“Esses dias”


Acordo atordoado, a gastrite dá um bom dia renitente e azedo. O sono foi o corte de um dia anterior longo de emoções oscilantes e sensações contraditórias. 
As primeiras imagens desse dia veem do texto do mestrado encalacrado e dos discursos, cores, sorrisos nervosos que me atravessaram horas atrás. 

Olho pra cozinha, café a fazer, preguiça, desisto. 

Café na padaria. Balcão vazio, eu tô lá absorto e começa o diálogo, casal ao lado:

– É ladrão tem que ir para a cadeia.

– Deve ter roubado muito mais…

O atendente reforça:

– A gente tem que se livrar deles…

O drama da irrazoabilidade cotidiana, do transe coletivo, as palavras e nomes Lula, Globo, corrupção, impeachment se conformam em uma ladainha, aqui, ali.

Penso: como é duro ter que silenciar, como é horrível não poder falar, expressar a opinião. O motivo do silêncio? Cansaço, inabilidade de lidar com algo difícil de reverter, porque mesmo que diga algo vai ser sonoramente rebatido com bravatas e ira. 

Penso mais: como é duro viver num mundo de narrativa única alimentada dia a dia por uma rede de distorções e mentiras.

Não há nada de romântico e heroico em ter que se calar para não aumentar o azedume numa manhã.

  

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