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Arquivo mensal: dezembro 2015

Ian “Lemmy” Killmister é desses caras que parecem eternos, um verdadeiro azougue rocker do pós guerra.
Roadie de Jimmy Hendrix, baixista do Hawkind (banda space rock movida por LSD), fundador e líder de um dos trios mais barulhentos do rock and roll, Motorhead, um aglutinador de bandas e cenas musicais.

Muita estrada, gigs, parcerias (Girlschool, Sacon, Ramones, Sepultura, Damned), quimicas e histórias. Lemmy faleceu na tarde de hoje em Londres, ele descobriu que tinha câncer no último sábado, um fim fulminante de um cara que sempre teve pressa.

Valeu, Lemmy
should be tired,

And all I am is wired,

Ain’t felt this good for an hour,

Motörhead, remember me now, Motörhead alright

 

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The revolution will not be right back
after a message about a white tornado
white lightning, or white people
You will not have to worry about a dove in your
bedroom, a tiger in your tank
or the giant in your toilet bowl
The revolution will not go better with Coke

Gil Scott Heron

A polêmica do Chico Buarque versus figuras sinistras da coluna social tem gerado reações surpreendentes e constatações óbvias. Ontem, o Deputado Jean Willys deu cabo numa coisa que tive vontade de fazer e não fiz por preguiça. Ele levantou a capivara de um dos milicianos bem nascidos que fez parte do affair com Chico, o suposto rapper Túlio Dek. A minha curiosidade tinha outras raízes. Pergunto-me: qual o sentido de fazer rapper sendo morador do Leblon? Sendo rico e bem nascido? Preconceito meu? Será?

O movimento hip hop nasceu no Bronx em meados da década de 70 do século passado. O bairro de Nova York apresentava um cenário de pobreza, ausência do Estado, violência, predominância de gangues, a prevalência de negros e latinos. Tudo isso somado à infraestrutura precária, racismo, opressão policial, desrespeito a direitos básicos geraram revolta, protesto. Portanto, são condimentos intrínsecos, estão no DNA do hip hop e nos seus cinco elementos, a crítica e a insurgência. A rima, o grafite, o verso, o dj, a dança não vieram soltos no tempo e no espaço, tinham conteúdo, contexto, alvos e pautas.

O rap é resultado da alquimia entre esses elementos, especialmente a rima e o dj, ritmo e poesia com digitais bem marcadas, sua narrativa seminal é reivindicatória, grita por mudanças sociais. Claro, com o tempo a indústria cultural se apropriou disso e criou subproduto em cima de subproduto, por outro lado, o rap se fundiu a outros ritmos e marcas sócio culturais e se desdobrou em vários estilos. Mas o que relato aqui é sua origem e principal força, marcada pela questão racial, pelo protesto, por lutas históricas e pelo recorte de classes. O ritmo e a poesia nascem com recados e endereços destinados muito claros e se reproduziu nas periferias do mundo com essa marca legítima em línguas e misturas diferentes.

Volto à pesquisa do Deputado Jean Willys que levantou a capivara hereditária do tal rapper, Túlio Dek, foi proativo e mais meticuloso que eu, a equação rap x distorção da sua origem sempre ronda as minhas ideias, e esse episódio, marcado por simbolismos muito claros, acendeu a luz vermelha, essas cismas que a gente leva pela vida. Peço licença para reproduzir parte do seu relato no facebook, antes reproduzido no Diário do Centro do Mundo:

(…) Fui ao Google procurar saber quem é o tal “rapper” Túlio Dek (um dos ofensores de Chico Buarque) e o que encontrei, entre platitudes sobre sua vida amorosa passada em sites que se ocupam de subcelebridades, foi a informação de que ele é neto de Jairo Andrade. E, de acordo com esta matéria de 2007 do site A Nova democracia (http://www.anovademocracia.com.br/no-38/79-a-luta-camponesa-faz-se-ouvir), o avô de Túlio Dek não era flor que se cheirasse!
“Jairo Andrade Bezerra, falecido há 4 anos, nasceu em Passos (MG) e foi extrema-direita de carteirinha. Entusiasta organizador da ‘Marcha com Deus, pela Família, pela Liberdade’ em 1964, atividade patrocinada pela CIA, que antecedeu ao golpe militar que derrubou o governo constitucional de João Goulart.

