arquivo

Arquivo mensal: maio 2017

Não me lembro em que ano li pela primeira vez o escritor paulista de Osasco, João Antônio. Lembro que foi nos anos 70, que eu era jovem (12, 13 anos) e que não foi livro, foi revista.
Era a revista Realidade, coleção herdada do meu avô Pedro, que infelizmente se perdeu no tempo, nas minhas casas, na vida. Eu fuçava tudo na casa do vô e a curiosidade às vezes me ajudava.
Foi o conto reportagem “Um dia no Cais” publicado em setembro de 1968 na Revista Realidade que me iniciou na obra de João. A reportagem que virou conto (pode ser o contrário também) foi uma encomenda do editor da revista, Paulo Patarra.
João Antônio ficou dois meses hospedado perto do cais de Santos, perambulando e vivenciado os dias e seus personagens. Deu no que deu, dizem a primeira reportagem conto escrita no Brasil.
Posteriormente ele publicou o conto com o nome abreviado “Cais” no livro Malhação do Judas Carioca.
Quando li “Um dia no cais” não sabia quem era e o que representava, João Antonio e foi definitivo. Seu ritmo, a linguagem, os tipos, as imagens do povo das ruas invsdit. Pouco depois conheci “Malagueta, Perus e Bacanaço” e mergulhei…
Hoje, ele, Lima Barreto e Graciliano Ramos guardam lugar no meu profundo eu e ali viverão no que me resta de vida.
“O que se chama noite não vem da luz elétrica. Nem das lâmpadas dos trilhos dos bondes se atirando sobre os paralelepípedos. Nem vem da lua ou das estrelas no céu, depois do lusco-fusco, hora muito fanada que pinta de preto casas, homens, mulheres e viventes do cais. Noite, noitão—aquela acesa, que se abre para a vida, arrebenta, é quando se acendem os luminosos dos cabarés. E a rua fica acordada.
O cais muda de cor e de tom num lance. Há uma lei nas ruas. Uma danação: a rua está tocada. Sopra uma alegria. Um sentimento feroz vai varrendo. Viver.”

Anúncios

Sem querer ser mais realista que o rei e dentro de um raciocínio predominantemente pessoal, digo que é muito perigoso glamourizar o uso de drogas. 
Falo sem medo, meu irmão foi usuário de cocaína no período de massificação dessa droga em SP (meados da década de 80). Não foi fácil lidar com os impactos negativos na vida dele, da família e com a rede que inclui outros adictos, tráfico e demais efeitos colaterais.
Tenho plena consciência que a forma de uso e os efeitos causados têm um peso individual que implica fatores genéticos, psíquicos, sociais e uma subjetividade difícil de quantificar e qualificar em cada pessoa. 
Que o uso de droga e suas consequências tem um lado triste e dramático não tenho dúvida, vi e vivi.
É nesse sentido que me incomodam as palavras de ordem e o discurso fácil e automático para falar da Cracolandia e da rede de cuidados e abordagens necessários ao fenômeno.
A droga pode entrar na vida de alguém em diversos momentos: de alegria, tristeza, abandono, euforia, descuido, desespero, despretensão, desatenção, o critério da diversidade e dos múltiplos motivos também funcionam aqui.
O adicto sofre as consequências da ausência do Estado antes, durante e depois da sua opção de uso, portanto

nem todos estão exercendo conscientemente e plenamente seu poder de decisão ao optar pelo uso.
Me enoja Dória e sua internação compulsória norteada pela criminalização, a lógica confinatória e a higienização, diante desses descalabros temos que avançar na construção de uma política pública para um assunto tão complexo e multiforme. 
O Braços Abertos foi um começo (com falhas e qualidades) lamento o seu abandono e não a sua qualificação e ampliação.
É um depoimento de um não especialista, peço aos amigos mais legitimados que me ajudem no avanço desse raciocínio.
Foto: Marcos Gomes

“A cracolândia acabou hoje – esbravejou o prefeito Dória, perfilado ao lado da PM, GCM, GOE, DENARC, todos os braços do aparelho repressivo do Estado no meio do fluxo em ação conjunta com o governador Alckmim.
Bombas, cassetetes e medo espalhados para tratar os adictos e o povo de rua. Na retaguarda, socorristas, assistentes sociais e outros poucos profissionais da reparação de danos. Pancada, descaso e excludência. É o destino triste dos nossos irmãos de rua.
É patente o método: dispersar, destruir, recolher os pertences, prender supostos traficantes e fazer valer a palavra da sua cidade linda para a banda rica. O higienismo muda de operador, mas é o mesmo que reina absoluto nos corações e mentes da nossa elite desde o século XIX.
A mídia sabia de tudo e estava de plantão desde as 6:30 da manhã, ajudando a construir a narrativa triunfalista do prefeito exterminador. Prisão de traficantes (sem maiores explicações de que tipo), mais prisões sem qualificação específica, destruição de hotéis e, por fim, o enterro do “Programa Braços Abertos” iniciado na gestão Haddad.
Agora é a “Redenção” da Internação compulsória ou vaza daqui. Todos os motivos contingentes que levaram essas pessoas ao uso da química e ao abandono nas ruas são restritas ao confinamento e a medicação, no mais é o abandono.
Dória recebeu 53% dos votos dos paulistanos para fazer pirotecnia? Dória que brada diariamente o Estado Mínimo, não abre mão do aparelho repressivo do Estado para varrer pessoas e problemas de saúde pública?
A Cracolândia é o sintoma mais contundente e visível da ineficiência gerada pela falta de uma política de Estado e na insistência por uma política de Governos que una saúde, segurança, educação e cultura.
Esse é o dilema de quem defende as políticas públicas e consegue enxergar para além das restrições impostas pela guerra cega entre público x privado: a perseguição de uma política de continuidade.
Dória, como qualquer prefeito, um dia passará. Mas há um legado, que pode ser de vida ou de morte, de lassidão ou de esperança. E como ele próprio disse hoje: isso é apenas o começo.
A foto e do Globo

