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Arquivo mensal: fevereiro 2016

A foto abaixo registra um momento carinhoso da disputa de prévias do PSDB na zona leste paulistana. As correntes contrárias entre si, ligadas a Dória, Matarazzo e Tripoli coroando a festa da democracia. A folha de são paulo colocou na capa de hoje mais fotos e detalhes dessa refrega.
O que isso representa? Vocês acham que é mais um prova da isenção dos frias da barão de limeira? Que a crítica do diário paulistano às baixarias da política é suprapartidária?

Creio que não. O alvo é outro, o mais importante para a mídia, e esse é projeto de muitos anos, é a desqualificação da política e de todos os processos de aprofundamento democrático.

Participação no voto é uma etapa importante do processo político, mas não é a principal. O PSDB nunca fez prévias, na primeira feita o que fica em destaque é o momento baixaria, é um ponto a menos para a democracia e uma forma de corroborar com a frase “nenhum partido presta”. 

É o discurso da prevalência do privado sobre o público. O jornal do alto de sua “isenção” e “rigor” tripudia sobre o processo de participação e democracia partidária e de quebra ainda beneficia o candidato que apóia dentro do partido com essa desqualificação.

O fato de ser o PSDB é um mero detalhe e está longe de conotar qualquer isenção. Quanto mais desqualificado é o processo político mais fácil de manipulá-lo, distorcê-lo e rebaixa-lo.

  

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Morar na rua é cruel, a rua não dispensa tratos específicos, ela não faz mediações. Já falaram de homens cinza e de seres invisíveis, pode ser adequado ou não, são apenas palavras. É impossível definir o qual é esse nome quando se tem teto, chuveiro e travesseiro. 

Moro no Baixo Augusta, a região é repleta de moradores de rua, fixos e transitórios. Cada um com seu jeito de lidar com essa indistinção. Uma maneira de tentar não ser indisto com eles é  cumprimentá-los no dia a dia, alguns gostam, outros ignoram afirmando a indistinção. 

São mulheres, homens, cabelos, semblantes, marcas de vida, um ponto em comum é o olhar perdido e o pragmatismo de tentar o básico do dia a dia, copo, prato, saciar a fome ou o desejo de torpor.

Na esquina de casa tem uma senhora que usa um canteirinho de jardim do Santander como cama, um espaço exíguo, desajeitado, mas é ali que ela conformou seu jeito de esquecer o mundo por algumas horas. 

É triste, dura e indista a calçada, e são várias imagens e histórias que imaginamos para tentar romper essa indistinção. O fato é que a rua é de quem é da rua e quem passa apenas olha. Penso aqui, á sombra do meu conforto, a quem protege essa indistinção?

  

FHC mudou as regras eleitorais a fórceps e comprou sua reeleição, operou um brutal processo de privatização para o país, nos colocou numa posição subalterna no cenário internacional, enfraqueceu ministérios e instituições, foi generoso com alguns grupos de ensino privado, criou o bolsa banqueiro (PROER), etc.
Será que ele precisa de mais algo para “manchar” a sua imagem?? É muita reverência e subserviência.

Fiquei surpreso com algumas defesas do ex presidente que tenho lido/ouvido a partir do affair Miriam Dutra na última semana, que aliás já foi revelado há quinze anos, o que traz de novidade nesse momento são as suas implicações públicas, não as privadas.

O cômputo final da história está colocando a jornalista como a megera do ocidente e FHC como vítima. O sinhozinho de higienópolis é um mito. 

O coronelismo, o patriarcalismo e a síndrome de casa grande e senzala estão de fato enraigados no sentimento mais profundo dos brasileiros , e pelo que tenho lido nos últimos dias, não poupa nem supostas consciências progressistas.

  

Tenho que admitir que desde menino minha relação com o Corinthians é de amor e de raiva (ódio não cabe). O time do Parque São Jorge era o time do meu irmão. Vivi com essa sombra de símbolos, narrações, camisas, posters, imagens fortes, paixão e descalabro alvi negro no mesmo quarto, na mesma casa, na vida em comum.

Nem deu pra ignorar o timão. Carrasco da minha Lusa muitas vezes. O futebol se inscreveu na minha vida assim, com essa vitalidade dos sentimentos extremados e inevitáveis.

Hoje seria aniversário do Socrates Brasileiro, o Magrão da Democracia Corintiana. Um dos totens corintianos. Novamente não tem como desviar os olhos. Socrates, o brasileiro, foi desses jogadores que não se ignora. Irônico, franco, poético, imprevisível, humano na bola e na fala. Uma antítese do futebol botox atual e uma das raras faces da politização no futebol. O magrão morreu no momento em que não achou um lugar em comum nesse mundo programado para destruir o futebol.

Então, hoje é dia de comemorar o futebol que nos sobra na memória e em alguns cantos vivos de resistência. Dia de (re)ver o Socrates, brasileiro, e seu jeito de inventar o jogo e a vida.

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O futebol está em processo de gentrificação? Já foi gentrificado há bastante tempo.   
A maior prova da expulsão dos pobres das arquibancadas são os passeios de câmeras permeados por elogios aos “torcedores família” característica impar das transmissões botox da Globo. 

Futebol virou lazer da classe média que se sente protegida nos estádios pomposos ou no botãozinho pay per view, com seus ídolos robóticos e integrados. Longe dos conflitos de classe, na mais perfeita lógica de condomínio fechado.

A reforma dos estádios foi a pá de cal no ex esporte popular, a pedra fundamental foi a demonização das uniformizadas nos anos 90. O que restou foi um pálido suspiro de algo que um dia foi do povo – o grito e as faixas da Gaviões nesse final de semana, talvez seja uma espécie de canto do cisne – predomina o apartheid, não há mais espaço pra geral.

 

Graças a banquinha de piratas da Augusta pude conferir ontem a cinebiografia dos pioneiros NWA (Niggaz wit Attittude), Straight Outta Compton. Simplesmente o grupo que explicitou de forma mais contunde e criativa a violência das ruas dentro da dictomia policiais x jovem negro pobre, que serve para qualquer lugar do mundo.

O cenário é Compton, sul da California, condado de Los Angeles. Molecada das ruas, Eazy-e, Dr Dre, Ice Cube, Dj Yella, MC Ren deram origem ao que passou a se chamar gangsta style, com muito palavrão, uma dose grande de machismo e misogínia e um discurso de confronto com a polícia como símbolo de autoridade repressora. Um retrato cru do racismo temperado com o peso e a beleza da música negra.

O filme traduz o conflito entre criatividade, urgência, pressão da indústria e a camaradagem ingredientes compulsórios do rap. Concorreu ao Oscar teve auxílio dos originais Dr Dre e Ice Cube na produção e ouvidas hoje “Fuck The Police” e Boyz in the Hood” continuam poderosas e atuais.

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A cultura em chamas. Primeiro o Museu da Língua Portuguesa, agora, a Cinemateca Brasileira. O fogo consome a memória de letras e imagens da cultura brasileira, dramático. Mas não é esse o maior drama.

Estamos falando de lugares consagrados, de espaços oficiais que absorveram projetos, recursos, força de trabalho e ocupam lugares centrais na cidade de São Paulo. Se entrarmos no mérito dos símbolos e valores culturais subterrâneos, daqueles que não são vistos a olho a nu, que seguem na marginalidade e esquecimento, esse incêndio tende a ser maior.

Quantas bibliotecas, museus, centros culturais queimam no fogo brando há anos num exercício de esperar o próximo incêndio? E esse é apenas o problema dos espaços físicos e acervos, se levarmos em conta a falta das ações e interações que dão vida a esses lugares, o incêndio tende a se alastrar.

Portanto, não se preocupem apenas com o fogo que queima, o pior é o calor que o precede.

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