Foi para o sul do Pará no final dos anos 1960 e sempre teve apoio da ditadura militar para cometer todo tipo de desmandos na região. Roubou terras dos indígenas, posseiros e dos colonos assentados pelo Incra no assentamento Agropecus.

Jairo recebeu nove autuações por trabalho escravo. Teve seu nome incluído na Lista Suja do Trabalho Escravo, condenado por manter 97 trabalhadores escravizados na Fazenda Forkilha.  Seu irmão, Gilberto Andrade recebeu igual condenação por trabalho escravo na fazenda Boa Fé, em Centro Novo (Maranhão). Apesar de denunciado por trabalho escravo (desde final dos anos 60), Jairo Andrade nunca deixou de receber recursos públicos da SUDAM para investir em sua propriedade.

Foi fundador da criminosa e arqui-reacionária UDR — União Democrática Ruralista, em 1985, sendo seu primeiro tesoureiro nacional. Subiu no palanque com Fernando Collor em Redenção nas eleições presidenciais de 1989. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em 5/11/1994, Jairo Andrade — acusado de contratar pistoleiros para assassinar o ex-deputado e advogado de posseiros Paulo Fonteles e inúmeros trabalhadores rurais — não desconversou: descreveu mortes das quais participou, informou onde enterrou as vítimas e fez ameaças. Como sempre acontece com os crimes do latifúndio em nosso País, nada aconteceu a este bandido, réu confesso.”

Com o coração e a mente abertos reitero a pergunta: o que um sujeito rico, que tem esse histórico de família, circula por colunas sociais, tendo como amigos uma playboyzada de origem similar, e como cereja do bolo, protagoniza uma história (registrada nas redes sociais) que misturou ódio, falta de educação e civilidade, intolerância, e antes de tudo, deixou bem claro os valores e o discurso de classe que ele defende, tem a ver com o rap, com o movimento hip hop? Descontemos aí todas as distorções e adaptações que a indústria cultural cometeu para transformar o rap em produto, não sobra nada, nenhuma legitimidade. Túlio Dek é tudo na vida, menos rapper, rap ele não faz, ele mimetiza maneirismos e cacoetes dos cinco elementos, mas isso não é rap, não aquele nascido no Sul do Bronx e que vive fazendo a diferença nas periferias do mundo.

Preconceito?  Se eu desprezasse a luta de classes, a dissensão resultante do embate que coloca exploradores, plutocratas, espoliadores de um lado e quem defende minimamente a luta contra a desigualdade no seu reverso, se eu não respeitasse a marca legítima de nascimento de um estilo musical, eu me preocuparia  em ser chamado de preconceituoso, no caso só estou apontando um rapper que não é rapper. Túlio Dek pode fazer a música que ele quiser, chamá-la do que quiser, usar o rótulo que quiser, pagar de revoltado, mas nunca vai ter a marca da legitimidade de um estilo musical que nasce da revolta genuína e do protesto voltados exatamente contra todos os valores e as perversidades que esse sujeito representa.

O encontro entre Chico e o grupo de meninos bem nascidos tem um simbolismo forte, não foi um embate de classes, aliás, são pessoas do mesmo meio, mas que possuem valores completamente diferentes. Chico nunca se meteria a fazer o rap do Bronx, da zona sul paulistana, das favelas do Rio e ele nem se propõe a fazê-lo, ele flerta com os oprimidos de uma outra maneira.

Quando Chico Buarque dialogou com o samba das favelas e do subúrbio carioca, o fez com reverência e respeito, poeticamente e na prática política esteve muito mais próximo dos sambistas do morro e congêneres e a milhas de distância dos latifundiários, usineiros, especuladores e vampiros da ditadura civil militar e do presente momento, por mais que isso possa revoltar os verdadeiros preconceituosos, ele escolheu um lado que o leva para mais perto do Bronx que o tal Túlio Dek.

Termino com um dos bordões, parte do riquíssimo legado que o  falecido rapper, Sabotage, da zonal sul paulistana nos deixou, só para frisar que rap tem a ver com território, embate de classes, valores e varias outras condições objetivas, e é assim que ele estipula algumas fronteiras pra lá de geográficas:

“O Rap é compromisso não é viagem
Se pá fica esquisito aqui Sabotage
Favela do Canão ali na Zona Sul
Sim, Brooklyn”

 

 

bronx

 

 

 

 

 

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