(Postei pela dureza que expressa)

Ululante dizer que quando falamos em golpe midiático jurídico parlamentar estamos deixando de fora o principal promotor dessa patranha: o capital. 
É o mercado financeiro e meia dúzia de ultraempresarios que estabelecem os rumos do país.
O judiciário, a mídia e os parlamentares são pré postos e caudatários, ainda que nesses existem elementos que estão com o pé no andar de cima, como os Marinho por exemplo.
Os freios de arrumação são determinados pelos lucros (concentrados) e as diversas formas de exploração espalhadas pelo país.
O cálculo feito pelo status quo, a despeito da forma de manutenção e distribuição de poder, passa pela garantia de uma política econômica preconizada pelo neoliberalismo, ela é transnacional e apátrida. 
Meirelles é o nome que reina desde os tempos do Governo Lula, o homem acima de qualquer crise. Não é a toa que esteve em todos governos citados e no intervalo foi cEO da JBS (Friboi para os íntimos).
Tanto Bolsonaro como Dória, Alckimim ou Ciro, e porque não Lula, teriam Meirelles como o chefe de sua equipe econômica.
Só se supera esse impasse com a política e no campo econômico stricto com políticas anticíclicas e heterodoxa (segue oceano de conceitos e discussões aqui).
Dessa forma não há como combater as reformas catastróficas do governo temer fazendo vistas grossas para a equipe econômica, grande patrocinadora das reformas e representante do principal grupo que bancou o golpe.
Por que sugerem Henrique Meirelles como um dos principais nomes cotados para a desastrosa eleição indireta.
Nesse sentido gritar Fora Temer sem gritar Fora Meirelles não faz nenhum sentido. Meirelles está para além de Temer.
#foratemer #forameirelles #diretasja

Todas as reformas retrógradas que Temer está patrocinando (previdência, trabalhista, etc) estavam no programa de Aécio “el matador” Neves que foi derrotado nas urnas por Dilma e no dia seguinte afirmou que iria paralisar o governo dela. 
Lembrando que Aécio, que ate ontem estava na presidência do PSDB, foi flagrado em ato de corrupção, provado com imagens, dinheiro e operadores.
O PSDB foi um dos artífices do golpe contra Dilma, sendo um dos protagonistas na articulação e na votação do impeachment no Congresso.
Logo em seguida ao golpe, o PSDB assumiu funções chave no governo ilegítimo de Temer. 
Exemplos?
O Senador José Serra liberou o pre sal e colocou um conhecido operador tucano, Pedro Parente, para vender a Petrobras a preço de banana.
A reforma do ensino médio operada no MEC pelo double de ministro Mendonça Filho, é produto da Secretária Executiva, a tucana de quatro costados, Maria Helena Guimarães de Castro.
A já aprovada PEC do fim do mundo tem DNA tucano, assim como as ensejadas reformas trabalhista e da previdência.
Como que depois de tudo isso, os tucanos querem sair de fininho do governo decrépito de Temer e FHC, o ancião deletério do partido, ainda se vê no direito de indicar sucessores para o moribundo?
É muita hipocrisia e dissimulação.

José Dirceu de Oliveira e Silva nunca foi santo. Sua mão pesada alimentou muita polêmica dentro do PT, nunca deixou de se posicionar e incomodar.
Os caminhos e descaminhos do PT desde a abertura democrática até a eleição de Lula em 2002, tiveram as digitais e a assinatura de ZD. Pouco importa se gostamos ou não disso.
Não há porque santificar nem demonizar ninguém na política. Política é embate, e na construção de projetos de poder e governo decisões têm que ser tomadas, muitas delas polêmicas, raramente consensuais. Quem decide paga alto preço, há quem sirva apenas pra ser pedra, nunca vidraça, são exatamente os que fogem de tais decisões.
Foi com a prisão e condenação de ZD que o projeto de governo do PT começou a ruir, sendo ele o seu principal artífice. O mensalão foi pra derrubar ZD, na falta de Lula, acertaram o construtor.
Preso, ele jamais falou, mandou recado ou prometeu delação. Na república da caguetagem isso não é pouco. ZD se manteve firme. Irritou o coração da judicialização da política.
Hoje, beneficiário de habeas corpus (dispositivo constitucional e legítimo), ZD recebeu sinal verde pra sair da prisão. Não se sabe quanto tempo ele ficará ileso e à salvo do estado de exceção instaurado na capital fria, mas foi uma vitória.
Zé Dirceu sai da prisão pela porta da frente, sem bravatas e espetacularização. Acusações foram várias, poucas provas e muitas ilações, um processo kafkaniano e inconcluso.
O ódio ao ex deputado petista transcende às colorações ideológicas. Ele é odiado tanto pela esquerda recreativa como pela direita hidrófoba. Vai continuar, coerentemente, gerando polêmicas.
Segue a história…

%d blogueiros gostam disto: