“Abundantemente morte”


“Tabuletas
Grandes letras feito eu
Abundantemente breu
Abundantemente fel
Ninguém morreu
Ninguém morreu
Ninguém morreu

Desde cedo aprendi a lembrar música. Sem toca discos, gravador, walkman, iPod, Spotify. Música vive na minha cabeça. É só beber na fonte algumas vezes que algumas delas grudam na memória e voltam. Tem uma lista dessas lembranças grudadas.

Luiz Melodia, cantor e compositor carioca, emplacou algumas nessa lista, fácil ele foi colando na trilha da minha vida. Descobri o Melodia em 1975, na trilha sonora da novela Pecado Capital. Eu e o Brasil, descobríamos o compositor do Estácio através de Juventude Transviada.

Dois anos antes ele havia gravado seu álbum de estreia, Pérola Negra, com o auxílio luxuoso de Wally Salomão e a aproximação dos tropicalistas e da marginália que se resistia no mesmo passo que se escondia das mazelas da ditadura.

O negro do Estácio que se recusou a se fechar no samba, mas que reverenciava o samba sem esquecer blues, reggae, soul e as aberturas do pós tropicalismo. A indústria fonográfica acolheu.

À lista novamente: a introdução samba/ blues que Perinho Albuquerque faz em Juventude Transviada é um dos hits da minha lista imaginária. Vieram outras: Pérola Negra, Onde o Sol Bate e se Firma, Memórias Modestas, Dores de Amores, Presente Cotidiano…

Foi nos anos 80, na adolescência e saída dela, que Luiz Melodia se firmou como trilha da vida. E aí vieram moças que amei, que esqueci, que me esqueceram, que nem souberam, que disseram não. Tava lá o Melodia ajeitando chegadas e partidas.

São aquecidas e reconfortantes as músicas que nos acompanham e o privilégio de tê-las sem precisar toca-las é impagável. Elas ficam com a gente.

Luiz Melodia teve uma carreira errática, surgiu nos anos 70 como prodígio, caiu nas contradições do sucesso que a indústria concede e retira sem emoção, caiu no ostracismo, lhe puseram o rótulo de maldito, voltou nos anos 90 com releituras e algumas inéditas, experimentou merecido prestígio e sucesso, mas sem o viço inicial

Há tempos deixei de ouvir o Luiz Melodia, na verdade eu deixei de ouvir muita coisa. No entanto, a biblioteca de memórias musicais grudada na cabeça funciona a pleno vapor. Vire e mexe me pego lembrando, ouvindo, sorrio e vem tristeza.

O tempo muda as coisas. É tão óbvio, mas nem por isso deixa de doer. Vão embora os músicos, os caras das letras, gente que te ajudou a viver mais docemente. O tempo.

Luiz Melodia nos deixou nesse 04 de agosto, 66 anos. É dele parte da minha biblioteca de lembranças musicais. Vai comigo até o dia que lembranças, reminiscências e melodias não fizerem mais sentido.


Foto: Nego Júnior

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