leitura e a literatura não são milagrosas, elas não salvam ninguém, nem redimem, quando muito ratificam. A vida foi dando o enredo para o que Tico escreveu. Veio das ruas, dos tipos do centro, da Cracolândia, dos corpos que vão e vem na CBTM, dos tristes, dos muitos lugares onde ele ando, da cidade escura que as pessoas ignoram ou que com ela se apavoram. Literatura de vida.

Tico apenas descreveu essa vida, o estilo, a verve guiaram o resto. A tal literatura se tornou o espelho em fragmentos de uma tradição marginal com a qual ele caminhava e que se uniria a um conjunto de novos e vigorosos escritores da periferia paulistana. Foi quando e onde que Tico em exercício de síntese eternizou os pedaços da sua imagem a tal tradição e vieram junto com ele, João Antônio, Wander Pirolli, Plínio Marcos, Austregésilo Carrano…Dostoievski.

Em 2010, ele perdeu a mãe e desandou, foi morar nas ruas, mais drogas e alcool, as barras do centrão. Colheu os frutos amargos, pirou, levantou. Uns tempos depois conheceu o Binho, que leva um sarau lá no Campo Limpo, pertinho de onde Tico nasceu, encontrou acolhida, afeto e continuou escrevendo.

Depois de debutar com um conto numa coletânea de escritores periféricos organizada pelo Ferrez na Editora Casa Amarela, ele lançou seu primeiro livro de contos, “Elas, etc” onde narra histórias de mulheres de periferia. Um perigoso exercício de ousadia e destreza ao narrar coisas de um universo alheio (o feminino) sem simular domínio, nem forçar o olhar.

O segundo, “Núpcias de Escorpião” (Editora Cíclo Contínuo), veio em 2012. É obra corrosiva, direta, clássico feito, que faz doer, revela e expõe carne, sangue, medo, danação. É trabalho de fôlego e de força, que certamente vai ficar, vale ler, reler, abre as portas para um universo particular, rico, triste e peculiar. Tico não mente nas letras.

Tico prometeu e já vinha escrevendo seu terceiro livro de contos…tinha uma peça e um novo romance começado…

….mas o pedaço do amplo espelho quebrou de vez na última terça feira, Tico nos deixou. Um caminhão na Régis Bittencourt, não se sabe como e por quê. Nenhum jornalão noticiou a morte do escritor Tico. A única notícia sobre o ocorrido saiu num site de um jornal de Taboão de Serra e dizia apenas que Francisco Pinto Campos Neto havia sido atropelado. Mas, a gente sabe bem que foi e quem foi o Tico e quem não sabe tem que saber. 

Adeus, camarada!

   
 

Anúncios
1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: